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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

30
Set21

Rendeiro Poppins


Pacotinhos de Noção

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Porque razão me passou pela cabeça associar João Rendeiro, o mais recente fugitivo português (não mais ilustre porque Manuel Palito é Manuel Palito), a essa tão simpática e mui ilustre ama da Disney, que mais não é que uma figura mágica e que até tem uma frase inventada, a "Supercalifragilisticexpialidoce", que também encaixa no banqueiro que nem uma luva?

Primeiro porque ao ver esta foto com o guarda-chuva ou o associava à Mary Poppins ou à Rihanna, mas imaginar João Rendeiro a dançar e a cantar o "Umbrella" é uma visão dantesca, por isso...

Mas a verdade é que eu acho que João Rendeiro é na realidade a Mary Poppins. Sem aquela fantochada toda dos miúdos e dos desenhos animados, mas é a feiticeira do guarda-chuva.

Comecemos por ai.

Rendeiro, fugiu, sumiu, escapuliu-se. Diz-se que foi num avião privado mas tenho sérias dúvidas uma vez que o simpático vigarista não tem boas memórias com privados. O banco dele era privado e deixou-o em maus lençóis, iria arriscar em meter-se de novo em algo privado, sujeito depois a ficar num estabelecimento prisional que até é público? Nem pensar.

Ah e tal, mas ele apanhou o avião privado no Reino Unido, não havia forma de saber que ia fugir...

É verdade. Tolice minha.

Eu se tivesse o rabo preso, milhões em "offshore", uma pena de 19 anos para cumprir e uma patega de uma juíza, e de um Conselho Superior de Magistratura, que acreditassem que eu ia até ao Reino Unido tratar de problemas de saúde, não ia aproveitar para me pôr ao fresco, ai não que não ia. Mas atenção, o homem não mentiu. Foi para o Reino Unido tratar de questões de saúde e a prova disso mesmo é que quando a Ex.ª Sr.ª Dr.ª juíza lhe perguntou : - Não vai fugir, pois não!?

Ele respondeu com todas as letras:

- Pela minha saudinha, Ex.ª.

Mentir não mentiu, obviamente que neste momento goza de melhor saúde do que aquela que teria se estivesse a ver o sol aos quadradinhos. Agora deve estar a ver o sol, mas numa praia paradisíaca, com uma Pina colada numa mão e um responso ao Stº António na outra, para ver se consegue encontrar algo que tanto ele, como a justiça portuguesa parece que perderam, e que é a vergonha na cara. Quem não perceber esta alusão ao responso de Stº António, só posso sugerir que pesquisem.

Mas e a Mary Poppins!? Calma.

Mary Poppins aparecia e desaparecia dos sítios voando agarrada a um guarda-chuva. Era magia. João Rendeiro avisa que não vai voltar a Portugal e quando o faz muita gente pergunta "mas ele não estava cá!?"

Estava, mas fez magia e materializou-se noutro sítio.

Mary Poppins inventou a frase "Supercalifragilisticexpialidoce", que dá o nome a uma canção que descreve a forma milagrosa para se sair airoso de situações difíceis, e mesmo mudar a sua própria vida. ISTO NÃO É O QUE FEZ RENDEIRO? Ele é a Mary Poppins mesmo.

Entretanto, a juíza que condenou Rendeiro e que também lhe permitiu que se fosse tratar ao Reino Unido, já emitiu um mandato internacional para prender este fujão. Nem é por uma questão de justiça, mas a mulher está desiludida porque sentiu a sua confiança traída e ao que parece até já deixou de seguir o Instagram do ex-banqueiro. Torna a ser burra, porque seguindo o Instagram até podia ficar a saber onde é que ele está, "desamigando-se" é menos uma pista que tem disponível. São só tiros ao lado.

Para finalizar queria deixar uma sugestão à Sr.ª Dr.ª Juíza.

Ponha a polícia francesa à procura do fundador da Frize (sim, João Rendeiro fundou a Frize mas foi o BPP que meteu água).

Uma vez excedi o excesso de velocidade em França, e a multa chegou-me a casa quase mais rápido do que eu. E eu nem tenho a morada traduzida para francês nem nada, por isso vejam bem a capacidade daqueles "Monsieurs".

29
Set21

Então e agora, faz-se o quê?


Pacotinhos de Noção

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A pandemia acabou.

Ainda não vi nenhuma notícia que o divulgue mas isto é um facto. A pandemia conforme já a vivemos, acabou.

Ainda há casos de Covid, vão continuar a haver mas agora é que se vai começar a viver o tantas vezes repetido "novo normal", e o novo normal mais não é do que nos habituarmo a viver numa normalidade parecida com a que dantes tínhamos, com a consciência de que existe um vírus que faz parte de tantos outros que nos afectam e que nem por isso nos escondemos em casa, ou andamos a medo na rua.

A prova não foi bravamente superada. Muitos morreram, muitos ficaram com mazelas, muitos viram negócios e vidas destruídas. Não sabemos quantos assassinatos foram cometidos por causa dos confinamentos, e não sabemos quantos suicídios, com ligação directa à pandemia, aconteceram. O saldo não poderá nunca ser positivo.

A situação que vivemos permitiu perceber que a nossa sociedade não é má. A nossa sociedade é uma autêntica merda.

No início, quando pensavam que isto ia durar uma, na pior das hipóteses, duas semanas, andaram a espalhar arco-íris, a bater palmas e a fazer serenatas das varandas de uns para os outros. Mas isto era fogo de palha. Ateou rápido, mas rápido se extinguiu.

Os confinamentos deram os seus frutos. Os trolls, os adolescentes e os velhos malucos que não tinham vida, e que passavam o dia "alapados" em frente a um computador, não aguentaram estar em casa, com familiares com quem não estavam habituados a coabitar sem ser apenas à noite. Precisaram de fugir de qualquer contacto social normal que poderiam ter, e de tão malucos procuraram teorias que lhes fizessem correr o sangue nas veias. Deram de caras com as teorias negacionistas e adoptaram para si estas anormalidades, que se podem equiparar ao "terra planismo".

Mas e agora que o COVID vai começar a ser muito menos falado, o que vai acontecer? O que poderão estes nossos amigos fazer para continuarem a ter papel tão activo e tão importante para a sociedade e que é o papel de mentecaptos?

Já vi um ou outro exemplo de que agora se vão começar a virar para outras pandemias que assolam a nossa sociedade. Aquela que me saltou à vista foi a da obesidade. Já há alguns destes elementos que vão preparando terreno e afirmando que a "obesidade envenena a sociedade".

Se virem um gordo num restaurante vão gritar e chamar-lhe pedófilo, como fizeram com Ferro Rodrigues?

Eu sei, isto parece descabido, mas o problema é real porque este pessoal é como os animais que provam sangue uma vez, e depois ficam quase que em estado selvagem, salivando pela próxima vez em que o possam voltar a provar.

Não costumo generalizar mas neste caso vejo-me obrigado a isso. Houve uma altura em que ainda justificava que tínhamos várias espécies de negacionistas, mas a verdade é que não. Não há um negacionista que seja bom da cabeça. Quem defenda o que os negacionistas defendem, quem se baseie em vídeos e artigos de pessoas que claramente têm distúrbios mentais, como o juiz que está a usar estes desgraçados para se promover com o intuito de um dia mais tarde se candidatar a um qualquer cargo político, demonstra claramente de que, e desculpem-me a expressão, "não jogam com o baralho todo".

Sugiro desde já, que caso estes indivíduos se juntem para estigmatizar alguém, ou grupos de pessoas, deviam de imediato ser alvos de processos criminais que deverão chegar às últimas consequências. Vivemos em liberdade mas também vivemos em sociedade, e se existe alguém que não o compreenda ou respeite, então tem que ser chamado à razão.

Para terminar gostaria de mais uma vez prestar a minha homenagem aos Almirante Gouveia e Melo.

Terminou hoje, com um sucesso avassalador, a sua missão na Task Foce.

Não levantou ondas, fez o seu trabalho e quando viu que estava feito, meteu-se no seu caminho, rumo ao pôr-do-sol, sem se sentir necessitado de colher louros, que lhe seriam todos mais que justos. Mas estes louros não ficarão muito tempo no chão. António Costa há-de lhes fazer uso.

O que não é de todo normal é existir alguém que faz um trabalho de excelência mas que chegando a altura certa de se retirar o faz sem qualquer tipo de problema.

Os meus parabéns pelo trabalho e os parabéns pela dignidade...

Amigos negacionistas, dignidade é uma coisa que dificilmente compreenderão. Tem que ver com moral, decência e respeito.

28
Set21

O regresso da "Querida Júlia"


Pacotinhos de Noção

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Caso estejam a pensar que falo do extinto programa das manhãs, apresentado pela Júlia Pinheiro, estão redondamente enganados.

A querida Júlia de que falo é outra. Era aquela Júlia que vinha acompanhada pelo querido Rui Zink, pelo querido Manuel Serrão, pelo querido Miguel Esteves Cardoso e até pela, por mim um pouco menos querida mas ainda querida por estar incluída neste "bouquet", Rita Blanco.

Hoje foi para o ar o primeiro episódio do "podcast" d'A Noite da Má Língua.

Infelizmente, o Miguel Esteves Cardoso não embarcou nesta magnífica viagem no tempo, mas tenho esperança que futuramente nos faça uma surpresa.Bonito bonito foi ouvir de novo, 25 anos passados, todas juntas estas vozes tão conhecidas, que têm na boa disposição e na assertividade das suas opiniões a fórmula vencedora, e que tanto sucesso fez no passado. Sucesso esse que certamente se irá repetir.

O curioso é que ao começar a ouvir o episódio senti-me como quando ficamos sem estar com um amigo durante muito tempo, mas que quando o encontramos a conversa surge e flui com naturalidade. Aqui a conversa surgiu, da parte dos emissores com a fluidez que lhes era característica e eu absorvi como sempre o havia feito. Com gosto e ávido de mais.

Há 25 anos estes tipos ajudaram um adolescente a formar as suas opiniões, a definir os seus pontos de vista e a compreender que a política não teria que ser algo aborrecido.

Lembro-me bem do pequeno segmento programático que era a atribuição dos prémios da Má Língua. De início, quando ainda não se sabia bem o que era o programa, eram ainda alguns os vencedores que recusavam o prémio, que não recebiam a Júlia e que eram até desagradáveis. Mais tarde, quando a fama já os precedia, era habitual os visados dos prémios mostrarem o seu sorriso amarelo, muito "contentinhos" com a oferta e havia até alguns que coleccionavam os cilindros de ponta esférica cravejados de bicos.

Fiquei, e estou, genuinamente contente por ter um dos meus programas preferidos de volta. Foi o precursor de programas como o Governo Sombra, agora Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer, o Eixo do Mal e outros que entretanto até deixaram de existir. Mas nenhum conseguiu nunca ter o "Je ne sais quois" que "A Noite..." tinha.

Fico também contente por ter a Júlia Pinheiro de volta a um formato que é aquele que de facto lhe fica bem. Fui já entrevistado duas vezes pela comunicadora, em contextos diferentes. Foi sempre muito simpática e profissional, e mesmo sabendo que trabalho é trabalho, não conseguia deixar de pensar que a Júlia Pinheiro, que tinha ali à minha frente, era aquela que políticos, alguns até com os cargos mais elevados do país, temiam e evitavam.

Não tem desprimor nenhum apresentar um programa da manhã ou da tarde, e esse é ainda o formato que Júlia Pinheiro está a fazer, mas tenho que admitir que este género de programas está demasiado bem servido nalgumas das caras de quem os conduz, aqui personificado na Júlia Pinheiro e no Manuel Luís Goucha, noutro caso concreto.

Mas não é disso que queria escrever.

Queria apenas regozijar-me e informar que a Noite da Má Língua voltou, no formato "podcast" e para terem acesso basta pesquisarem no Spotify, por exemplo.

Vou ficar a torcer para que dure pelo menos tanto tempo como o de há 25 anos durou, que o MEC se venha juntar aos seus compinchas, e que daqui a pouco tempo passe de novo para a SIC generalista, para podermos assim ficar tontos com as opiniões inebriantes do Rui Zink, as gargalhadas estrondosas do Manuel Serrão e o mau feitio da Rita Blanco, que tem no Serrão o seu saco de pancada preferido, e vice-versa. Isto tudo conduzido pela Júlia Pinheiro que julguei que já não mais ia rever e que é, esta sim, a Querida Júlia que tanta faz falta à televisão. 

24
Set21

Adorava chafurdar na lama


Pacotinhos de Noção

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Estou a pouco, mesmo muito pouco, de me tornar um porco capitalista.

A parte do porco chego lá com facilidade, a do capitalista são precisos alguns itens de que, infelizmente, ainda não disponho, sendo que o principal é o dinheiro.

A hipocrisia social tende a desprezar e até a ostracizar quem se assuma capitalista, mas o que é um facto é que de médico, louco e capitalista todos temos um pouco, mesmo que não seja à vista.

 O meu amigo quer carro? É capitalista.

Casa? É capitalista. O novo Iphone, a Playsation 5, vais aos MacDonalds ou ao Starbucks? És capitalista. E tudo isto é verdade. Trabalhamos não porque gostamos e mesmo que se goste daquilo que se faz, quantos dos que estão a ler seriam capazes de ir trabalhar sem ganhar ordenado? Nem um e percebo bem porquê.

Primeiro porque há contas para pagar, e depois porque há coisas que por mais básicas que sejam, temos sempre que comprar ou porque queremos apenas comprar. 

Acho sempre imensa piada quando nas notícias fazem uma reportagem com uma família inglesa ou holandesa, que escolheu Portugal para viver e que vão fazê-lo apenas com o que a natureza lhes dá, e da forma mais sustentável possível.

 E a reportagem inicia assim:

"Cansados da azáfama, e da sociedade capitalista em que estavam inseridos, Brunswichk e Antje pegaram nos seus filhos, viraram costas à Holanda e mudaram-se para uma pequena quinta que compraram no Algarve, onde se alimentam apenas daquilo que a terra lhes dá. De forma a serem mais sustentáveis, instalaram painéis fotovoltaicos..." - PÁRA TUDO. 

Então instalaram painéis fotovoltaicos na quintazinha que compraram? Porra para eles e porra para a reportagem.

Fogem da sociedade capitalista sendo capitalistas? Porquê?

Eu respondo porquê, porque o capitalismo não é uma doença, o capitalismo é a naturalidade das coisas e sempre foi assim. Mesmo noutros tempos em que era praticada a troca direta, em que uma galinha dava direito a um saco de farinha e uma saca de batatas a uma dúzia de ovos, o gajo que criava os porcos tinha sempre mais quem com ele queria trocar do que o gajo que só tinha estrume para a troca.

Chamo a atenção de que até mesmo o comunismo, essa ideologia tão magnífica e que tantos frutos deu à humanidade, que foi inventada por Karl Marx, filho de senhores de classe média alta, e Engels, filho de um industrial rico, assenta no princípio de que para o próprio comunismo existir, tem que beber da fonte do capitalismo. Porque dividir lucros é bonito, mas esses lucros só existem se houver trabalho e dinheiro a circular.

Eu percebo que grande parte das pessoas, quando se refere ao capitalismo, está a querer dar ênfase aos patrões que exploram os trabalhadores, aos parcos ordenados, aos lucros excessivos... Lucros excessivos que para mim são uma falácia. Um lucro nunca é excessivo e se alguém cria um qualquer negócio, obviamente que vai querer lucrar o mais que puder. É legítimo e até salutar que o faça, desde meio que esse lucro advenha daquilo que produz e vende, e não de cortes de pessoal e extensão de horas trabalhadas, sem a devida compensação.

O problema aqui acaba mais uma vez por ser o pessoal hipócrita que quer mandar abaixo o capitalismo, mas apenas aquilo que geralmente não usam ou não gostam. Ou então nem querem mandar nada abaixo, pois têm consciência de que aquilo que dizem são apenas palavras ocas mas que gritadas aos quatro ventos fazem-nos parecer pessoas transcendentes que sabem viver melhor que os outros. Pelo menos é o que as fotos, tiradas com os seus Iphones, dão a entender.

Já eu volto a dizer que quero ser um capitalista.

Anseio pelo dia em que não tenha que me preocupar se há ou não saldo suficiente para o débito desta ou daquela conta inesperada. Quero poder consumir sem pensar se aquele dinheiro me vai fazer falta e quero poder acender os meus charutos, utilizando como isqueiro uma nota a arder. Eu nem fumo, mas passo a fumar só para fazer esta extravagância. Ou então acendo o charuto a alguém, só para não dar cabo da minha rica saúde.

E sim, já agora emprego umas quantas pessoas numa qualquer empresa, só para as poder explorar e assim ser um porco capitalista a 100%

Enquanto isso não acontece, vou-me divertindo a ver os "comunas" capitalistas a apregoarem uma coisa e a fazerem outra.

23
Set21

Anciões da contramão


Pacotinhos de Noção

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Ontem, em Santarém, um homem de 81 anos entrou em contramão no IC2. Conduziu por vários quilómetros ignorando as buzinas de todos que lhe chamaram à atenção, e acabou por causar um acidente cujo desfecho foi o de ser ele a única vítima.

Os velhos são teimosos. Os velhos sabem tudo e não aceitam sequer que estão a andar em sentido contrário. Todos os outros é que estão mal. O velho foi o culpado e então o velho pagou, e muito bem, com a própria vida. Ainda para mais já tinha 81 anos, se não morresse disto ia morrer doutra coisa qualquer. Certo?

Errado. Tudinho errado, ou quase tudo, porque que os velhos são teimosos é um facto.

A morte deste senhor podia ter sido evitada, o transtorno de quem chocou contra ele, e que se poderá sentir com remorsos sem ter culpa alguma, também. Ele tinha 81 anos, mas será que não ia chegar até aos 100!?

E o que é que poderia ter acontecido se a pessoa em quem ele chocou tivesse os filhos no carro? E se fosse uma mota?

Porque é que isto aconteceu? Porque não parou quando lhe buzinaram?

Não tenho respostas concretas mas tenho algumas suposições e uma certeza mais que absoluta.

Obviamente que o homem não tinha consciência que estava em contramão, e muito provavelmente nem ouviu que lhe estavam a buzinar.

Repito que são suposições, mas em muitas pessoas de 81 anos, a audição, os reflexos e a clareza mental são coisas do passado. Nada me garante que esta pessoa tivesse sequer a noção de que estava a colocar-se a si e aos outros em perigo.

Uma coisa é certa, no meio deste anúncio de desgraça foi uma sorte que quem lhe tenha aparecido à frente tenha sido um monovolume BMW. Não sou fã mas os danos para o condutor seriam provavelmente fatais se estivesse num Fiesta ou num Punto. Carros de gama alta têm sistemas de retenção e segurança mais eficazes e neste caso resultou. O senhor da carrinha antiga e com poucos meios de segurança morreu, e o do BMW teve ferimentos ligeiros. Valha-nos isso.

Este acidente tem culpados, e ao contrário do que possam pensar o maior deles não é o velhote da carrinha. Tem a sua quota-parte de culpa como é óbvio, mas pagou com a vida, facto que como já afirmei poderia ter sido evitado por aqueles que, esses sim, são os principais culpados.

Para mim os principais culpados são os órgãos legisladores que permitem que seja possível continuar a conduzir aos 81 anos, sem que sejam dadas provas concretas de que ainda se tem essa capacidade.

A generalidade das pessoas tem conhecimento de como são feitas as renovações da carta de condução aos idosos.

Um velhote dirige-se a uma escola de condução, no dia e hora marcada, e que é aquele que o médico que presta serviços ao estabelecimento de ensino define, e é submetido a uma pequena entrevista onde o médico lhe pergunta "Vê e ouve bem, Sr.Albano?". Pergunta que tem que repetir mais uma ou duas vezes porque o Sr.Albano não vê, não ouve e nem sequer a pé anda bem, porque o seu corpo já não lho permite. Mas o dinheirinho tem que entrar e é passado então o atestado para renovação da carta, sendo aqui os médicos e escolas de condução também culpados por se permitir que andar na estrada, já de si perigoso seja ainda mais, por existirem pessoas pouco capacitadas para isso.

Não digo que todos os idosos sejam proibidos de conduzir. Existem os que aos 85 ainda demonstram clareza e disponibilidade mental para tal, mas na sua grande maioria não é o que acontece e deixam que uma pessoa sem todas as faculdades necessárias pegue naquela que é uma arma carregada, e pronta a disparar.

Envelhecer é uma trampa. Deixar de se conseguir fazer o que fazia, ser tratado com condescendência pelos mais novos, ter que ouvir os mesmos mais novos falarem consigo como se fosse um bebé ou um retardado... Eu percebo isso tudo. Mas também percebo que a maior parte dos idosos não querem dar parte de fracos, quando na verdade até já sabem que não conseguem fazer o que dantes fariam, com uma perna atrás das costas. Mas se os nossos velhos não têm a clareza de espírito para deixar de conduzir quando deveriam, não deveria ser permitido que os atestados médicos sejam passados por dá cá aquela palha.

Em idosos a renovação só seria feita depois de submetido a novo teste teórico, exames físicos e exame prático.

Provavelmente se na última renovação isto tivesse sido feito a este senhor, ele andaria de táxi, mas estaria vivo e não teria colocado vidas em risco.

22
Set21

O que é bom é para se ver


Pacotinhos de Noção

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Hoje vi uma aluna de uma Escola Secundária perder totalmente a noção, ao se apresentar nas aulas com um decote igual ao da imagem.

Falei em assunto semelhante há 6 dias, no texto "Polícia na Moda".

Cada um é livre de vestir aquilo que lhe apetecer e se quer parecer "Emo", "Dred", "Pin Up", seja aquilo que for, tem todo o direito de o fazer, mas sempre tendo em consideração o ambiente em que se vai apresentar.

Isto não é uma questão sexista ou de qualquer outro "ista" de que queiram apelidar. É apenas uma questão de educação, noção e saber estar.

Uma rapariga que se dirige nestes preparos à escola deveria de imediato ser recambiada para casa porque ir estudar não é o mesmo que ir sair com os amigos, ir a um casamento ou a uma outra festa qualquer. O foco na escola tem que ser o estudo, por mais que os alunos não o queiram perceber.

Uma aluna levar um decote destes para a escola trata-se apenas de uma tentativa de rebeldia ou marcar uma posição que é, permitam-me que diga, desajustada.

Posso equiparar este decote a um outro qualquer aluno que queira (e também ele tem esse direito) de ir para a escola com um valente saco de bosta pendurado ao pescoço. Não é estético mas foi essa a sua vontade, e por ser a sua vontade deverá ser permitido?

À primeira pessoa que diga que o decote se deve a razões de "encaloramento" afirmo com convicção que testículos acondicionados em roupa interior, com uma camada de ganga por cima, numa sala de aula sem arrefecimento e com temperaturas semelhantes às de pico no Verão, nunca me fizeram cogitar a hipótese de andar com eles de fora.

Não será a mesma coisa que um decote!? Pois não... Atingem temperaturas bem superiores, quase que dá para assar castanhas.

Mas voltando ao assunto em questão.

Quando estas situações acontecem julgo que a atitude correcta do estabelecimento de ensino seria a de tentar chamar a aluna à razão. Mas atenção, deveria ser uma professora a ter este gesto, porque é certo e sabido que se for um professor ele só o fez porque é um porco misógino, um tarado, ou um pedófilo.

Um decote é como que ter um elefante na sala, ainda mais se a aula for de um professor.

A pessoa que melhor se sente é a portadora do decote, porque o seu intento foi atingido. Queria marcar e marcou.

Para os colegas é uma alegria. Primeiro porque, no que à estrutura psicológica diz respeito, ainda não são maduros e como tal vão apreciar e comentar o traje pouco académico da moça. Segundo porque querem conseguir apreciar o prato do desconforto do professor ou da chamada de atenção que o mesmo poderá fazer, e o burburinho que dai advém, porque como se sabe a razão está sempre do lado de quem mais grita, quem mais esbraveja e quem mais se vitimiza.

Outro desconforto é o do professor porque sabe que se fizer a tal chamada de atenção vai ser atacado, se fizer uma pergunta à rapariga, mesmo que só diga respeito à matéria dada, vai ser alvo de comentários maliciosos, se ignorar, vai ser alvo de comentários maliciosos, mesmo que seja uma professora, vai ser alvo de comentários maliciosos, como o facto de sofrer de inveja por já não ser jovem ou não poder mostrar tanto o seu decote... Velha chata.

Sinceramente acho que não estou errado. Por vezes penso que ao defender um pouco de sensatez pareço um elemento do clero que diz que tudo é pecado mas na verdade não é isso que eu penso. Aquilo que penso é que o que é bom é para se ver, e para mim bom, mas mesmo bom bom, é um bocadinho de respeito, educação, ponderação e principalmente noção.

O que eventualmente um dia poderá vir a acontecer é a implementação da obrigatoriedade de fardas ou batas, até nas escolas públicas, e então o contra argumento de vitimização será o de que parece que vivemos em ditadura e que não é constitucional limitar a liberdade de cada um... O que é uma chatice.

21
Set21

Não tenho causas por causa das causas


Pacotinhos de Noção

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Todos têm causas.

Seja a sororidade, a igualdade de género, a defesa dos animais, a sustentabilidade do planeta, a pegada ecológica ou a luta contra o uso de plástico, na verdade não interessa qual a causa que se diz que se defende, nem tão pouco se ou como se defende. É preciso é fazer muito barulho para que todos percebam que se é uma pessoa de causas.

Pois no meio de tantas causas e causinhas devo dizer que eu não sou uma pessoa de causas. Pelo menos dessas todas que estão na moda.

Motivos? Tenho vários, mas os principais são porque sou preguiçoso e se me propusesse a defender algo, certamente que teria que fazer mais do que apenas fazer partilhas em redes sociais. Defender uma causa não é feito apenas no mundo da internet.

A grande parte destes novos defensores só afirmam que o fazem porque têm de alguma forma preencher o enorme vazio que os rodeia. Um vazio que ainda por cima é moral. Não é por acaso que é na geração Z que moram a maior parte destes activistas de causas sem efeitos.

Nos anos 70 foi preciso lutar pela liberdade, nos anos 80 havia o flagelo da droga e a SIDA era uma sentença de morte, a partir dos 90 as coisas começaram a acalmar mas ainda assim os estudantes tiveram as suas lutas contra as propinas, e agora tem que se inventar alguma coisa para que não sintam que a sua existência se está a transformar num enorme nada.

 Mas depois são mais uma vez hipócritas, quando reclamam da pegada ecológica mas não abdicam das suas viagens de avião por mero lazer e capricho de poder dizer que estiveram aqui e ali. 

Quem morar perto de uma escola e de um supermercado, como comigo acontece, percebem o quão incongruente é esta geração Z, que defende como é criminoso usar plástico mas que depois o usam e até o deixam espalhado pelas ruas, quando até existem ecopontos nas imediações da escola.

Não me importo de ser apontado como alguém que não tem causas que queira defender, até porque não é verdade. As minhas causas são é minhas. Não tenho a pretensão de conseguir mudar o mundo de forma imediata. Vou, por exemplo, educando os meus filhos de forma a que sejam pessoas como devem ser e digo desde já que me parece que estou a fazer um bom trabalho. Isto aquece ou arrefece a sociedade? Para já poderá em nada alterá-la, mas se eu criar uma criança, que um dia mais tarde venha a ser um bom cidadão, julgo que a causa que escolhi para mim estará já ganha.

Ganha gostos e seguidores nas redes sociais?! Não. Mas dá-me enorme paz de espírito e satisfação pessoal.

Se me perguntarem se tenho algo contra a geração Z...

Sou um "Millenial", logo o meu estado normal é arreganhar o dente para os Z... Assim como a geração X ainda é aquela que vai patrocinando grande parte dos Millenials e dos Z's.

20
Set21

Ah "ganda" macaco!!


Pacotinhos de Noção

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Este calvo e simpático senhor é Duarte Lima. Grande parte saberá de quem se trata mas para os desinformados faço um pequeno resumo.

É um bandido.

Faço esta afirmação com convicção porque de momento o ex-político até se encontra detido por burla qualificada e branqueamento de capitais.

Escrevi ex-político mas não o deveria ter feito. A política é como a sarna, mete-se na pele e para que saia é um sarilho.

Definir o currículo de Duarte Lima como sendo só bandido é redutor, e até injusto.

Nascido em Miranda do Douro só pode ser boa pessoa. É comum dizer-se o quão boas são as pessoas de Trás-os-Montes e Duarte Lima não há-de ser excepção. É isso e ser desprendido, uma vez que sendo um de nove irmãos, a partilha há-de ter sido valor forte que tem presente até hoje.

Foi deputado da Assembleia da República e Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, tacho... perdão, cargo que perdeu quando foi alvo de suspeitas de ocultação de património, tendo colocado grande parte daquilo que era seu em nome de uma sobrinha com poucas posses.

Um pequeno erro que certamente não se tornaria a repetir.

Estava a brincar. Viria a repetir-se e até pior. Duarte Lima é suspeito de ter assassinado uma sua cliente no Brasil, que terá feito uma transferência no valor de 5,2 milhões de euros para a conta do advogado, com o intuito de que os seus filhos não lhos tomassem.

E não tomaram. Tomou antes o carequinha português, alegadamente. O que não é alegadamente é a velhota ter sido morta a tiro.

Duarte Lima fugiu para Portugal e houve depois todo um bailado de processos, trânsitos em julgado, decisões e indecisões.

Esta introdução toda para quê? Para uma pergunta muito simples.

QUANTOS, daqueles 230 deputados ( não interessa de que partido) têm comportamentos hediondos e criminais como os de Duarte Lima, mas que passarão por entre os pingos da chuva e nunca serão criminalizados?

Haverá ainda alguém que defenda que Portugal é um país de políticos sérios, e onde não existe corrupção, como se ouvia à boca pequena nos finais da década de 80, princípios de 90.

Era uma daquelas mentiras que se tornaram numa quase verdade absoluta, para a população desinformada.

Era a treta de não haver corrupção e a de termos das melhores polícias judiciárias da Europa.

Até acredito que a maior parte dos deputados da Assembleia sejam homens com uma seriedade aceitável, mas tenho a certeza que não seria preciso escarafunchar muito para encontrar mais uns 3 ou 4 Duarte's Lima, talvez até com currículos criminais mais extensos do que o dele. Bem escondidos, mas mais extensos.

Gostaria de referir que Duarte Lima continua a receber uma subvenção vitalícia de 2200 euros por mês, o que a mim me parece escandaloso. Qualquer político que seja condenado por um crime deveria perder todas as benesses que aufere, como resultado de cargos políticos que tenha ocupado e que usou para assim obter os seus intentos criminosos.

Finalmente veio a decisão de que o advogado vai ser julgado em solo português.

Parece não ser a hipóteseque mais lhe convém, mas o que é verdade é que já numa primeira instância os tribunais portugueses, mesmo confirmando que houve a transferência dos cerca de 5 milhões para Duarte Lima, disseram não ser possível afirmar que o ex-deputado tenha assim cometido o crime de abuso de confiança.

Pouca fé vou tendo na justiça portuguesa, principalmente quando quem está no banco dos réus é um político, mas será que vai haver coragem para condenar o homem por este crime, que até aconteceu do outro lado do oceano, como se isso retirasse gravidade ao acto?

Haverá quem diga que condenarão, se for caso disso, uma vez que ele agora até está preso. Mas está preso a cumprir uma pena de 3 anos e meio, que é apenas uma fracção da pena total deste crime pelo qual foi punido.

Os políticos portugueses fazem-me lembrar os antigos filmes do faroeste, em que mesmo havendo um Xerife, quem mandava na cidade eram os bandidos.

Todas as semanas vão saindo notícias de erros judiciários ou condenações que não aconteceram, e nalgumas até dá para ficarmos incrédulos.

Ou foi porque a prova não serviu de prova porque foi entregue tarde demais, ou porque a escuta não foi autorizada por um juiz, ou porque os prazos do julgamento não foram cumpridos.

Sinto cada vez mais que vivemos numa república das bananas mas em que nem os macacos conseguimos ser. Os macacos são eles, e os bananas somos nós, que somos devorados, sem nada podermos fazer.

17
Set21

Polícia na moda


Pacotinhos de Noção

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Numa vida passada devo ter sido um gatuno ou outro tipo qualquer de fora da lei, porque quando passo por polícias fico sempre com receio de que me mandem parar. Tanto a pé quanto de carro.

Uma vez que nunca cometi qualquer tipo de crime, só consigo justificar este meu sentimento com uma palavra. Respeitinho. Daquele, que é muito bonito e todos gostam.

Mas começa a ser um pouco mais difícil manter este meu respeitinho.

Nada contra as autoridades e até nem sou um adepto do "fuck the police".

Gosto deles, preciso deles e a polícia é como o dinheiro, quanto mais melhor. Mas tenho uma característica que é a de achar ridículo homens com calças apertadinhas e daí o meu respeito estar a mudar.

 É verdade. É um preconceito como outro qualquer e pasmem-se, embora pareça, não sou perfeito e também tenho preconceitos.

Dentro da farda de um polícia existe uma pessoa. Muitas das vezes essa pessoa é um homem, e como a nova mania dos homens é andarem de calças mais apertadas que os collants do Robin dos Bosques, reparei que também os polícias querem ser vítimas da moda e começaram a apertar as calças da farda.

Qual o problema, perguntarão alguns de vocês.

Vários. Numa corrida entre, um meliante de calças largas e um polícia de calças apertadas, claramente o meliante leva vantagem. Se tiver então a presença de espírito de saltar por cima dum muro, era uma vez um polícia. Nem por um decreto, o polícia das calças apertadas, conseguirá alçar a perna, para fazer a maldita escalada.

Cada um é livre de vestir o que quiser, mas há que perceber que há coisas que são adequadas e outras não. Falo principalmente na questão de fardamentos. Quando alguém, no seu emprego, tem que vestir uma farda, ainda para mais na área da Segurança Pública, há a necessidade que perceba que a farda foi concebida e idealizada para aquela função. Se não tem, por exemplo, as pernas apertadinhas de forma a cortar a circulação, então não se deverá poder alterar de forma a que assim fiquem.

E não é de todo adequado. Eu quando vou ao dentista não estou à espera de ver um tipo de havaianas e camisa de cava com a broca na mão para me obturar um dente.

Há tempos houve a polémica de um professor da Faculdade de Direito da Universidade do Porto que se recusou a dar o exame à aluna por achar que a rapariga não estaria vestida de forma adequada. Estaria muito destapada.

Foi chamado de porco, tarado, misógino, castrador. Mulheres, que habitualmente roem os ossos umas das outras, uniram-se contra o badalhoco do professor, homens que aproveitam qualquer situação para fingir que defendem a causa feminista, podendo assim tentar aproximações ao sexo oposto, quase que ameaçavam de porrada o docente, que para eles era indecente...

Raras foram as pessoas que tiveram a coragem de ir contra a corrente e dizer que sim senhor, o professor até poderá ter tido razão. Há situações que requerem um código de indumentária diferente. Estamos numa faculdade de direito. Depois de formada, e no exercício das suas funções, a aluna, na altura advogada, irá apresentar-se a um juiz com roupas não tão próprias para ir a esse mesmo tribunal?

Se para sair à noite não podem ir com umas simples calças de ganga e uma t-shirt branca, porque é que para fazer um exame não pode pensar naquilo que iria vestir, se seria adequado ou não.

Não sou o polícia da moda e nem ligo assim tanto a roupa, aquilo que penso é que já se vestiu melhor, já se teve mais cuidado na apresentação, tendo em consideração a ocasião, e quando se trata de fardamentos não se devia sequer fazer alterações a essa roupa. Só os básicos, de bainhas ou apertar a cintura das calças.

No Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, foram proibidas minissaias ou calções curtos, blusas decotadas ou "cai-cai", chinelos ou calças caídas deixando ver a roupa interior. Já chovem críticas e muitas de pais de alunos.

Mas está tudo doido? Respeitar a individualidade de cada um não é permitir-lhe que utilize cada canto por onde passa, como se fosse o seu quarto ou a sua casa.

Respeitar a individualidade é dar a perceber a alguém que poderá fazer as suas escolhas como indivíduo que vive em sociedade, e que terá respeitar também essa mesma sociedade. É uma relação recíproca.

Não o sabendo fazer, significa que não sabe utilizar a ferramenta que lhe foi disponibilizada.

15
Set21

Livre de dar opinião, se for permitido


Pacotinhos de Noção

quintino-aires-psicologo-desaba-em-lagrimas-ao-rec

Não gosto de nêsperas nem de nespereiras.

A nêspera é demasiado doce, mas ao mesmo tempo meio borrachona. Já a nespereira teima em dar abundantemente um fruto do qual não gosto, e só para me afrontar ainda os deixa cair quando estão maduros.O que acontece depois é ver as formigas todas atarefadas, atropelando-se umas às outras, famintas pelo pedaço e pelo açúcar, da nêspera de que não gosto, mas que lhes proverá o alimento do Inverno rigoroso.

Está corrida desenfreada das formigas, ilustra perfeitamente aquilo que hoje aconteceu na internet. Por muita volta que se dê, acaba sempre por aparecer a notícia de que o Quintino Aires foi dispensado, de que fez comentários homofóbicos e que devia ser queimado na fogueira.

Tudo bem, esta parte da fogueira inventei, mas pouco falta.

Vou já sublinhar que não suporto o Quintino. Não o conheço pessoalmente, nunca me fez mal algum, mas de todas as vezes que lhe ouvi a voz senti que a minha fraca opinião acerca da psicologia tem um fundamento bastante válido. Bem sei que não é uma ciência exacta mas é um facto que tem bases. Essas bases perdem alguma sustentabilidade porque existem diferentes pontos de vista e várias vertentes, o que a mim me dá a percepção (pode até ser errada) de que ser psicologo mais não é do que debitar as suas opiniões, por mais ridículas que possam ser. O Quintino Aires, para mim, é a prova viva do que acabo de dizer. Ele é pago para dar a sua opinião, e podendo ser ridículo ele aproveita e é.

Podemos ou não concordar com aquilo que disse. Eu, por exemplo, também não acho piada às marchas de orgulho LGBT. Acho que com estas marchas folclóricas, ao invés de estarem a agir com a normalidade que se ser homossexual ou heterossexual deverá ter, estão apenas a querer criar um nicho, mostrando que só eles percebem o que é ser-se ou não LGBT. E estão certos, só eles é que deverão perceber. Eu, que não sou, não tenho interesse nenhum em saber. A minha mentalidade não foi mudada por qualquer marcha que tenha visto ou em que tenha participado, até porque a minha mentalidade não mudou.

Para mim, que sou heterossexual, faz todo o sentido que o homem se junte com uma mulher, mas para mim, que sou heterossexual, também faz todo o sentido que o Joaquim se junte com o Manuel, porque se amam. São dois homens!? Tudo bem, não me faz qualquer espécie, mas isto foi acontecendo no meu âmago, porque sim. Não foi nenhum panfleto, não foi nenhuma marcha, não foi o Brokeback Mountain. Foi o não querer saber, porque realmente não quero. Cada um ama quem quiser, e respeito isso.

No meio disto tudo o que me causa algum repúdio é, mais uma fez, esta política de cancelamento, de amordaçar e quase esventrar publicamente quem tem uma opinião que, ou não é politicamente correcta, ou não respeita a normalidade que as redes sociais instituíram.

Os movimentos LGBT lutam pela sua liberdade, pelos seus direitos mas são os primeiros a tentar acorrentar e a desprezar alguém que pensa e sente diferente.

O Quintino Aires não incitou ao ódio, expressou uma opinião macaca e descabida na óptica da maioria, mas é apenas a sua opinião. Foi pago para isso, sabe que ser polémico gera audiência, barulho e potenciais clientes, mas esqueceu-se que estamos a viver numa época de virgens ofendidas, que querendo usufruir das suas liberdades não querem permitir que os outros também as tenham, porque lhes podem beliscar o orgulho.

Falando em liberdade alguém argumentará que a liberdade de alguém termina quando começa a do outro. Mas e se a liberdade do outro for mais invasiva do que a minha? Quem define o tamanho da liberdade de quem?

Comecei com uma analogia, meio que inserida a martelo, e vou acabar com outra.

Sinto que actualmente voltámos à época das arenas romanas, em que a populaça, para se sentir um bocadinho menos excrementosa daquilo que era, fazia questão de querer que alguém sofresse, quase sempre até à morte. Dava-lhes gozo imaginar que o desfecho se devia àquilo que decidiam, quando de facto esse poder não lhes cabia. Apenas se regozijavam porque existia alguém, naquele momento, para quem conseguiam canalizar as suas frustrações.

Não sou psicólogo, mas também sei inventar.

 

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