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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

14
Jun22

Mais de 40 anos de pérolas a porcos


Pacotinhos de Noção

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Embora seja o maior humorista português de todos os tempos, ainda que 50% alemão, Herman José nunca foi uma personalidade consensual.

Nos anos 80, um humor demasiado avançado, para um Portugal ainda muito rural e iletrado, conquistava grande parte da população, mas também eram muitos os que queriam a sua cabeça. Prova disso mesmo foram as censuras que sofreram alguns dos seus sketches de humor das entrevistas históricas no programa "Humor de Perdição". Anos mais tarde, já na década de 90, e com o seu lugar de referência do humor bem alicerçado, Herman volta a sofrer uma tentativa de rasteira, quando António Guterres, e o seu Governo, tentam censurar o famoso sketch d"A Última Ceia". Gostaria de lembrar-vos que na altura o líder do PSD, e consequentemente da oposição, colocou-se ao lado do Governo nesta tentativa de impedir que o programa fosse para o ar. Esse líder é alguém que todos conhecemos, gosta muito de tirar "selfies" e que, curiosa e infelizmente, é hoje o nosso Presidente da República.

Herman, embora certamente magoado, mostrou sempre ser um homem de grande carácter e convicção, não se vergando perante pressões políticas. Quem siga com regularidade todos os seus trabalhos e entrevistas, poderá tirar as suas ilações acerca do homem e do profissional. Não o conheceremos intimamente porque o artista, que é um bom artista, 

sempre conseguiu manter a sua vida íntima o mais privada possível, deixando sair cá para fora só aquilo que permitia que saísse. Foi talvez essa cortina que lhe serviu até de trunfo para se conseguir defender da vil acusação de que estaria envolvido nos crimes de abuso sexual da Casa Pia. Quem, diabolicamente, o tentou acusar, escolheu mal a data, pois no dia do alegado crime Herman gozava férias no Brasil, e assim conseguiu provar ser alvo de uma mentira. Mentiras essas que o humorista defendeu também serem apontadas a Carlos Cruz, e ter esta convicção, e dizê-la desde sempre, foi o que levou à tentativa de o ligarem ao processo Casa Pia.

Mas voltando à vertente profissional é importante referir que Herman já nos deu óptimas passagens de Fim de Ano, já nos deu o Parabéns e a Roda da Sorte, e vários Hermans com o ano corrente agregado ao nome do programa, que nos enriqueceram com humor e conhecimento, pois se sempre nos soube divertir, Herman também nos soube mostrar um pouco mais além, até em coisas tão básicas como cortar uma castanha para assar, para que depois a casca saia mais facilmente. Esta dica foi dada no seu antigo programa "Moeda de Troika", onde também participavam Rita Ferro e Ana Mesquita.

Mesmo assim, depois de tudo aquilo com que este homem no foi presenteando ao longo de mais de 40 anos de carreira, não faltaram estúpidos, idiotas e os tais porcos que não sabem apreciar as pérolas, a apelidar o Herman José de parolo, por este ter demonstrado que, mesmo sendo o nosso maior nome da comédia, teve a humildade de se vergar perante alguém que tanto admira, e fazer-lhe chegar essa admiração como forma de agradecimento por tudo aquilo que John Cleese para ele representou. Herman podia ser arrogante, convencido, presunçoso, mas não. Herman deu uma lição de humildade e dignidade, mostrando que até os maiores astros têm alguém que os fez entrar em órbita e ter a sua própria luz. Foi um momento bonito, de um grande artista que demonstra também ser um grande homem e que nos últimos Globos de Ouro foi alvo também de bonitas palavras, que lhe foram dirigidas por César Mourão, mas que também teve o outro lado da moeda, e foi o de alguém que tem na sua falsa modéstia a arma para não mostrar ao cidadão comum como tem pouquíssima humildade, ao não dedicar sequer uma palavra a Herman. E refiro-me a Ricardo Araújo Pereira, quando foi receber o seu galardão. Até nisto, Herman José demonstra ser muito mais completo, que qualquer outro humorista português.

SEI que o Herman vai ler este texto, já falámos algumas vezes sobre os mais variados assuntos, e é por isso que gostaria de agradecer-lhe ter-me ensinado a sorrir desde sempre. Eu, tal como tanta gente neste país, tivemos, e temos, os nossos altos e baixos na vida, e posso dizer que tive uma infância complicada, mas — e é das poucas recordações que tenho da infância — lembro com carinho as 2.ªˢ feiras à noite, quando ouvia começar o genérico do Casino Royal, ou mais tarde o Herman Enciclopédia.

Obrigado Herman, por dedicar a sua vida a fazer os outros felizes, e obrigado por não ter vergonha de demonstrar a alguém o quanto o admira, porque assim também eu não o tenho.

Quanto a parolice... Uma das pessoas consideradas mais poderosas e influentes no nosso país gosta de se comparar à Lady Di e andar com imagens da Nossa Senhora cravejadas na parte de trás dos vestidos. Fala alto que se desunha e só lhe falta dizer que "nunca se engana e raramente têm dúvidas". Isso sim, é ser parolo.

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