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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

21
Abr21

Memórias que realmente (nos) interessam


Pacotinhos de Noção

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Quando em conversa nos perguntam quais as memórias mais felizes que temos não é raro acontecer começarmos a fazer um esforço para saber quais são? Normalmente tentamos mostrar todo o nosso "potencial" dizendo que foi a viagem à Índia, um mergulho com as baleias, aquele concerto fantástico, ou algo de que só se conseguiram lembrar com algum custo.

Cada um tem as suas memórias, mas se há necessidade de fazer tanto esforço para lembrar, então é porque essa não será a melhor de certeza.

Foi em conversa com a minha mulher que constatei este facto e gostaria que reflectissem, mas não pensassem, e que percebessem qual é aquela memória doce, confortável como uma cama acabadinha de fazer, que vos vem à ideia.

Posso dar exemplos e perceberão que as memórias da minha mulher, e as minhas, para vós não serão nada de especial, mas as nossas boas memórias são boas porque são nossas, não são boas porque vão causar inveja nos outros.

Tocou determinada música dos anos 80 na rádio. Não consigo precisar qual. A minha mulher cantarolou e comentou: "Esta música traz-me óptimas recordações. Era miúda. Ia no carro com os meus pais e o meu irmão. O meu pai, que nunca o ouvi a ser musical, começou a cantar. A alegria da música alastrou e segundos depois todos cantávamos. Tínhamos ido visitar alguém e estávamos no caminho de regresso a casa. Foi um dia perfeito em que tudo correu bem e em que me senti muito confortável e feliz". Como podem ver para nós nada tem de especial, mas a ela marcou-a de tal modo que não se esquece até hoje.

Tenho duas memórias destas.

Na primeira brincava no chão do corredor da minha casa. Era fim de Verão, mas ainda fazia calor e pelas janelas abertas ouviam-se os "gritos” das andorinhas, que ninguém sabe que se chamam de gazeio.

O meu pai chegou do trabalho ainda era dia e trouxe-me uma pequena prenda. Passou por mim no corredor e deu-ma. Não vinha embrulhada, não era espectacular e nem era algo em que eu tivesse alguma vez demonstrado interesse, mas o meu pai achou que me a devia dar. Era um saquinho de soldados verdes de plástico. Duraram-me anos e foram muito brincados. Não era o meu aniversário e o meu pai não tinha por hábito dar-me prendas sem justificação. Naquele dia o gesto soube-me pela vida e recordo com carinho até hoje.

Outra recordação acaba de forma agradável, mas começa de forma dolorosa.

Tinha uns 5 anos. Era um dia normal, ainda de manhã. Aos "pinotes" no sofá da sala desequilibrei-me e mandei uma cabeçada na porta de madeira da janela. Comecei a chorar e a pensar que ainda ia levar nas orelhas por pular no sofá. Mas as mães gostam de surpreender, e em vez de um ralhete surgiram umas festas na cabeça, um beijo no galo e alguns minutos encostados ao colo da mãe. Podia bater com a cabeça todos os dias se o final fosse sempre tão confortável como este.

Estas minhas memórias são minhas. Não as vendo porque para vocês não têm valor e para mim o valor é incalculável.

Que memórias têm vocês que vos aquecem o coração, fazem pena porque não mais se vão repetir e que metem uma viagem à Índia, ou um jantar com um vosso ídolo, num chinelo?

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