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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

08
Jun21

Quando a esmola é pouca, o pobre não aceita


A.K.

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Há uns tempos ouvi falar de países onde a gorjeta em restaurantes já começa a ser obrigatória. É cobrada como uma taxa e até vem descriminada no recibo. O valor varia entre os 15% e os 20% do total consumido.

Tenho algumas reticências em pagar uma gorjeta pré-definida, porque desta forma o objectivo principal da gorjeta, que é o de gratificar alguém quando usufruímos de um bom serviço, deixa de fazer sentido. Tenho até para mim que, sabendo que a gorjeta já está definida, algumas das pessoas que possam beneficiar dessa mesma gorjeta, nem sequer se esforcem o suficiente para a receber. Não é preciso, está garantida.

Tenho por hábito deixar gorjeta quando sinto que realmente fui bem atendido ou quando, mesmo que o serviço não tenha corrido bem, constate que houve esforço, ou vontade, por parte de quem estava a trabalhar.

Por cá esta moda ainda não pegou.

A que tem vindo a ganhar destaque é outra. É a do donativo com montante mínimo obrigatório.

Há dias, na bilheteira de um sítio com peixes, em Lisboa, enquanto comprava os bilhetes, o funcionário perguntou-me se eu queria fazer uma doação para determinada Fundação. Dei 0,50€ mas qual não foi o meu espanto quando o rapaz disse: " Faltam 0,50€."

Meio parvo balbuciei um "Desculpe, não percebi!" e o simpático rapaz, que apenas estava a fazer o seu trabalho, explicou-me que só aceitavam doações acima de 1€ e, como tal, ainda faltavam 0,50€.

Perguntei se havia um limite máximo, ele respondeu que não, só mínimo, então passei um cheque no valor de 250€, agradeci e vim embora...

Apanharam-me na mentira porque obviamente que hoje em dia ninguém usa cheques, mas a verdade é que além de não passar nenhum cheque ainda voltei a guardar os meus 0,50€ no bolso.

Não é pelo valor em si, mas sim pela atitude, não do rapaz mas da instituição. Então os meus 0,50€ não são bons o suficiente para fazer doações, mas 1€ sim! 1€ mais não é que duas moedas de 0,50€, mas com uma roupagem diferente.r

Irrita-mem bocado esta mania que é a falta de vergonha de quem pede. Agora é hábito haver um valor mínimo.

Reparem que até os tipos que vêm pedir umas moedinhas para o comboio, ou para comer qualquer coisinha, já não pedem umas moedinhas, aparecem e perguntam se não temos 0,50€ ou um eurinho. São eles que nos gerem as finanças

Sempre ouvi duas coisas. Que quem dá o que tem, a mais não é obrigado e que a cavalo dado não se olha ao dente, mas estes dois dizeres agora deixam de fazer sentido.

Quem dá o que tem muitas das vezes tem vergonha do que tem, porque o cavalo que está a dar pode ter dentes pouco saudáveis e hoje em dia quem recebe quer receber um cavalo com aqueles implantes do Maló que deixam os dentes todos branquinhos e direitinhos que parecem até as teclas de um piano.

Até no Banco Alimentar já inventaram cartões em que pagamos um valor monetário para que depois supostamente, seja convertido em feijão, grão, atum ou arroz, mas a verdade é que aquilo que fizemos foi doar dinheiro.

Resumindo:

Ainda não existem em Portugal restaurantes com gorjeta obrigatória, mas existem imensos sítios onde só podemos gastar o dinheiro que nos permitirem.

Sinceramente não gosto nada que me digam o quão solidário devo ser, e que a solidariedade só assim possa ser chamada, a partir de certo valor. Abaixo disso é esmola e é esmola que poucos aceitarão.

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