Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

15
Out21

Valor€s mais altos s€ l€vantam


Pacotinhos de Noção

Polish_20211015_142232737.jpg

Com esta moda de falar em alta-voz não rara é a vez em que ouvimos conversas que deveriam ser privadas mas que, não se resguardando o interlocutor, também não serei eu a ter que me mobilizar de forma a não ouvir. Neste caso concreto até nem podia porque foi no meu local de trabalho, e por mais que eu quisesse dali sair, e acreditem que queria, mesmo que não estivesse ninguém a falar ao telefone, não o podia fazer.

Falo nesta conversa porque mais tarde vi também uma notícia que acaba por emparelhar com aquilo que ouvi e que demonstra claramente a falta de afecto e valores que vivemos.

Uma tipa na casa dos seus 50, relatava a alguém pelo telefone, e de forma divertida, quão a sua mãe já estava demente, pois foi ao lar e ela já nem a reconhece. Comentou como a mãe não se lembrava que ela esteve lá ontem, que a outra filha agora morava Espanha e que nem fazia ideia de que ia mudar de centro de dia.

Momentos divertidos à parte, e aqui a gravidade na voz mudou, o que a estava a preocupar mais era se a mãe conseguiria assinar a procuração que entregaria ao Banco de Portugal, para ela ter acesso às contas bancárias. Era imperativo que conseguisse para conseguir movimentar as contas antes da irmã.

Já com o pai o conseguiu fazer e convinha que com a mãe também o conseguisse porque senão depois só nas partilhas.

Falou também se haveria de vender ou alugar a casa da mãe. A do pai alugou, mas a da sogra vendeu porque não estava em bom estado e não queria perder dinheiro.

Ao ouvir estas palavras não consegui nunca dissociar de que aquela pessoa estava a falar de quem lhe deu a vida, de quem a viu nascer, quem a acompanhou no seu processo evolutivo e quem esteve provavelmente a seu lado nos momentos mais importantes. Tudo bem, posso estar a especular, e a verdade é que os pais desta pessoa falharam redondamente, porque os valores pelos quais ela se rege são apenas os monetários e os do oportunismo e se assim é é porque hão-de ter falhado na educação da filha. Ou então não. Se calhar até nem falharam e não nos podemos esquecer que somos seres individuais e que a partir de determinado momento, mesmo tendo por base uma boa, ou má, educação, somos nós que escolhemos o caminho que queremos percorrer. O final desse caminho ninguém conhece, mas a forma como o fazemos cabe a cada um de nós decidir. Claro que há sempre aqueles que escolhem o caminho mais complicado ou tortuoso e culpam os seus ancestrais, os seus descendentes, os seus iguais e os seus diferentes, nunca admitindo que o único grande culpado é apenas ele mesmo.

Ouvindo as palavras daquela filha vinha a mim a imagem daqueles filmes de cowboys em que um tipo está abandonado no meio do deserto e os abutres ficam ali, sempre a rondar o indivíduo, à espera que se torne a carniça que tanto anseiam por devorar.

Neste caso estou a falar de filhos que enterram os pais ainda vivos para assim usufruírem daquilo que eles lhes deixarão, caso contrário ser-lhes-á arrancado. E pais que não honram o compromisso de amor que deveriam ter feito com os filhos e que acabam por mostrar que às quatro letras da palavra amor se sobrepõem as cinco que compõem "guito" e "pilim".

Este assunto é controverso mas não é por isso que não lhe toco...

Vi hoje nas notícias que o ex-dux João Gouveia foi absolvido de pagar uma indemnização aos pais das vítimas da praia do Meco. 225 mil euros a cada um. Os pais vão recorrer desta decisão.

Não duvido, nem quero sequer imaginar o sofrimento daqueles pais por terem perdido os filhos, e também aqui, numa tentativa de justificarem o fim da vida daqueles que amavam, tentam imputar a culpa a todo e qualquer um, menos àqueles que foram os maiores culpados e que pagaram o maior preço que se pode pagar e que são os próprios filhos. Mas dizer a um pai que a culpa da morte do filho é do próprio filho é cruel.

Mas e quanto vale a vida e a memória de quem amamos? Quanto dinheiro é necessário para amenizar a dor de um pai que não mais abraçará um filho, tapar o buraco que fica no peito e que sangra sem parar? E que pai é esse, que em lugar de lutar para conseguir que seja preso aquele que considera ser o responsável pela morte da sua cria, ou para conseguir fazer com que sejam proibidas as praxes, luta antes para conseguir uma quantia em dinheiro?

Haverá quem argumente que o dinheiro não é compensatório mas que servirá para punir o responsável. Isto são opiniões e a minha está bem explícita acima. Os responsáveis pagaram com a vida e a eles o dinheiro não lhes trará qualquer tipo de benefício ou prejuízo.

Sendo frio e arriscando-me a ser apelidado de besta, só consigo pensar nos tais abutres dos filmes de cowboys. Se no primeiro caso era a filha a querer beneficiar de uma morte anunciada e mais que esperada, aqui temos pais a quererem beneficiar de uma morte inesperada mas que, passando o período do luto, pensam que algum hão-de conseguir fazer com que lhes entre no bolso. Pelo menos era o que esperavam.

A minha fé na humanidade é nula. Não falo por causa da retirada dos americanos da palestina, ou por causa da fome no Mundo ou na falta de respeito pela natureza. Essas são aquelas causas que ficam bem dizer que se defendem, tal como a sororidade, por exemplo. Estas são causas de lutas perdidas porque não és tu, Zé Manel que lê estas linhas, que vais conseguir mudar o Mundo neste sentido, porque o Mundo não quer mudar. Todas estas causas têm políticas envolvidas e por muito que nos custe, nós para os políticos somos apenas números... Não se iludam com a treta de que o "Estado somos nós". O estado somos nós para pagar e para votar, nada mais. Se queremos que realmente alguma coisa mude comecem por mudar em casa. Amem os vossos filhos e os vossos pais para que eles percebam que têm alguém para quem são importantes. Assim os pais viverão os dias que lhes restam com alguma alegria, no meio desta podridão que é a sociedade, e os filhos, sabendo o que é amor e empatia, poderão aos poucos ir fazendo com que esta podridão seja menos podre. Não vai mudar já na geração a seguir. Isto é como quando nos tornámos bípedes. Não nos levantámos e andámos, levou uma eternidade até endireitar a espinha com orgulho. Um orgulho que cada vez vai sendo mais difícil de manter.

27
Mar21

Amo peixinhos da horta


Pacotinhos de Noção

Polish_20210327_072425771.jpg

Vamos falar de amor? "Vamo" lá então.

O que é o amor? Esta é a questão a que todos, mais cedo ou mais tarde, hão-de ter a resposta, mas é também aquela a que ninguém sabe responder. Isto porque todos sentimos o amor de maneira diferente e assumimos que a forma como amamos é a correcta, o que não está de todo certo.

Para alguns o amor é querer estar junto de quem se ama. Absorver todos os momentos e sentir que basta esticar o braço e ter ao alcance o alvo do nosso sentimento. Para outros o amor é partilhar vivências, carinhos, mas ainda assim manter a sua individualidade.

Nem uma nem outra forma estão erradas, são apenas diferentes entre si. O que está errado, isso sim, é a banalização da palavra amor.

Amor é apenas uma palavra, mas é uma palavra que legenda especificamente um sentimento que nutrimos por alguém e aquilo que cada vez mais se vai verificando é que se está a deixar de saber aplicar convenientemente.

Quando uma garota ama de morte uma máscara para os olhos, ou amou aquela viagem à Índia. Quando o burgesso ama acima de tudo o seu clube e a claque da qual faz parte, aquilo que verdadeiramente queriam dizer é que gostam, apreciam, adoram, que foram experiências inesquecíveis...

"Qual é o teu prato favorito?"

"Amo peixinhos da horta."

PORRA, mas como é possível amar feijão verde envolto numa polme!

A falta de capacidade de saber utilizar a palavra amor, no meu entender, é fruto de duas características. Iliteracia e falta de empatia afectiva.

A iliteracia é um mal comum nos dias actuais. O pessoal acha que é a última bolacha do pacote porque fala uma espécie de inglês. Até conseguem ver Netflix sem legendas, mas quando se pergunta um sinónimo ou um antónimo de uma palavra a pergunta mais comum é - "Antónimo sei que é o contrário, mas e sinónimo!?"

E quando se pergunta qual foi o último livro que leram, geralmente o último foi "O Diário de um Banana" (na melhor das hipóteses) e muitos até se orgulham da sua ignorância, afirmando que nunca leram um livro, até porque lhes dá sono. Isto mais que justifica a falta de conhecimentos linguísticos.

A falta de empatia afectiva.

Este já é um problema que poderá ser geracional. Os avós não souberam demonstrar o seu amor aos pais e os pais não o conseguiram passar aos filhos. Cria-se assim um vácuo de sentimento e depois temos famílias frustradas, porque nunca souberam o que é o verdadeiro amor. Muitas vezes não porque não o sentissem mas sim porque nunca o souberam identificar quando lhes apareceu à frente.

O amor não é raro. Existe a rodos, é gratuito mas não é para desbaratar.

Amor é quando um pai se levanta para aconchegar a roupa dos filhos à noite. Amor é sentirmos a necessidade de um beijo ou de um abraço só porque sim. É o nervosismo de não estarmos perto de quem amamos. É querermos o bem estar de alguém, só pelo simples facto de saber que essa pessoa se vai sentir bem. Amor, muitas vezes é sentir algo por alguém mesmo não tendo esse sentimento de volta.

Para mim o amor que eu sinto, e que sei que sentem por mim, é melhor que todo o amor que vocês possam sentir. Mas isto é assim mesmo. É melhor porque é o meu e o vosso é o melhor porque é o vosso.

Ah, e já agora... Não gosto assim tanto de peixinhos da horta.

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D