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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

03
Jul21

A estrada é uma selva


Pacotinhos de Noção

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Vários ciclistas cortaram hoje a Avenida da Índia, em Lisboa, como forma de protesto e em memória da ciclista grávida, de origem italiana, que morreu atropelada há poucos dias.

Em relação a este caso específico devo apenas dizer que se gerou uma tempestade perfeita. Uma grávida de bicicleta e um tipo de 80 anos que muito provavelmente já não deveria conduzir.

O facto de estar grávida e andar de bicicleta já é só por si perigoso. Eu a andar a pé às vezes já me mando para o chão, se tivesse um ser no ventre não ia tentar a minha sorte. Mas a senhora tentou e não deveria ter morrido por isso. Nem ela nem o bebé.

O senhor alega que não a viu, por causa do sol, e até acredito que possa ser verdade, mas também acredito que não a consiga ter visto porque já não tem os olhos de antigamente, ou porque quando a viu já não teve reflexos para se desviar.

Já na última 2a feira, em Cascais, um senhor, também de 80 anos, atropelou um GNR que procedia ao comando da circulação do trânsito numas obras. Isto levanta um problema que tem sido constantemente ignorado e que são as renovações das cartas de condução em indivíduos de idade mais avançada.

Daquilo que tenho conhecimento as renovações das cartas em indivíduos com mais de 60 anos requerem apenas um atestado médico electrónico e acima dos 70 um certificado de aptidão psicológica, o que considero que é claramente pouco. No meu entender, a partir de determinada idade, quem quisesse a carta renovada deveria ter que prestar prova psicológica mas também teria que fazer novo exame prático de condução. Todos os dias vejo pessoas que não deveriam sequer poder ter uma tesoura nas mãos, mas que, para meu espanto, entram num carro e arrancam... Aos soluços e aos S's, mas arrancam.

Em relação à vigília da Avenida da Índia. Eu até percebo que os ciclistas queiram mais segurança, mas alguns dos argumentos utilizados não fazem muito sentido.

Ouvi coisas como "As estradas não são dos carros", "Os carros têm que andar a 30 na Marginal", "Os acidentes entre automobilistas e ciclistas são propositados, 90% das vezes" e que " Os ciclistas podem andar aos pares, podem andar em grupo e os carros têm que passar 1,5m de distância".

No meio de tudo isto há coisas certas, erradas e absurdas.

Os ciclistas podem andar em grupos desde que andem a pares e uns atrás dos outros. Aquilo que testemunhamos todos os dias é que quando vão em grupo não só não andam a pares, como não param em vermelhos, e ocupam quase sempre toda uma faixa de rodagem por vezes até duas, o que acaba por tornar difícil respeitar a tal distância de 1,5m. Fica mais difícil ainda quando os ciclistas teimam em passar por entre os carros, e nem sempre quando estão parados.

Andar a 30 na Marginal é ridículo. Não é uma via rápida mas é uma estrada que, sim senhora, pertence aos carros. Não é uma ciclovia e não é usada para o lazer. Todos os dias por ali passam pessoas que vão e vêm do trabalho e já basta as filas intermináveis que se apanham. Andar a 30 seria tortura.

Afirmar que os acidentes que acontecem são propositados é um comentário de gente doida a que nem vale a pena dar atenção.

O número de ciclistas aumentou e muito. Os automobilistas têm que ter em consideração que quem anda numa bicicleta acaba por estar exposto e não existe nenhum sistema de segurança que possa proteger alguém que vá neste tipo de veículo e que entre numa luta frente a frente com um carro. Já os ciclistas também têm que ter em consideração a sua vulnerabilidade e tentar prevenir-se e não achar que o facto de andarem de bicicleta lhes dá direitos superiores a todos os outros. O código da estrada vale para todos, andem de carro, moto, bicicleta ou trotinete.

A estrada é uma selva, mas até na selva há uma grande parte de animais que se respeitam uns aos outros.

 

30
Jun21

Atropelei um passarinho


Pacotinhos de Noção

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Ia na A5, no sentido Lisboa - Cascais, e quase a chegar às portagens de S.Domingos de Rana um pássaro bateu-me no pára-brisas. O vidro não estalou mas sei que o pássaro morreu. Pela força da batida tenho a certeza que o pardal não se safou.

Isto aconteceu-me há 14 anos. Não é um trauma mas de alguma forma há-de me ter marcado, porque recordo o episódio com clareza até hoje.

Não me senti um cabrão, mas também não me senti um Cabrita.

Não sei o grau de sentimento de culpa do senhor Cabrita. Sei que do tipo que estava a trabalhar a culpa é total, ou pelo menos o comunicado que o MAI emitiu assim o dá a entender, pois os trabalhos não estavam sinalizados, o senhor estava a jogar à macaca no meio da auto-estrada e até tinha a alcunha de "Pombinho", por isso era mais que certo que poderia vir a ter o triste fim que teve o pardal a quem ceifei a vida.

A humanidade não é flor que se cheire mas quando ganham lugares de elementos governativos então fedem que se fartam. Séculos de história estão ai para o provar, mas mesmo sabendo isto, parece-me vergonhoso, obsceno e amoral demais que depois de tanta incompetência de um Ministro, cujos pedidos de demissão se vão acumulando de dia para dia, o mesmo continue em funções, tenha o apoio do Primeiro-Ministro e que o Presidente se feche em copas no que a esta personagem diz respeito.

Dir-me-ão que foi uma fatalidade... Estou de acordo, foi uma fatalidade, poderia acontecer a qualquer um, o que não é fatalidade é tudo aquilo que aconteceu depois.

Estes joguinhos de poder e protecção, esta máfia engravatada que corrompe o nosso dia-a-dia afirmando que nos governa, está só a governar-se a si mesmo.

O que aconteceu no SEF, se não tivesse saído cá para fora, tinha ficado por isso mesmo. Mas foi divulgado e a viúva do cidadão ucraniano ficou sem marido, sem sustento mas como a crítica internacional teve conhecimento do caso, teve que se calar a senhora com perto de 850 mil euros.

A mulher deste trabalhador não tem a crítica internacional do seu lado. Tem pouca da nacional, porque na altura em que o marido morreu, a crítica até estava mais preocupada com os jogos da selecção, e tem também um Ministério da Administração Interna cujo "patrão" é o tipo que lhe atropelou o marido, e que no lugar de lhe valer, só vai complicar mais as coisas. Isto parece até daqueles filmes em que por mais que o herói se tente safar, a areia movediça da máfia que o persegue é tal, e tem tantas ramificações no poder, que a única coisa que lhe resta fazer é dar-se à morte.

A BRISA já veio desmentir o MAI. A obra estava sinalizada, como aliás é apanágio da empresa em todos os seus trabalhos. Já o MAI não indica os níveis dos testes de alcoolemia, não dá a conhecer a velocidade a que seguia o carro e tentam apenas proteger um Ministro que de tão incompetente e arrogante, levou à morte de uma pessoa.

Mas isto não é caso único. Se bem se recordam, no Verão de 2017 deu-se o incêndio de Pedrogão e morreram pessoas.

O Primeiro-Ministro e o Presidente afirmaram que tal não podia tornar a acontecer... Em Outubro, e porque a época de incêndios supostamente já havia acabado, houve novos incêndios mas não havia os meios indicados para os combater. Morreram mais pessoas. Quem foi responsabilizado? NINGUÉM. A única medida que se tomou foi a obrigatoriedade da limpeza das matas, sob pena de se passar elevadas multas aos proprietários dos terrenos. Importa referir que os terrenos do Estado não servem de exemplo e poucos são limpos.

A empresa para quem Nuno Santos "Pombinho" trabalhava cobriu as custas do funeral. Não o devia ter feito. O Governo, do qual faz parte o elemento que custou a vida a esta pessoa, deveria ter olhado a esta despesa e a muitas outras que advém desta morte. Se os filhos de Ihor Homeniuk têm direito a uma pensão enquanto estiverem a estudar, e a viúva a uma indemnização, então também as filhas e a mulher de Nuno Santos deveriam ter. Os casos são diferentes apenas porque um está a ser abafado e o outro não foi.

Ainda se vai chegar à conclusão de que a culpa é só do motorista, que apenas teve que cumprir ordens, mas como se sabe a corda parte sempre para o lado mais fraco.

Eu matei um pardal e senti-me mal, o Cabrita foi responsável pela morte de um homem, mas não tirou o rabo do carro.

27
Mai21

Em alto e bom som, para toda gente ouvir


Pacotinhos de Noção

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Situação passada hoje, no comboio.

Uma senhora fala ao telemóvel em alta-voz. Uma outra senhora, mais velha, pergunta-lhe se pode antes falar em modo normal, porque a incomoda ter que ouvir conversas pessoais.

A senhora pede desculpa, desliga o alta-voz e segue conversa.

Duas paragens mais à frente entram uma senhora africana, com a filha e curiosamente também a falar em alta-voz. Vai sentar-se precisamente junto da senhora mais velha.

Depois de alguns minutos, e vendo que a conversa não ia terminar tão depressa, a senhora mais velha faz o pedido que também tinha feito à outra. A senhora, que está com a filha, dando-lhe assim o exemplo correcto de como agir nestas situações, responde: "Quem está mal muda-se. Não estou a incomodar ninguém e a senhora nem ouve a minha conversa."

A senhora mais velha respondeu que já estava naquele lugar, que se sente incomodada por ter que estar a ouvir conversas privadas, que mesmo sem querer está a ouvir a conversa, tal como toda a carruagem, e que até sabe que a chamada é para a neta poder falar com a avó, e que tem que se ter consciência de não usar desta forma o alta-voz, pois se naquela carruagem todos o fizessem, ninguém conseguiria falar.

A resposta da mãe foi a mais simples de todas. Disse: "Só me está a dizer isso porque sou preta. É racista."

Eu ficaria desarmado com este murro no estômago, mas a senhora mais velha, com todo o seu sangue frio e espírito acutilante, respondeu: "Antes da senhora entrar fiz o mesmo pedido a outra menina, sem lhe ter olhado à cor da pele. E deixe-me que lhe diga que a educação não tem cor, e era isso que devia transmitir à sua filha".

O que é verdade é que a mãe há-de ter tido alguma vergonha, porque acabou por desligar o alta-voz.

Em relação ao esgrimir do argumento do racismo nem me vou pronunciar.

A senhora foi só parva e já aqui tinha referido que vai chegar a altura em que tudo acabará por ser como a história do Pedro e do Lobo. Com tanta vitimização despropositada, vai chegar uma altura em que as pessoas vão deixar de acreditar. E não estou a falar só de questões raciais. Quando há uma denúncia há que se investigar e punir o agressor quando é verdade, mas julgo que também se deve punir o denunciante quando se descobre que é mentira.

Esta questão da alta-voz, das colunas de som, do não se querer saber se estamos ou não a incomodar o próximo é mais um reflexo da falta de educação, noção e senso comum? Será que estamos todos a ficar parvos e já não conseguimos perceber que supostamente é bom "pensar fora da caixa" mas também é bom que cada um se mantenha "dentro do seu quadrado" e que tente não invadir o espaço dos outros. Mesmo em restaurantes é incómodo querer fazer uma refeição e nas mesas do lado ter grupos de pessoas que não se sabem comportar em público, proferindo asneiras em alto e bom som e rindo ou gritando, apenas porque estão muito contentes ou são muito sociais.

Parece-me uma batalha perdida porque na verdade tudo é uma questão de educação e a educação não aparece por osmose. Tem que haver um trabalho de pais, família, sistema de ensino e até da sociedade para que se evitem estas situações e até outras como a da Jéssica do Seixal, cujas agressões fizeram um rapaz correr para a frente de um carro, sendo atropelado e não morrendo por um triz.

A senhora do comboio de hoje, aquela que tinha mais idade, fez a parte dela e eu invejei não ter a capacidade que ela demonstrou de exigir que quem partilha um espaço público comigo me saiba respeitar como eu os respeito a eles.

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