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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

13
Abr22

Da Marie, corri


Pacotinhos de Noção

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Há uns tempos saiu da casa do Big Brother uma miúda que me fazia lembrar a boneca Emília, do Sítio do Pica Pau Amarelo.

Não sei se era boa ou má concorrente porque não tenho seguido o programa. Comecei por ver a primeira edição, com o Bruno de Carvalho, mas cansei-me rápido. Esta segunda não tenho acompanhado de todo, mas não vivo debaixo de uma pedra, e como tal vou ficando a saber de uma ou outra polémica, de um ou outro assunto.

Ao que parece esta excêntrica menina não fazia a depilação, vestia umas roupas esquisitas, tinha um estilo próprio, e como tal já era quase um ícone.

Depois que saiu foi quando "vi" mais barulho. Afirmavam ser uma pena ter saído porque era uma pessoa genuína, que mostrava aos jovens que não faz mal ser diferente. E não faz, mas vamos por partes.

Andaram as mulheres anos a fio a chatear a cabeça aos homens, de que pareciam uns macacos peludos e que tinham que resolver o assunto. Agora que grande parte deles, entre idas ao ginásio e batidos de proteínas, fazem a sua depilaçãozita total, parecendo depois autênticos Nenucos musculados, o mulherio decide que afinal o que está bem é deixar crescer as pilosidades.

Nada contra ou a favor, cada um, deixa crescer os pêlos que quiser. 

Eu pessoalmente não gosto de ver uma mulher cheia de pêlos, e dizendo isto posso ser acusado de masculinidade tóxica quando, curiosamente, se uma mulher afirma não gostar de um homem de bigode, o facto será apenas catalogado como "uma questão de gosto".

Em relação às roupas que a menina veste, não se iludam. Seria original se aquilo fosse ideia dela, mas, na verdade, existe uma marca que a veste e, pasmem-se, não é nada barata. O Carnaval já passou, mas caso tenham interesse então é visitar a loja "A outra face da Lua".

Estarei agora a ser mauzinho? Se calhar, mas não mais que todos aqueles que criticam o José Castelo Branco, por também ser uma pessoa excêntrica. Coerência, meus caros, coerência.

Valter Hugo Mãe, um dos supostos pensadores da actualidade, também se deixou levar por esta rede de marketing da coitadinha que é diferente e ostracizada, devendo assim servir de exemplo para uma geração. No seu texto, "A Marie da Estela", publicado no Notícias Magazine, afirma que Marie é necessária por fugir ao estilo padronizado que se tem reproduzido graças às redes sociais, imputando maiores responsabilidades ao Tik Tok, ignorando assim que Marie é precisamente um produto Tik Tok e YouTube.

Marie não é diferente de tantos outros que hoje em dia inundam essas mesmas redes, ganhando a vida como "influencers" e que, eles sim, pretendem padronizar toda uma geração, e até o estão a conseguir.

Perdendo alguns minutos, e vagueando pelas redes, encontramos vários exemplos de "Maries" que têm em comum vestirem-se de forma diferente, que acaba por ser igual, fazerem-se de burrinhas para haver a percepção de que são muito inocentes, e passar uma mensagem que parecendo que é diferente, não o é.

Para Marie e os seus seguidores era importante afirmar que uma mulher pode ser feliz deixando crescer os seus pêlos, e se existir alguém que queira difundir uma opinião diferente desta, é porque se curva perante uma sociedade supérflua e fútil, que apenas olha para o visual e não para o interior de cada um... Mas atenção, isto é uma contradição enorme. Marie é apenas visual. Marie não passou a sua mensagem envergando umas calças de ganga e uma t-shirt branca. Ela fez como os Caricas, amigos do Panda, que para chamar a atenção da pequenada usam cores espampanantes, mas aqui as crianças já são um bocadinho maiores e deveriam perceber quando são feitos de tolos.

Na essência não sei se a ex-concorrente do Big Brother é ou não boa pessoa, e não é isso que vem ao caso, aquilo que interessa perceber é que de burra não tem nada. Criou uma personagem, que no Tik Tok e YouTube é apenas mais uma, contudo teve a sorte, e também mérito, de ser chamada para um programa que atinge um público alvo em que para eles Marie é novidade.

Que ganhos terá ela com isto? Recordo novamente que a menina é "influencer", vive dos seguidores das suas redes sociais.

Afirmo no título que "Da Marie, corri" por, primeiro ser uma boa alusão a Marie Curie, e depois porque destas criações de redes sociais fujo a sete pés. Sou alguém de miolo um pouco mole, completamente influenciável, e amanhã posso decidir deixar de me depilar e começar a usar brilhantes nos dentes, e numa rapariga jovem a coisa até passa despercebida, agora num homem feito, poderá apenas ser esquisito. Ou então não, e se me fizer de burrinho até posso angariar uma legião de fãs. É um caso a pensar.

Para terminar, e caso sintam mesmo muita necessidade de encontrar alguém diferente na casa do Big Brother, posso dar-vos dois exemplos.

Temos Marco Costa, que sendo um produto deste género de programas, e em que ninguém dava nada por ele, aproveitou a mediatização para evoluir naquilo com que sempre trabalhou, e hoje tem a sua rede de pastelarias, mostrando que o título de "bronco" que lhe imputavam, não é mais forte do que o título de "sucesso" que acaba por alcançar. Podemos gostar ou não do tipo, mas temos de dar-lhe valor.

E que dizer acerca de outro concorrente, o Chef Fernando Semedo, cuja história agora foi divulgada. Viveu na miséria, num bairro de lata com casas de paredes descascadas. Viu-se sozinho com os irmãos após ver a mãe ser presa e terem sido abandonados pelo pai. Era uma história que teria tudo para dar errado e os exemplos mostram-nos que normalmente dá, mas Fernando sentiu que a vida tinha algo mais para lhe dar e hoje não é o Nando que arruma carros ou que já passou pela esquadra... É o Chef Fernando. Parabéns por isso e que sirva de exemplo para muitos.

04
Jan22

Debates são mais que as mães


Pacotinhos de Noção

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Falta pouco tempo para as eleições e se existe desta vez algo de que não nos podemos queixar é da falta de debates.

Vão acontecer cerca de 30. Não sei se os vou conseguir acompanhar a todos, mas aos dois primeiros fiz questão de ver e já cheguei a uma primeira conclusão. Estamos lixados. Tendo em consideração o que vi, a melhor análise é esta. Não sei se o Público ou o Expresso querem pegar na minha válida afirmação, mas é o que me apraz dizer.

No embate entre António Costa e Rui Tavares do LIVRE, tivemos oportunidade de ver quase um ritual de acasalamento, em que o fundador do LIVRE era o macho, de orgulho ferido, e António Costa era a fêmea difícil e que não se sente convencida com o que o espécime masculino tem para lhe oferecer.

Rui Tavares corre atrás do prejuízo. Nas últimas eleições conseguiu eleger um deputado, feito meritório e poderia até alavancar o partido de forma a um dia almejar ser uma força política a ter em conta, mas deram vários tiros no pé.

O primeiro foi a escolha de quem os representaria.

Pelos visto no partido não fazem testes psicotécnicos e escolheram Joacine Katar Moreira, que nos testes, claramente, não passaria na parte do "psico". 

Depois apalhaçaram a sua representatividade no Parlamento, com a história provocatória do assessor de Joacine, que decidiu ir de saia para o hemiciclo, o que me chocou e a tantas outras pessoas.

Em relação às outras pessoas, não posso saber o que as chocou, em relação a mim, posso dizer que o choque não esteve na saia, mas na fraca escolha de uma saia plissada comprida, azul escura, conjugada com umas meias verdes de cano médio. Não combina, não faz sentido e só por isto o lugar deveria ter sido posto à disposição. Se queremos marcar impacto, ao menos que se marque com estilo, mas não marcou. Aquilo que transpareceu foi claramente o uso de saia, não como indumentária usual, mas apenas usada como acessório que pretendia ser disruptivo em relação à maneira de vestir dos deputados. Ora num parlamento em que nos devíamos preocupar mais com a índole dos intervenientes, do que com a farpela que envergam, a atitude foi só parva.

Parvo foi também, mais uma vez, Rui Tavares, que escolheu alguém difícil de controlar, não por ser de forte convicções, mas sim por ter fortes convulsões de linguagem, dizendo tudo como os malucos, e de forma mais alucinada do que os próprios malucos, e perante tal volatilidade o historiador decidiu retirar o apoio político a Joacine.

Para ela tanto lhe vez, o lugar dela estava guardado, mas a verdade é que a representatividade do partido acabou e já muitos se esqueceram que o LIVRE existe.

Isto justifica a apatia de António Costa, no qu diz respeito ao adversário que tinha no debate. Preferiu ignorar as investidas de Tavares, que fez quase juras de amor, desde que pudesse fazer parte de uma nova Geringonça, mas António Costa não lhe fez caso. Devo até dizer que foi indelicado e mal-educado, ignorando o oponente que ali tinha e aproveitando para mandar recados a Rui Rio, fazendo propaganda política barata.

O outro debate colocou frente a frente Catarina Martins e André Ventura.

É devido a debates como este que depois, pessoas com um bocadinho menos de clarividência, optam por votar CHEGA.

Catarina Martins foi insossa, monocórdica, secante e bastante desagradável.

Referiu-se várias vezes ao adversário como o candidato da extrema-direita, o partido da extrema-direita, a extrema-direita isto, a extrema-direita aquilo, ignorando que o BE também pode ser conotado como partido de extrema-esquerda, mas que não se referem assim ao mesmo porque é deselegante.

Bem sei que o alvo da deselegância é André Ventura e o CHEGA, mas haver a mínima hipótese de fazer estes dois elementos passarem por coitadinhos, que é uma das formas fáceis de ganhar votos, é estar a entregar o ouro ao bandido.

A líder do BE falou, acusou e foi populista. Parecia a narradora de uma história para crianças e quis fazer crer que o Lobo Mau estava à sua frente sendo que ela seria o caçador que o ia esventrar, mas a verdade é que se pareceu mais com a avozinha débil que se deixou abocanhar, pois lançou atoardas que foram de fácil resolução para André Ventura, dando-lhe até deixas importantes para poder ele lançar assuntos menos claros e esclarecidos por parte do BE, como o caso Robles, por exemplo, e que Catarina Martins não justificou.

Várias vezes a líder esquerdista foi também apanhada em falso, lançando dados para a mesa que demonstraram não ser correctos, mais concretamente no que diz respeito a propostas no parlamento contra a corrupção, que o doido adepto de Viktor Orban rapidamente tratou de desmentir com factos.

A verdade é só uma, André Ventura ganhou este debate, e isto para a democracia é perigoso. Não podemos fazer quase nada, por a democracia ser isto mesmo, temos que dar voz a todas as facções, desde que não sejam criminosas, por mais idiotas que nos possam parecer, mas cair no erro de tentar usar as mesmas armas que eles é assinar a própria sentença.

Catarina Martins tentou ser populista, até citou várias vezes, diga-se que de forma ridícula e bacoca, o Papa, mas não deixou nunca o adversário sem palavras e em situação menos confortável, já ela escondeu-se por detrás de um discurso com bastante aparência de falso e muito mal ensaiado.

Temo que a continuar assim, o CHEGA vá conseguir conquistar votos a todos aqueles que estão ainda indecisos, desiludidos ou indignados.

Quero assistir ao debate de hoje entre Rui Rio e André Ventura e tenho curiosidade em ver como se sai João Cotrim de Figueiredo nos debates, mas como é óbvio não irei analisar todos os debates, para não vos causar fastio.

Como reparam aqui é possível analisar o Big Brother Famosos, as eleições e assuntos em geral. Isto porque burro não é o que vê o Big Brother, nem inteligente é o que lê Maquiavel. Inteligente é quem vê Big Brother e pesquisa quem é Maquiavel no Google.

E depois desta minha demonstração de superioridade intelectual despeço-me cheio de arrogância e amizade.

03
Nov21

Cambada de "coninhas"


Pacotinhos de Noção

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Volto hoje a falar do Big Brother.

Este programa, por quase ninguém visto, continua de certa forma a dar audiências, e o que é um facto é que quando algo de mais marcante acontece todos ficamos a saber e acaba quase toda a gente também por comentar, porque sabemos que havemos de conseguir, nem que seja uma raspa no fundo do tacho do "sururu" que foi criado. É o meu caso aqui, que gosto de escrever mas também gosto que leiam o que escrevo, e por isso tento sempre estar em cima da onda da actualidade, e é também o caso do Bruno Nogueira, por exemplo, que também não gostando do formato, sabe disto que acabei de referir e acabou por se debruçar sobre o grave assunto do qual todos falam.

Mas será que foi assim tão grave?

Resumidamente conto-vos o que se passou.

Um concorrente afirmou ter tido já um contacto sexual com a namorada que fez na casa. Isto sem que ela se tenha apercebido, nem sequer consentido. Este foi o rastilho para que de repente estivéssemos no meio do incêndio de Roma, e o Nero que o ateou foi a própria produção. É fácil de perceber porquê. O formato vai ficando cada vez mais esgotado e há que aproveitar cada pisadela em ramo verde que um concorrente possa cometer. Desta forma podem ralhar, punir, causar polémica e burburinho chegando até a humilhar os concorrentes, mas não faz mal porque neste caso o "falem mal mas falem de mim" é o lema preferido e a exploração de situações que se possam tornar virais são aquilo que interessa. Prova disso mesmo foi a suposta queda do Eduardo Madeira para a piscina, no programa da Cristina Ferreira que, mesmo o Eduardo Madeira esforçando-se, deu para perceber como foi uma encenação muito mal executada.

Há uns anos uma boa desculpa, para quem via o Big Brother, era a de que viam como um fenómeno ou um estudo sociológico. Ninguém admitia que era porque gostava de assistir a um bate boca, cusquice ou peixeirada, ou até um ameaço de bofetada.

Nos dias de hoje esse fenómeno ou estudo sociológico continua a ser muito válido. De facto passou até a ter o dobro da validade, porque fazemos o estudo sociológico dos concorrentes que estão dentro da casa e fazemos o mesmo estudo do público que os segue.

As conclusões que se poderá tirar do estudo são que no primeiro Big Brother tínhamos concorrentes com o 9ºano, o 12º e homens da tropa. Chateavam-se, davam até pontapés uns nos outros mas dava perceber que eram na sua essência genuínos e que nem sabiam bem ao que iam. Agora temos na sua maioria licenciados, mas que pouco ou nada trabalharam, não fazem ideia de como se faz seja aquilo que for (achava piada pedirem-lhes para construir um galinheiro como fizeram com o Zé Maria) e têm a capacidade de argumentação de um maple do IKEA.

Capacidade de argumentação que poderia ter sido útil ao concorrente visado nesta polémica porque fui ver as imagens e aquilo que vi foi apenas uma piada, uma brincadeira.

A única pessoa que vi defender este ponto de vista, sem medo de colocar todos os pontos nos i's, foi o Flávio Furtado, que trabalhando até dentro do formato, não teve pudores de dizer aquilo que realmente pensa, não se vergando ao peso das audiências e das redes sociais.

Só quem esteja de má-fé, ou que queira muito pontos de audiência de forma muito badalhoca, é que pode agarrar neste contexto e dizer que o que se passou é uma vergonha, um crime, um abuso do homem pela mulher...

Tudo isto é demagogia barata. Aquela mesma demagogia utilizada pelo CHEGA e que supostamente tanto asco causa a tanta gente mas que afinal de contas até é bastante simples de usar, apenas e só porque a hipocrisia é a nota dominante.

O que nos leva ao estudo sociológico do "públicuzinho".

Estão todos transformados numa cambada de coninhas. Hoje em dia não se pode brincar com isto ou com aquilo, é uma ofensa, estão na televisão e têm que dar o exemplo... Deixem-se de tretas.

Pode-se e deve-se brincar com tudo. Não há limites para o humor. Há é os limitados sem humor, mas isso já é problema deles, por isso deixem-se ficar desse lado do monitor e vomitem as opiniões que quiserem mas pensem primeiro se valerá mesmo a pena. É que ao criarem essas opiniões pré-fabricadas vão apenas ser mais um bode naquele rebanho que tanto desdenham e ao qual imputam a pertença de indivíduos que pensam de maneira diferente da vossa, sem perceberem que por pensarem de maneira diferente de vós estão a demonstrar que afinal do rebanho não conhecem nem o pastor.

Ser uma ofensa é outro problema do receptor da mensagem que o programa possa passar. Quando alguém se vira para vocês e diz "És uma trampa", isso sim é uma ofensa, mas sentirem-se ofendidos por algo que passa na televisão é o mesmo que sentiam os inquisidores para justificar a queima das bruxas e das adúlteras, e a PIDE, para justificar o uso desenfreado do lápis azul. E felizmente, nos dias de hoje, mesmo que queiram usar o lápis azul, eu tenho a liberdade de sugerir que enfiem o lápis azul num sítio onde o sol não brilha, porque já não há pachorra para estes inquisidores de redes sociais, que não tiram os seus rabos suados da frente dos computadores e cuja coisa mais próxima de actividade física que praticam é vestir o fato de treino surrado que lhes serve de pijama, dia após dia, sem sequer lavar.

Querer também que a televisão sirva de exemplo é, mais uma vez, demitirem-se de toda e qualquer responsabilidade que têm para com a sociedade. A televisão é entretenimento e nela poderá, e deverá até, vir incluída cultura, regras de convivência e de cidadania... Mas poderá não vir, e se não vier o exemplo que os vossos filhos, caso tenham, devem seguir não é nunca o da televisão, é o exemplo dos pais, e o exemplo que eles vão seguir é o de alguém que, vivendo num país próximo da bancarrota, em que tudo aumenta, com um SNS deficitário (ao contrário do que nos querem fazer crer) e com políticos e governantes que mostram que a corrupção vai sendo a norma e não a excepção, se vai indignar com aquilo que um idiota que se fechou numa casa com outros 15 idiotas, para ser filmado para ser visto por algumas centenas de milhares de idiotas, disse. Belo exemplo para os garotos, sim senhor.

Para terminar, e fazendo também a minha análise sociológica, elaborando uma teoria rebuscada, a ideia que me dá é que a época em que vivemos está de barriguinha cheia.

Depois das Guerras Mundiais, as sociedades levaram o seu tempo para se restruturarem novamente, quer economicamente quer em valores morais e em convivência na sociedade. Como passaram por momentos traumáticos e como tinham mais em que pensar, os assuntos considerados menores nem sequer eram abordados. Só se perdia tempo com o que era essencial. Aqui tivemos uma ditadura e a Guerra do Ultramar e depois uma revolução que nos deu a liberdade, mas que nos tempos iniciais andou ali aos soluços e que sofria com várias instabilidades. Os anos foram passando e hoje somos filhos e somos netos de uma revolução, de uma ditadura e de guerras que vão ficando cada vez mais distantes e esquecidas. Isto leva-nos a um vazio de ideais e de convicções que sejam realmente importantes, o que nos leva também a que sejamos uns palonços que poderiam até tentar lutar contra algo maior que eles e que poderia levar a mudanças, mas ser-se inoperante já está tão vincado e passou a ser tão confortável que as lutas que se escolhe são aquelas que se apanham na televisão ou nas redes sociais e que não exijam grande coisa de nós, além de mandar uns bitaites como, por exemplo, acabei eu de fazer por aqui.

25
Out21

Mordaças Sociais


Pacotinhos de Noção

liberdade-de-imprensa.jpgHoje vi o Big Brother.

Fui alertado para uma nova polémica que estava a mexer com as redes sociais e pensei logo que ia ver outro tipo a fazer a saudação nazi, ou então mais um pontapé de um tipo noutro concorrente. Mas a realidade é que não estava preparado para aquilo que vi e ouvi. Foi o horror. O meu estômago embrulhou-se e a minha espinha gelou. Por muito tempo que viva não mais esquecerei o gesto, nem o que aquele concorrente disse.

Reparem que um dos concorrentes, referindo-se a um dos seus colegas, que ao que parece acorda já cheio de energia, fez um gesto insinuando que o colega "snifa" estupefacientes e ainda legendou com a frase "Parece que acorda e dá logo nos ácidos".

As redes sociais movimentaram-se e pediram que role a cabeça deste energúmeno, para que não torne a repetir a gracinha.

A cabeça não rolou mas o concorrente não se livrou de um puxão de orelhas dos apresentadores Manuel Luís Goucha e Cláudio Ramos, que o relembraram que as brincadeiras que faz em casa são uma coisa, mas que está num programa de televisão e tem que pensar naquilo que diz.

Agora recordem-me por favor, esta coisa do Big Brother não tinha como uma das suas divisas ser "a novela da vida real"?

Pergunto isto porque na vida real não há guiões. Dizemos aquilo que queremos, por mais estúpido que possa ser ou parecer. As consequências depois poderão fazer-se sentir, mas ninguém nos colocou qualquer tipo de mordaça, e é isso que cada vez mais querem fazer aos concorrentes deste reality show.

Para produzir um programa destes há que ser corajoso. Não se pode ceder à pressão dos media e muito menos à pressão das redes sociais, que estão cheias daqueles aldeões ignorantes, que têm sempre as tochas e as forquilhas preparadas para perseguir o monstro que alguém diz que viu e que, na falha de encontrar o monstro, que na realidade nunca existiu, acabam por atacar um qualquer coxo ou marreco, porque tem uma diferença que para eles será grande o suficiente para que possa ser um monstro, ou que pelo menos permita validar o facto de o terem usado para saciar a sede que têm por sangue.

Já não é a primeira vez que se sabe que as produções fazem chamadas de atenção por coisas que este ou aquele concorrente disse. Ao que parece entrar na casa do Big Brother é como entrar num vórtex que nos faz viajar no tempo e transporta os concorrentes para anos anteriores a 1974, quando existia uma ditadura e em que pessoas sofriam por falarem sobre assuntos que não deveriam ou até por falarem de forma como alguns não quereriam.

O grande culpado destas situações é o famigerado politicamente correcto, que mais não é do que a censura disfarçada com unhas de gel, cabelos pintados, fatos de treino da ABIBAS e currículos académicos que de nada serviram, porque a janela para o Mundo pouco mudou desde a adolescência. Continua a ser um ecrã de um computador, ou agora também poderá ser o de um smartphone, que por muita informação que despeje dificilmente será aproveitada por quem está mais interessado em pegar neste ou naquele preciosismo de quem disse algo que não deveria e que por isso terá que ser pendurado na cruz.

Se quem produz o programa quer tanto ter fantoches dentro da casa, com tudo tão predefinido, porque é que não distribuem guiões a quem entra? Perderia em espontaneidade mas ganharia talvez em conteúdo.

No meio desta parvoíce toda a única situação que considero grave é o facto de terem várias pessoas fechadas e que não podem ser elas mesmo a 100%, porque existem condicionalismos de várias ordens, que são impostos pela produção que, infelizmente só existem porque dão importância ao que é dito nas redes sociais.

 

15
Set21

Livre de dar opinião, se for permitido


Pacotinhos de Noção

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Não gosto de nêsperas nem de nespereiras.

A nêspera é demasiado doce, mas ao mesmo tempo meio borrachona. Já a nespereira teima em dar abundantemente um fruto do qual não gosto, e só para me afrontar ainda os deixa cair quando estão maduros.O que acontece depois é ver as formigas todas atarefadas, atropelando-se umas às outras, famintas pelo pedaço e pelo açúcar, da nêspera de que não gosto, mas que lhes proverá o alimento do Inverno rigoroso.

Está corrida desenfreada das formigas, ilustra perfeitamente aquilo que hoje aconteceu na internet. Por muita volta que se dê, acaba sempre por aparecer a notícia de que o Quintino Aires foi dispensado, de que fez comentários homofóbicos e que devia ser queimado na fogueira.

Tudo bem, esta parte da fogueira inventei, mas pouco falta.

Vou já sublinhar que não suporto o Quintino. Não o conheço pessoalmente, nunca me fez mal algum, mas de todas as vezes que lhe ouvi a voz senti que a minha fraca opinião acerca da psicologia tem um fundamento bastante válido. Bem sei que não é uma ciência exacta mas é um facto que tem bases. Essas bases perdem alguma sustentabilidade porque existem diferentes pontos de vista e várias vertentes, o que a mim me dá a percepção (pode até ser errada) de que ser psicologo mais não é do que debitar as suas opiniões, por mais ridículas que possam ser. O Quintino Aires, para mim, é a prova viva do que acabo de dizer. Ele é pago para dar a sua opinião, e podendo ser ridículo ele aproveita e é.

Podemos ou não concordar com aquilo que disse. Eu, por exemplo, também não acho piada às marchas de orgulho LGBT. Acho que com estas marchas folclóricas, ao invés de estarem a agir com a normalidade que se ser homossexual ou heterossexual deverá ter, estão apenas a querer criar um nicho, mostrando que só eles percebem o que é ser-se ou não LGBT. E estão certos, só eles é que deverão perceber. Eu, que não sou, não tenho interesse nenhum em saber. A minha mentalidade não foi mudada por qualquer marcha que tenha visto ou em que tenha participado, até porque a minha mentalidade não mudou.

Para mim, que sou heterossexual, faz todo o sentido que o homem se junte com uma mulher, mas para mim, que sou heterossexual, também faz todo o sentido que o Joaquim se junte com o Manuel, porque se amam. São dois homens!? Tudo bem, não me faz qualquer espécie, mas isto foi acontecendo no meu âmago, porque sim. Não foi nenhum panfleto, não foi nenhuma marcha, não foi o Brokeback Mountain. Foi o não querer saber, porque realmente não quero. Cada um ama quem quiser, e respeito isso.

No meio disto tudo o que me causa algum repúdio é, mais uma fez, esta política de cancelamento, de amordaçar e quase esventrar publicamente quem tem uma opinião que, ou não é politicamente correcta, ou não respeita a normalidade que as redes sociais instituíram.

Os movimentos LGBT lutam pela sua liberdade, pelos seus direitos mas são os primeiros a tentar acorrentar e a desprezar alguém que pensa e sente diferente.

O Quintino Aires não incitou ao ódio, expressou uma opinião macaca e descabida na óptica da maioria, mas é apenas a sua opinião. Foi pago para isso, sabe que ser polémico gera audiência, barulho e potenciais clientes, mas esqueceu-se que estamos a viver numa época de virgens ofendidas, que querendo usufruir das suas liberdades não querem permitir que os outros também as tenham, porque lhes podem beliscar o orgulho.

Falando em liberdade alguém argumentará que a liberdade de alguém termina quando começa a do outro. Mas e se a liberdade do outro for mais invasiva do que a minha? Quem define o tamanho da liberdade de quem?

Comecei com uma analogia, meio que inserida a martelo, e vou acabar com outra.

Sinto que actualmente voltámos à época das arenas romanas, em que a populaça, para se sentir um bocadinho menos excrementosa daquilo que era, fazia questão de querer que alguém sofresse, quase sempre até à morte. Dava-lhes gozo imaginar que o desfecho se devia àquilo que decidiam, quando de facto esse poder não lhes cabia. Apenas se regozijavam porque existia alguém, naquele momento, para quem conseguiam canalizar as suas frustrações.

Não sou psicólogo, mas também sei inventar.

 

12
Fev21

Acerca do "Gorda fura-filas"


Pacotinhos de Noção

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E depois do meu último post, em que falava da vitimização de todos e mais alguém, eis que surge a polémica da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, que serve muito bem para ilustrar exactamente o contrário daquilo que referi.
Neste caso em concreto, em que a menina Cavaco usou de rudeza e falta de educação, as definições e características que foram atribuídos aos visados pela bastonária, não passaram de agressões gratuitas e que, essas sim deveriam ser passíveis de um qualquer tipo de sanção.
Aquilo que é ainda mais interessante é que Ana Maria Cavaco ainda acha que chamar "gorda fura-filas" à presidente da Câmara de Portimão, Isilda Gomes é justificado pelo facto de que a própria presidente da Câmara justificou afirmou ter sido vacinada por ser obesa e hipertensa, fazendo dela uma pessoa de risco... O tema não é este, mas as únicas pessoas de risco hão-de ser os munícipes de Portimão por terem como presidente alguém que deixa a desejar à honestidade, mas isto não invalida a atitude destemperada de Ana Maria Cavaco que até poderia ser desculpável. Poderia ser desculpável se nos estivéssemos a referir a uma adolescente estúpida de 14/15 anos, que faz do Facebook, Instagram e Tik Tok o seu "modus operandi" para ofender as outras rapariguinhas da idade dela, mas não... Estamos a referir-nos a alguém que ocupa um cargo de alguma importância, que tem claras intenções políticas para o futuro e que, pelo aspecto já vai com uma idade entradota... Mas isto pode ser por ser magra de tão ruim. Os magros são sempre mais feios e parecem sempre mais velhos.
Este tipo de ataques pessoais, e que dizem respeito apenas ao físico são feios e só os faço porque dá gozo ser estúpido com quem também o é.
Para ser ainda mais contundente na minha ofensa devo dizer à Sra. Dona bastonária que para mim, ela foi separada à nascença da irmã gémea, a Sónia do Big Brother, e que a irmã mais inteligente está num "reality show".
Mas também não se pode esperar muito de alguém que gosta de andar aos beijinhos com André Ventura.

29
Jan21

Quando a desgraça tenta ter graça, aumenta a desgraça


Pacotinhos de Noção

Foi hoje expulso, no programa Big Brother, um cepo com orelhas. Erradamente há quem pense que isto aconteceu porque o ex-concorrente fez a saudação nazi, mas não é verdade. Foi expulso porque fez uma saudação nazi, foi chamado à atenção por colegas e dias depois voltou a fazer o mesmo. A maneira como tentou "sacudir a água do capote", afirmando que o assunto só é tema porque o colega lhe chamou à atenção, e que não vê qualquer problema no gesto porque até há humoristas que brincam com o mesmo, e que no Carnaval também há quem se mascare de Hitler, mostra que este tipo de 40 anos só conta como experiência de vida o ter deixado de chuchar no dedo, e há-de ter sido tardiamente.

Não me choca o indivíduo não ter poder argumentativo para se defender e tentar fazê-lo com desculpas tão esfarrapadas, mas já me choca mais assistir a outras pessoas que, embora condenando o gesto, também o justificam de alguma forma e argumentam também que há "roasts", humoristas, "stand up comedians", e programas que brincam com estas situações.

Por muita piada que este concorrente do Big Brother possa achar a si mesmo, eu não acredito que exista uma pessoa com dois dedos de testa, e no pleno das suas capacidades mentais que desse meio cêntimo para o ver dizer ou fazer, piadas. Dai ele não poder sequer tentar comparar-se a alguém que faz disso vida. Mal comparado é o mesmo que na praia construir um castelo de areia e afirmar que por conseguir fazê-lo então já deverá assinar projectos da mesma envergadura que o Frank Gehry.

Já para não falar de duas das características comuns a quase toda a gente que faz humor e que são a inteligência e a cultura geral, logo ai...

"Allô, Allô", o "Grande Ditador" de Charlie Chaplin, o mais recente "Jojo Rabbit" até mesmo o "A Vida é Bela", que sendo dramático tinha os momentos em que o pai Roberto Begnini ridicularizava os nazis, são prova de que se pode perfeitamente brincar com algo, que tem ainda feridas muito abertas na história da humanidade, mas que não é por isso que não se pode tocar. Isto porquê? Porque quem soube trabalhar comicamente este assunto fê-lo pelo prisma de ridicularizar aqueles que não suportariam nunca ser ridicularizados, aqueles que tanta dor e sofrimento infligiram e que agora não passam de meros palhaços que servirão de entretenimento. As vítimas serão louvadas, os agressores ridicularizados. Já o gesto, do coitadinho do Hélder do Big Brother, não ridicularizou os nazis. Usou a saudação só porque acha o gesto engraçado. As vítimas aqui não foram louvadas nem os agressores ridicularizados. O único ridículo foi ele.

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