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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

22
Jun21

Sempre fui discriminado


Pacotinhos de Noção

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Desde bebé se percebeu que eu era diferente das outras crianças.

Os meus pais não fizeram caso, ou fingiram que não perceberam, se bem que me recordo de existirem alturas em que o meu pai me tentou mudar. Tentou-me fazer ir contra a minha natureza e como quem não quer a coisa, deixava escapar que ao ser assim diferente os outros meninos na escola podiam achar estranho e gozar comigo.

Noutros tempos sei que seria visto com muitos maus olhos e poderiam até bater-me, só para me "emendar". Felizmente nasci numa altura um pouco mais avançada mas em que ainda havia resquícios deste tipo de preconceitos.

Na 1a classe não tinha mais ninguém como eu. É verdade que os outros meninos quase não ligavam, mas havia sempre um ou outro que comentava e às vezes havia quem não se quisesse sentar ao meu lado porque quando os nossos braços chocavam, sentiam-se incomodados. Eu lamentava, mas a culpa não era minha. Eu sou assim.

As professoras tentaram fazer-me mudar mas a minha essência foi mais forte.

Na preparatória encontrei um coleguinha como eu. Ficámos amigos mas quase nem nos dávamos conta de que éramos diferentes dos outros e para nós até nem éramos, porque a nossa realidade era aquela e tínhamo-nos adaptado e aprendido a viver com ela.

Hoje sou adulto e embora a sociedade se tenha adaptado um pouco melhor a pessoas como eu, a realidade é que continuamos a ser colocados um pouco de parte.

A minha condição não me permite fazer tudo da mesma forma que os outros fazem mas não é por isso que deixo de o fazer. Algumas faço até de melhor maneira dos que os considerados "normais".

Penso que eu, e outros como eu, não são defendidos da mesma forma que outros nichos da sociedade e sinto-me até ofendido quando afirmam que sou assim porque o meu cérebro trabalha de forma diferente.

Depois há aquela descriminação positiva em que dizem que por ser como sou tenho um lado mais artístico ou criativo.

No final das contas servem estas palavras apenas para vos demonstrar que, dependendo da maneira como se escreve e consoante o grau de vitimização que se pratica, algo como se ser apenas canhoto pode ser encarado com uma gravidade que não existe.

Há coisas graves, com certeza, mas nos dias de hoje aquilo que mais conta é conseguirmos fazer-nos de coitadinhos e oprimidos pela sociedade.

Um aperto de mão a todos os canhotos, dextros e ambidextros.

 

15
Mar21

Coitadinhos dos coitadinhos


Pacotinhos de Noção

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Erradamente quase a generalidade dos portugueses têm por hábito dizer que "saudade" é uma palavra que existe apenas no nosso idioma. É um erro compreensível se imaginarmos que quem tenha dito isto da primeira vez o tenha dito figurativamente, no sentido de que o português é um povo tão melancólico e saudosista que nas outras partes do Mundo a saudade não é igual à nossa e, como tal, esta saudade só existe em português. E é isto que me leva ao que quero escrever hoje. Porque o facto de acharmos que sofremos como ninguém reporta-me à palavra "coitadinho", e essa existirá certamente em quase todas as línguas do Mundo, mas aposto que em nenhum deles é tão utilizada como em Portugal. E é usada com tal mestria que o português tornou até possível usá-la em coisas consideradas positivas, senão reparem no cenário. Uma mãe com o seu filhote no parque. O garoto cheio de energia e com cores saudáveis, brinca alegremente. Alguém se aproxima da mãe e tece elogios ao petiz e no fim acaba com um "coitadinho que é tão querido, ou fofinho, ou bonitinho". E se quiserem em vez de uma criança podem colocar um animalzinho de estimação... Dá para tudo.

Depois há o "coitadinho" que é dito de forma ameaçadora. Aquele "coitadinho, tu nem sabes o que te espera" ou o outro "coitadinho" que se refere ao desprezo por algo ou por alguém. "Aquele malandro? Aquilo é um coitado que ali anda..."

O "coitadinho" é muito versátil e isto só é possível num povo que sente tanta pena de si próprio, e é por isso que o coitadinho preferido é mesmo aquele mais simplista, aquele que mostra que quem é coitadinho é mais desgraçado que qualquer um, e este "coitadinho" é quase sempre de uso próprio.

"Coitado do Almiro que foi despedido... Não, não, coitado é de mim, que ele agora vai ficar a receber subsídio e eu vou continuar a trabalhar e é dos meus descontos que sai o subsídio dele."

"Coitada da D.Eugénia, ainda ontem estava viva e agora já se foi... Não senhor, coitado é de mim, que ela já lá vai e não sofre mais e eu ando aqui que não me aguento das costas."

Se bem se lembram no primeiro Big Brother quem saiu vitorioso foi um coitadinho, no futebol os grandes são os bandidos tubarões, mas quando se descobre um clube mais pequeno com coisas menos lícitas, é porque "coitadinhos, são pequeninos, têm que se safar de alguma forma."

O "coitadinho" serve de álibi e de desculpa para um número infindável de coisas. Coisas essas que não vou escrever porque coitadinhos de vocês, que estão a ler, mas mais coitadinho sou eu que já tenho aqui os dedos que não aguento, de tanto escrever.

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