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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

09
Mar22

Os fantoches que nos servem


Pacotinhos de Noção

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Sábado à noite e vou com amigos a um restaurante daqueles onde todas as pessoas vão.

Servem almoços e jantares e com tanto movimento obviamente que os funcionários já estão com algumas horas de trabalho nas pernas.

Sento-me e aguardo pelo senhor que nos há de atender. Vejo-o atrapalhado, a andar para a frente e para trás, levando tabuleiros numa mão, garrafas de vinho na outra, e se mais braços tivesse, mais coisas levaria, mas é o trabalho dele. Cada um com o seu, e também ninguém me vai lá ao escritório fazer o trabalho por mim.

Já começo a bufar porque estamos à espera há uns bons 10 minutos. O tipo passa por mim, pede desculpa e diz que vem já ter connosco. Entretanto, vejo-o a ir entregar uma conta, uma salada de frutas e uma mousse.  E EU ALI SENTADO À ESPERA...

Quando finalmente vem ter connosco, devo dizer que a figura mete-me um pouco de impressão. Todo suado e desgrenhado, com ar de quem correu uma maratona, e aspecto visivelmente cansado.

Fazemos o nosso pedido e ficamos à espera novamente. Raio do pessoal do restaurante que parece que não sabe trabalhar mais rápido.

Vinte minutos depois, estou eu e os meus amigos a deglutir os nossos pratos, em amena cavaqueira. O funcionário lá continua, feito barata tonta, de um lado para o outro. Se tem trabalho a mais que diga ao patrão para meter mais pessoal.

Hora de pedir sobremesas, o cafézinho, e algum do pessoal vai pedindo uns calicezinhos disto e daquilo. O raio do empregado tem o desplante de vir dizer que é quase meia-noite, e que tem que fechar o estabelecimento. Mas qual é a pressa do tipo, não aguenta mais uns 15/20 minutos, para acabarmos a nossa conversa e os nossos cálices? Estes tipos não querem fazer nenhum, e depois ainda se queixam não haver trabalho.

Esta introdução é ficcionada, mas é baseada em muitos comentários que já ouvi, atitudes que presenciei e até em pensamentos que ocasionalmente posso ter, mas hoje deu-se-me uma epifania e dei por mim a pensar em como por vezes consigo, ou melhor, conseguimos (não vou arcar com  as culpas todas, sozinho) ser injustos, e pouco compreensivos para quem trabalha.

No exemplo que dei, seria positivo ter em conta os quilómetros que aquele empregado de mesa já poderia ter percorrido, só naquele dia, e que se não tem mais colegas que o ajudem não será por vontade dele. Quando somos servidos a maior parte das vezes esquecemos que aquela pessoa que está atrás do balcão não é parte do balcão e que a sua vida é muito mais para além daquilo.

Uma das coisas que mais me incomoda ouvir nalgumas lojas de comércio local, que são normalmente geridas apenas pelos proprietários, é a pergunta "Vocês estão sempre abertos?" Não passa pela cabeça daquela pessoa que todos têm direito ao descanso físico e até mental, para se refazerem de ter que lidar com idiotas que fazem estas perguntas.

Em negócios maiores até posso tolerar, visto que poderão existir mais funcionários, mas em lojas de rua, e lojas familiares...

O total desrespeito por horários também faz-me eriçar os pêlos da nuca. No outro dia, eram umas 18:30 e observei uma "simpática" senhora, que vendo que dentro de um laboratório Germano de Sousa estava uma funcionária, começou a bater desenfreadamente à porta. Uma porta de vidro laminado, bem limpa, por sinal, que tinha como puxador um magnífico tubo de alumínio, e em letras garrafais, que se viam do outro lado da rua, um horário onde se via, explicitamente, que encerram às 16:30.

A senhora tanto insistiu, e gritava que só queria fazer uma pergunta que a rapariga lá teve que ir à porta. E a senhora de facto fez apenas uma pergunta. Perguntou "Estão fechados?"

A pergunta que agora eu vos deixo, caros compinchas leitores, é se um estalo valente dado na cara desta senhora, poderia ser considerado crime?

Não contente, a senhora que passa neste momento de senhora, a velha chata, lança o seu charme e diz que "já que está aqui, podia ver se estas análises estão prontas?"

A funcionária disse que não podia, ainda levou com a má disposição da velha, e lá voltou para o seu trabalho, que se atrasou uns minutos devido a alguém que julga que um outro alguém, que desempenha uma função de atendimento ao público, não é alguém, mas sim uma coisa, um adereço.

Para certas pessoas quem está atrás de  balcão não tem dores, não tem tristezas, não tem horários nem vontades. É engraçado que numa altura em que tanta gente discute a semana de 4 dias de trabalho, essa tanta gente pense que a semana de trabalho dos outros, deveria ser de 7 dias, e sem pausas sequer para dormir, que de calões está o Mundo cheio.

Segundo essas pessoas, mesmo que subconscientemente, no fundo, os funcionários, são apenas fantoches que estão ali para os servir.

09
Fev22

Entra por um ouvido...


Pacotinhos de Noção

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Quantos de vocês foram nos últimos tempos a um LIDL e se sentiram completamente ignorados, ficando até com uma lágrima no canto do olho, tal é a indiferença com que nos atendem.

Não sei quem foi o idiota que se lembrou de munir gente com falta de educação, nenhuma noção, muito pouca vontade de trabalhar e uma grande dose de descaramento, com um headseat com o qual pode falar com uma colega que tenha as mesmas "qualidades" atrás mencionadas, e que se encontra noutro ponto da loja.

Peço desculpa de antemão se tendo a generalizar, e conforme várias vezes a isso faço referência, existem bons e maus funcionários em qualquer área laboral, mas será que quando vou a um LIDL os bons estão todos de folga?

Já era difícil obter resposta a um "Bom dia!" quando não estavam munidos do auscultador, agora é tarefa impossível. Mais depressa arrancava da pedra a Excalibur.

Depois acaba por ser bastante confrangedor colocar as compras no tapete enquanto se houve que a Jéssica terminou com o Rúben porque soube que ele a andava a encornar com a Yasmin.

Para não podermos interromper tão importantes conversações até já nem precisamos de pedir sacos aos funcionários. Se os queremos, vergamos nós a mola e vamos buscá-lo às prateleiras sempre porcas e desarrumadas, que serviriam para os sacos, mas que acabam por ter lá perdidos os bifes que uma velha qualquer decidiu não levar.

Se precisarmos de fazer alguma pergunta à funcionária, é bom que dai tiremos o sentido porque ela nos faz um olhar ameaçador que demonstra claramente que se for preciso utiliza as suas unhas de gel de 3 centímetros, para nos vazar uma vista.

Figura de parvo é algo que também faço com frequência neste estabelecimento, devido aos tais "headset". Esqueço-me que eles existem e, invariavelmente, quando os funcionários cortam na casaca de alguém, ouço uma pessoa a falar sozinha e pensando ser comigo, solto um "desculpe, importa-se de repetir", recebendo em troca um olhar fulminante, carregadinho de um "meta-se na sua vida", e eu meto... Que remédio tenho eu, ou ainda me cospem numa lasanha, ou num iogurte grego que de lá levo.

30
Ago21

Curriculum Virtuale


Pacotinhos de Noção

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Tive a necessidade de comprar parafusos. Sempre me foi dito que tinha falta de alguns e a altura para tratar do assunto foi esta.

Desloquei-me a uma daquelas superfícies de bricolagem que há AQUI e ali, e na dificuldade de encontrar o material que precisava decidi perguntar a quem sabe... Ou que pelo menos deveria saber... Ou que pelo menos, tendo a informação deveria partilhar sem que fosse preciso arrancar a ferros.

A falta de vontade de atender o cliente é de tal ordem que quem compra quase que se sente na obrigação de não incomodar quem arrasta os pés pelos corredores, envergando um uniforme em que houve alturas que era indicador de que "EU TRABALHO AQUI", mas que agora apenas nos mostra que "PAGAM-ME PARA ESTAR AQUI".

Gostava de ser mosca e ter assistido às entrevistas de emprego destes "calinas" laborais. O currículo nem preciso ler. Sei que são todos pró-activos, "multitasking", com facilidade na resolução de problemas e com uma capacidade de atendimento ao público, acima da média. Trabalham também todos muito bem sob pressão.

Serem utilizadores de Word na óptica do utilizador ainda lá está, mas já de nada serve, só que não se apaga porque sempre são mais umas linhas de texto para ler. São currículos pré-fabricados que se encontram pela internet.

Não sei qual o meu espanto no facto de alguém mentir no currículo. Então mas se já tivemos Ministros e Primeiros-ministros que também o fizeram, porque é que para repor artigos numa prateleira, um tipo não o pode fazer?

Se bem que no meu entender, só se mente nos currículos porque muitas das vezes a entidade patronal está mesmo a pedir que se minta.

Quando ainda estudava, um dos meus primeiros trabalhos foi precisamente um destes de arrumar prateleiras em superfícies comerciais. Não me foi pedido currículo. Tenho em crer que nem tinham ideia se eu sabia ler ou escrever, e um dos funcionários mais antigos explicou-me o porquê dessa situação. Segundo ele, só não colocavam macacos a fazer o serviço simples que nós fazíamos, porque acabava por ficar mais dispendioso ensinar os primatas. Tendo isso em consideração, passou a ser, curiosamente, mais simples e prazeroso desempenhar a minha função, pois estavam a pagar-me para fazer algo que qualquer pessoa com meio dedo de testa conseguiria fazer.

Não tenho nada contra trabalhos que não requeiram "canudo" ou curso superior. Muito pelo contrário, acho que toda a sociedade começa pela sua base e como tal tem que ser valorizada. O chato da questão é que quem compõe essa base não respeita o trabalho que faz, não respeita o dinheiro que lhe pagam, não respeita quem lhe dá o dinheiro a ganhar e não consegue perceber que havendo cada mais ofertas de serviços, se o cliente deixa de ir aquele estabelecimento, o patrão não tem dinheiro a entrar e terá que fazer cortes podendo até esses cortes chegarem ao limite de falências e insolvências, ficando o funcionário, que mostrou tanta má vontade ao ajudar-me na procura de um simples parafuso, a continuar a morar em casa dos pais no alto dos seus 35 anos.

No fundo no fundo, e para resolver questões como esta e parecidas com esta, tem que passar a haver respeito.

Respeito pelo trabalho que se faz, respeito pelo cliente que se atende, respeito pelo lugar que se ocupa e que poderia ser ocupado por outro, quem sabe até 

mais competente.

Só respeito, basta isso... E um currículo bem aldrabado.

 

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