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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

28
Dez21

A máfia dos auto testes


Pacotinhos de Noção

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Chico-espertismo.

O português tem o velho costume de pensar que esta é uma definição só própria da nossa nação, contudo não é.

O chico-espertismo é algo mundial e está inerente à condição humana. Seja na China, na Rússia ou no Cazaquistão, será sempre fácil encontrar um Chico-Esperto. Aquilo que já será um pouco mais raro em termos mundiais, é o que por cá temos e que parece que vai sendo uma definição cada vez mais comum e é o Chico-Esperto-Burro.

Estamos numa altura em que todos precisamos de auto testes para o COVID.

A Omicron espalha-se mais depressa que piolhos numa escola primária e quem não tem testes quer ter, e os que já têm querem ter mais ainda, para juntar aos 500 rolos de papel higiénico que lhes sobrou ainda do início da pandemia. Até aqui tudo bem, mas como a procura é muita, os testes são já coisa rara, e encontrar sítio que tenha é o mesmo que encontrar um abstémio num qualquer Café Central de aldeia.

Como todos conhecemos alguém que trabalha, ou que conhece alguém que trabalha numa qualquer farmácia, super ou hipermercado, tratamos de mexer os cordelinhos para conseguir garantir que nos guardam alguns testes. Aqui é o Chico-Espertismo a trabalhar. O Chico-Espertismo-Burro é aquilo a que hoje presenciei.

Devo dizer que não nutro antipatia de qualquer espécie, por quem trabalhe como caixa de supermercado. É um trabalho honesto e necessário, como tantos outros, e havendo brio e respeito por aquilo que se faz, então a minha admiração é total. Agora, quando vejo idiotas, de unhas de gel estupidamente grandes, que não levantam os adiposos glúteos da cadeira onde estão, nem para chegar à máquina do Multibanco, e que parece que estão deitadas em cima do tapete rolante, então aí a minha antipatia é total. E tem razão de ser, pois quase sempre as filas em frente às caixas destas tipas são as mais compridas do supermercado. Incomoda-me também ter que ouvir, por entre o registo de um iogurte grego e uma alheira de Mirandela, as constantes lamúrias de uma descontente com as folgas trocadas ou, porque o dia nunca mais acaba.

Hoje, uma destas pessoas, enquanto atendia os clientes, ia rabiscando furiosamente um cartão mal-amanhado, com uma orgia de números de tal ordem importante que só isso poderia justificar a paragem do trabalho que desempenhava, para escrever os tais números, quando um colega aparecia e lhe sussurrava qualquer coisa.

Quase chegando a minha vez, fiquei então a perceber do que se tratava.

Aquela lista com números era a quantidade de testes que os colegas pediam-lhe que guardasse, para lhes vender mais tarde.

Havia encomendas para todos os gostos, sendo que as mais baixas eram de 4 testes e a mais alta que vislumbrei foi de 10.

Chegando a minha vez decidi perceber até que ponto chegaria o descaramento e pedi um teste de COVID. A senhora da caixa afirmou que nesta altura testes de COVID "são mais difíceis de encontrar do que petróleo", informação esta que o labrego, e mal-educado colega, não devia ter conhecimento, pois interrompeu o meu feliz desfile de compras pela passadeira ao ir perguntar à Paula "se ainda tinha testes", tendo ela respondido um seco e envergonhado "calma, depois falamos".

Eu até percebo que o facto de se ter acesso aos testes permita-lhes conseguirem terem-nos quando outros não os têm, aquilo que já me custa mais admitir, e é isso que apelido de Chico-Espertice-Burra, é o de não o conseguirem fazer de forma a que os clientes não percebam que se está ali a passar uma transacção de produtos racionados, que não chegam ao cliente, mas que lhes passa à frente do nariz.

É o mesmo que passar o pão quentinho em frente ao nariz do mendigo esfomeado, para depois o distribuir apenas por quem precisa dele para raspar o molho que ficou no fundo do prato.

Não existiria forma de fazer estas negociatas de maneira um tanto ou quanto mais disfarçada? Provavelmente existe, mas recordo que estes são Chico-Espertos-Burros, que se julgam mais inteligentes que os demais, mas que são só descarados.

Para quem vende os testes é igual se quem compra sou eu, você ou os funcionários que os refundem, mas se quem compra os testes de 2,50€, o estiver a fazer para depois os vender a 15€ no Custo Justo. Então aí o esquema já passa a ser vil e desonesto e sobrevalorizam um produto que, atualmente, é vital para se saber se se está doente, ou se somos uma fonte de contágio, ou não.

É uma máfia que se formou rapidamente, mas que não tem apenas um líder, tem vários.

São muitos dos caixas dos supermercados e como tal devem ter um nome que os defina. Acho que "Al Cabrones" fica bem.

22
Nov21

Hoje sinto-me um imbecil


Pacotinhos de Noção

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Quem me lê há-de ter reparado que super e hipermercados são microcosmos que frequentemente utilizo para mostrar exemplos da quão ranhosa é esta nossa sociedade. Isto acontece por estas superfícies serem frequentadas por toda a categoria de gente. Mesmo o mais eremita precisa de mantimentos e é lá que se abastecerá.

Hoje desloquei-me a uma loja Minipreço e a cena com que lá me deparei abalou as minhas convicções. Agora, algumas horas passadas, tenho o discernimento para perceber que a unidade não é um todo, mas no imediato da situação não é com essa a sensação com que se fica.

Defendo que Portugal não é um país racista. Tem, como todos os países terão, elementos medíocres que por serem tão barulhentos até podem parecer que são muitos, mas a verdade é que não são. Mas quando atacam, ao atacado dói tanto como se fossem mais, e o que realmente interessa é isso. Vamos então ao relato da situação.

Entrando no supermercado que referi, ouço uma senhora a falar alto com a menina da caixa, que por acaso é brasileira. Não sei qual seria o motivo nem quem ali tinha a razão, mas sei quem rapidamente a perdeu.

O primeiro argumento que me acertou como um murro no estômago foi o bom e velho — "mas você não sabe que o cliente tem sempre razão?" — a resposta foi um educado -"talvez na sua perspectiva, mas na minha não". Como as pessoas que gostam de falar alto não lidam bem com quem lhes responde baixo e com educação, aproveitam logo para mostrar o jogo todo pondo as cartas na mesa, e o trunfo jogado foi lançado todinho de uma vez. Parecia uma avalanche de idiotice, estupidez e trampa que a tal senhora vomitou, e esta porcaria toda, para mim que nem tinha nada que ver com o assunto, em vez de voltar-me a acertar no estômago, acertou-me com toda a força nas trombas deixando-me até sem reacção. Esta senhora, a quem agora faço questão de apelidar de vaca, virou-se para a rapariga e metralhou-a com -"mas quem julga você que é? Vem para o país dos outros a dar ares de quem manda? Vá, mas é para a sua terra"...

O "vá, mas é para a sua terra" tem em mim o mesmo efeito que ver um animal atropelado na estrada. Sabemos que acontece, ocasionalmente vemos um, mas sempre que por ele passo, até sinto um arrepio na espinha.

Agora sei que deveria ter intervindo. Deveria ter chamado à atenção aquele saco de estrume e disponibilizar-me para servir de testemunha à funcionária ofendida. Não o fiz e sinto-me um imbecil por isso. 

Nesta situação não deveria ter tido pudores de ter sido até deselegante com tão desprezível pessoa, mas de facto não tive reacção. Reacção teve a ofendida que se retirou e foi-se fechar no W.C. a chorar. Estou certo que o fez não só pela ofensa mas também por não ter tido quem a defendesse e até por se ter sentido traída por colegas que não tomaram as suas dores, apenas porque ficaram com receio da cliente. Percebo que o nervoso tenha-lhes toldado o discernimento. Se me aconteceu e não era nada comigo, imagino como terá sido difícil para eles engolir esta ofensa. Até porque também eles são brasileiros.

Aquilo que posso apenas dizer é que me sinto envergonhado.

Sinto-me envergonhado por assistir a isto e não ter reagido. Não vou aqui afirmar que "sou isto e aquilo" e "que faço e aconteço", mas hoje podia ter sido só um bocadinho "daquilo" para fazer "acontecer" e o acontecer aqui até podia ter trazido o bónus de ter feito uma "tuguinha" ranhosa sentir-se humilhada por ser chamada à atenção por outro "tuguinha", que foi ranhoso por não intervir. E ser "tuguinha" é isto... É muito provavelmente ter familiares a trabalhar no estrangeiro, é afirmar que já se sofreu de preconceito por um ou outro motivo, é sublinhar que quanto mais conhece as pessoas mais gosta de animais, mas que mal tem a sua oportunidadezinha de espezinhar alguém não hesita e fá-lo com os dois pés, e até com botas da tropa, para saber que calcou bem e sentir orgulho numa nação que trata assim quem nela mora. Mas mais uma vez afirmo, e não me deixo ir ao engano, por assistir a este triste espectáculo não mudo a minha opinião. Não somos um povo racista, mas temos por cá muita porcaria, que curiosamente até por cá nasceu.

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