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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

03
Nov21

Cambada de "coninhas"


Pacotinhos de Noção

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Volto hoje a falar do Big Brother.

Este programa, por quase ninguém visto, continua de certa forma a dar audiências, e o que é um facto é que quando algo de mais marcante acontece todos ficamos a saber e acaba quase toda a gente também por comentar, porque sabemos que havemos de conseguir, nem que seja uma raspa no fundo do tacho do "sururu" que foi criado. É o meu caso aqui, que gosto de escrever mas também gosto que leiam o que escrevo, e por isso tento sempre estar em cima da onda da actualidade, e é também o caso do Bruno Nogueira, por exemplo, que também não gostando do formato, sabe disto que acabei de referir e acabou por se debruçar sobre o grave assunto do qual todos falam.

Mas será que foi assim tão grave?

Resumidamente conto-vos o que se passou.

Um concorrente afirmou ter tido já um contacto sexual com a namorada que fez na casa. Isto sem que ela se tenha apercebido, nem sequer consentido. Este foi o rastilho para que de repente estivéssemos no meio do incêndio de Roma, e o Nero que o ateou foi a própria produção. É fácil de perceber porquê. O formato vai ficando cada vez mais esgotado e há que aproveitar cada pisadela em ramo verde que um concorrente possa cometer. Desta forma podem ralhar, punir, causar polémica e burburinho chegando até a humilhar os concorrentes, mas não faz mal porque neste caso o "falem mal mas falem de mim" é o lema preferido e a exploração de situações que se possam tornar virais são aquilo que interessa. Prova disso mesmo foi a suposta queda do Eduardo Madeira para a piscina, no programa da Cristina Ferreira que, mesmo o Eduardo Madeira esforçando-se, deu para perceber como foi uma encenação muito mal executada.

Há uns anos uma boa desculpa, para quem via o Big Brother, era a de que viam como um fenómeno ou um estudo sociológico. Ninguém admitia que era porque gostava de assistir a um bate boca, cusquice ou peixeirada, ou até um ameaço de bofetada.

Nos dias de hoje esse fenómeno ou estudo sociológico continua a ser muito válido. De facto passou até a ter o dobro da validade, porque fazemos o estudo sociológico dos concorrentes que estão dentro da casa e fazemos o mesmo estudo do público que os segue.

As conclusões que se poderá tirar do estudo são que no primeiro Big Brother tínhamos concorrentes com o 9ºano, o 12º e homens da tropa. Chateavam-se, davam até pontapés uns nos outros mas dava perceber que eram na sua essência genuínos e que nem sabiam bem ao que iam. Agora temos na sua maioria licenciados, mas que pouco ou nada trabalharam, não fazem ideia de como se faz seja aquilo que for (achava piada pedirem-lhes para construir um galinheiro como fizeram com o Zé Maria) e têm a capacidade de argumentação de um maple do IKEA.

Capacidade de argumentação que poderia ter sido útil ao concorrente visado nesta polémica porque fui ver as imagens e aquilo que vi foi apenas uma piada, uma brincadeira.

A única pessoa que vi defender este ponto de vista, sem medo de colocar todos os pontos nos i's, foi o Flávio Furtado, que trabalhando até dentro do formato, não teve pudores de dizer aquilo que realmente pensa, não se vergando ao peso das audiências e das redes sociais.

Só quem esteja de má-fé, ou que queira muito pontos de audiência de forma muito badalhoca, é que pode agarrar neste contexto e dizer que o que se passou é uma vergonha, um crime, um abuso do homem pela mulher...

Tudo isto é demagogia barata. Aquela mesma demagogia utilizada pelo CHEGA e que supostamente tanto asco causa a tanta gente mas que afinal de contas até é bastante simples de usar, apenas e só porque a hipocrisia é a nota dominante.

O que nos leva ao estudo sociológico do "públicuzinho".

Estão todos transformados numa cambada de coninhas. Hoje em dia não se pode brincar com isto ou com aquilo, é uma ofensa, estão na televisão e têm que dar o exemplo... Deixem-se de tretas.

Pode-se e deve-se brincar com tudo. Não há limites para o humor. Há é os limitados sem humor, mas isso já é problema deles, por isso deixem-se ficar desse lado do monitor e vomitem as opiniões que quiserem mas pensem primeiro se valerá mesmo a pena. É que ao criarem essas opiniões pré-fabricadas vão apenas ser mais um bode naquele rebanho que tanto desdenham e ao qual imputam a pertença de indivíduos que pensam de maneira diferente da vossa, sem perceberem que por pensarem de maneira diferente de vós estão a demonstrar que afinal do rebanho não conhecem nem o pastor.

Ser uma ofensa é outro problema do receptor da mensagem que o programa possa passar. Quando alguém se vira para vocês e diz "És uma trampa", isso sim é uma ofensa, mas sentirem-se ofendidos por algo que passa na televisão é o mesmo que sentiam os inquisidores para justificar a queima das bruxas e das adúlteras, e a PIDE, para justificar o uso desenfreado do lápis azul. E felizmente, nos dias de hoje, mesmo que queiram usar o lápis azul, eu tenho a liberdade de sugerir que enfiem o lápis azul num sítio onde o sol não brilha, porque já não há pachorra para estes inquisidores de redes sociais, que não tiram os seus rabos suados da frente dos computadores e cuja coisa mais próxima de actividade física que praticam é vestir o fato de treino surrado que lhes serve de pijama, dia após dia, sem sequer lavar.

Querer também que a televisão sirva de exemplo é, mais uma vez, demitirem-se de toda e qualquer responsabilidade que têm para com a sociedade. A televisão é entretenimento e nela poderá, e deverá até, vir incluída cultura, regras de convivência e de cidadania... Mas poderá não vir, e se não vier o exemplo que os vossos filhos, caso tenham, devem seguir não é nunca o da televisão, é o exemplo dos pais, e o exemplo que eles vão seguir é o de alguém que, vivendo num país próximo da bancarrota, em que tudo aumenta, com um SNS deficitário (ao contrário do que nos querem fazer crer) e com políticos e governantes que mostram que a corrupção vai sendo a norma e não a excepção, se vai indignar com aquilo que um idiota que se fechou numa casa com outros 15 idiotas, para ser filmado para ser visto por algumas centenas de milhares de idiotas, disse. Belo exemplo para os garotos, sim senhor.

Para terminar, e fazendo também a minha análise sociológica, elaborando uma teoria rebuscada, a ideia que me dá é que a época em que vivemos está de barriguinha cheia.

Depois das Guerras Mundiais, as sociedades levaram o seu tempo para se restruturarem novamente, quer economicamente quer em valores morais e em convivência na sociedade. Como passaram por momentos traumáticos e como tinham mais em que pensar, os assuntos considerados menores nem sequer eram abordados. Só se perdia tempo com o que era essencial. Aqui tivemos uma ditadura e a Guerra do Ultramar e depois uma revolução que nos deu a liberdade, mas que nos tempos iniciais andou ali aos soluços e que sofria com várias instabilidades. Os anos foram passando e hoje somos filhos e somos netos de uma revolução, de uma ditadura e de guerras que vão ficando cada vez mais distantes e esquecidas. Isto leva-nos a um vazio de ideais e de convicções que sejam realmente importantes, o que nos leva também a que sejamos uns palonços que poderiam até tentar lutar contra algo maior que eles e que poderia levar a mudanças, mas ser-se inoperante já está tão vincado e passou a ser tão confortável que as lutas que se escolhe são aquelas que se apanham na televisão ou nas redes sociais e que não exijam grande coisa de nós, além de mandar uns bitaites como, por exemplo, acabei eu de fazer por aqui.

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