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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

25
Out21

Mordaças Sociais


Pacotinhos de Noção

liberdade-de-imprensa.jpgHoje vi o Big Brother.

Fui alertado para uma nova polémica que estava a mexer com as redes sociais e pensei logo que ia ver outro tipo a fazer a saudação nazi, ou então mais um pontapé de um tipo noutro concorrente. Mas a realidade é que não estava preparado para aquilo que vi e ouvi. Foi o horror. O meu estômago embrulhou-se e a minha espinha gelou. Por muito tempo que viva não mais esquecerei o gesto, nem o que aquele concorrente disse.

Reparem que um dos concorrentes, referindo-se a um dos seus colegas, que ao que parece acorda já cheio de energia, fez um gesto insinuando que o colega "snifa" estupefacientes e ainda legendou com a frase "Parece que acorda e dá logo nos ácidos".

As redes sociais movimentaram-se e pediram que role a cabeça deste energúmeno, para que não torne a repetir a gracinha.

A cabeça não rolou mas o concorrente não se livrou de um puxão de orelhas dos apresentadores Manuel Luís Goucha e Cláudio Ramos, que o relembraram que as brincadeiras que faz em casa são uma coisa, mas que está num programa de televisão e tem que pensar naquilo que diz.

Agora recordem-me por favor, esta coisa do Big Brother não tinha como uma das suas divisas ser "a novela da vida real"?

Pergunto isto porque na vida real não há guiões. Dizemos aquilo que queremos, por mais estúpido que possa ser ou parecer. As consequências depois poderão fazer-se sentir, mas ninguém nos colocou qualquer tipo de mordaça, e é isso que cada vez mais querem fazer aos concorrentes deste reality show.

Para produzir um programa destes há que ser corajoso. Não se pode ceder à pressão dos media e muito menos à pressão das redes sociais, que estão cheias daqueles aldeões ignorantes, que têm sempre as tochas e as forquilhas preparadas para perseguir o monstro que alguém diz que viu e que, na falha de encontrar o monstro, que na realidade nunca existiu, acabam por atacar um qualquer coxo ou marreco, porque tem uma diferença que para eles será grande o suficiente para que possa ser um monstro, ou que pelo menos permita validar o facto de o terem usado para saciar a sede que têm por sangue.

Já não é a primeira vez que se sabe que as produções fazem chamadas de atenção por coisas que este ou aquele concorrente disse. Ao que parece entrar na casa do Big Brother é como entrar num vórtex que nos faz viajar no tempo e transporta os concorrentes para anos anteriores a 1974, quando existia uma ditadura e em que pessoas sofriam por falarem sobre assuntos que não deveriam ou até por falarem de forma como alguns não quereriam.

O grande culpado destas situações é o famigerado politicamente correcto, que mais não é do que a censura disfarçada com unhas de gel, cabelos pintados, fatos de treino da ABIBAS e currículos académicos que de nada serviram, porque a janela para o Mundo pouco mudou desde a adolescência. Continua a ser um ecrã de um computador, ou agora também poderá ser o de um smartphone, que por muita informação que despeje dificilmente será aproveitada por quem está mais interessado em pegar neste ou naquele preciosismo de quem disse algo que não deveria e que por isso terá que ser pendurado na cruz.

Se quem produz o programa quer tanto ter fantoches dentro da casa, com tudo tão predefinido, porque é que não distribuem guiões a quem entra? Perderia em espontaneidade mas ganharia talvez em conteúdo.

No meio desta parvoíce toda a única situação que considero grave é o facto de terem várias pessoas fechadas e que não podem ser elas mesmo a 100%, porque existem condicionalismos de várias ordens, que são impostos pela produção que, infelizmente só existem porque dão importância ao que é dito nas redes sociais.

 

15
Set21

Livre de dar opinião, se for permitido


Pacotinhos de Noção

quintino-aires-psicologo-desaba-em-lagrimas-ao-rec

Não gosto de nêsperas nem de nespereiras.

A nêspera é demasiado doce, mas ao mesmo tempo meio borrachona. Já a nespereira teima em dar abundantemente um fruto do qual não gosto, e só para me afrontar ainda os deixa cair quando estão maduros.O que acontece depois é ver as formigas todas atarefadas, atropelando-se umas às outras, famintas pelo pedaço e pelo açúcar, da nêspera de que não gosto, mas que lhes proverá o alimento do Inverno rigoroso.

Está corrida desenfreada das formigas, ilustra perfeitamente aquilo que hoje aconteceu na internet. Por muita volta que se dê, acaba sempre por aparecer a notícia de que o Quintino Aires foi dispensado, de que fez comentários homofóbicos e que devia ser queimado na fogueira.

Tudo bem, esta parte da fogueira inventei, mas pouco falta.

Vou já sublinhar que não suporto o Quintino. Não o conheço pessoalmente, nunca me fez mal algum, mas de todas as vezes que lhe ouvi a voz senti que a minha fraca opinião acerca da psicologia tem um fundamento bastante válido. Bem sei que não é uma ciência exacta mas é um facto que tem bases. Essas bases perdem alguma sustentabilidade porque existem diferentes pontos de vista e várias vertentes, o que a mim me dá a percepção (pode até ser errada) de que ser psicologo mais não é do que debitar as suas opiniões, por mais ridículas que possam ser. O Quintino Aires, para mim, é a prova viva do que acabo de dizer. Ele é pago para dar a sua opinião, e podendo ser ridículo ele aproveita e é.

Podemos ou não concordar com aquilo que disse. Eu, por exemplo, também não acho piada às marchas de orgulho LGBT. Acho que com estas marchas folclóricas, ao invés de estarem a agir com a normalidade que se ser homossexual ou heterossexual deverá ter, estão apenas a querer criar um nicho, mostrando que só eles percebem o que é ser-se ou não LGBT. E estão certos, só eles é que deverão perceber. Eu, que não sou, não tenho interesse nenhum em saber. A minha mentalidade não foi mudada por qualquer marcha que tenha visto ou em que tenha participado, até porque a minha mentalidade não mudou.

Para mim, que sou heterossexual, faz todo o sentido que o homem se junte com uma mulher, mas para mim, que sou heterossexual, também faz todo o sentido que o Joaquim se junte com o Manuel, porque se amam. São dois homens!? Tudo bem, não me faz qualquer espécie, mas isto foi acontecendo no meu âmago, porque sim. Não foi nenhum panfleto, não foi nenhuma marcha, não foi o Brokeback Mountain. Foi o não querer saber, porque realmente não quero. Cada um ama quem quiser, e respeito isso.

No meio disto tudo o que me causa algum repúdio é, mais uma fez, esta política de cancelamento, de amordaçar e quase esventrar publicamente quem tem uma opinião que, ou não é politicamente correcta, ou não respeita a normalidade que as redes sociais instituíram.

Os movimentos LGBT lutam pela sua liberdade, pelos seus direitos mas são os primeiros a tentar acorrentar e a desprezar alguém que pensa e sente diferente.

O Quintino Aires não incitou ao ódio, expressou uma opinião macaca e descabida na óptica da maioria, mas é apenas a sua opinião. Foi pago para isso, sabe que ser polémico gera audiência, barulho e potenciais clientes, mas esqueceu-se que estamos a viver numa época de virgens ofendidas, que querendo usufruir das suas liberdades não querem permitir que os outros também as tenham, porque lhes podem beliscar o orgulho.

Falando em liberdade alguém argumentará que a liberdade de alguém termina quando começa a do outro. Mas e se a liberdade do outro for mais invasiva do que a minha? Quem define o tamanho da liberdade de quem?

Comecei com uma analogia, meio que inserida a martelo, e vou acabar com outra.

Sinto que actualmente voltámos à época das arenas romanas, em que a populaça, para se sentir um bocadinho menos excrementosa daquilo que era, fazia questão de querer que alguém sofresse, quase sempre até à morte. Dava-lhes gozo imaginar que o desfecho se devia àquilo que decidiam, quando de facto esse poder não lhes cabia. Apenas se regozijavam porque existia alguém, naquele momento, para quem conseguiam canalizar as suas frustrações.

Não sou psicólogo, mas também sei inventar.

 

21
Ago21

A mim só me calam, se quiserem


Pacotinhos de Noção

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Depois do último post sobre negacionistas dei por mim a pensar que embora não concorde com a maior parte das coisas que defendem, existe uma em que lhes tenho que dar 100% de razão, e nem sequer estou a ser irónico.

Reparo que por várias vezes se têm queixado de ver conteúdos seus, que publicam nas redes sociais, bloqueados ou até retirados, o que para mim é bastante grave porque se está a negar um valor basilar das sociedades democráticas de hoje em dia, e que é a liberdade de expressão.

Ao existir um qualquer organismo, empresa ou entidade, que bloqueia artigos e postagens, que são acima de tudo opiniões, entra-se num esquema muito similar à censura.

Para quem é mais distraído isto poderá ser algo de surpreendente mas na realidade esta censura real, mas que é encapotada por "rodriguinhos", vai-se espalhando de forma dissimulada de tal maneira que por vezes acabamos por defendê-la sem reparar que o fazemos, e isto acontece porque as pessoas não pensam que poderão estar a fazer algo de menos positivo.

Calar a boca de cada um é uma forma de opressão e não é raro acontecer minorias, que também elas se sentem oprimidas, acabarem por criar obstáculos que depois nos fazem temer por causa daquilo que dizemos e que, retirado do contexto ou num contexto completamente diferente, poderá ser utilizado como arma contra nós.

Exemplos concretos disso mesmo é a recente definição de discursos de ódio.

Esta definição foi criada por minorias que defendendo a sua liberdade de expressão não hesitam em colocar grilhetas na liberdade de expressão dos outros e em que tudo aquilo que eles quiserem que possa ser definido como discurso de ódio, se não respeitar os seus requisitos.

Sou da opinião que toda a gente deve poder dizer tudo aquilo que quiser, tendo em consideração que não esteja a ser ordinário ou vulgar para um outro alguém, mas quando quem define aquilo que podemos ou não dizer, já está à partida formatado por uma bitola de medida reduzida e tendenciosa, ficando a coisa mais complicada.

Alguém que seja a favor do aborto tem tanto direito, como quem é contra, de exprimir aquilo que pensa. Cabe depois ao receptor tirar as suas ilações.

Imensa gente quer calar o Chega e o André Ventura... Pois que o deixem falar, dêem-lhe toda a corda necessária para se enforcar. Ou não. Vamos supor que André Ventura até ganharia umas eleições, como aconteceu com Trump. Se viesse a acontecer significaria que a maioria teria votado nele e como quem manda é maioria, só nos restaria aceitar e depois colher as consequências de tal cataclismo. Seria posta em prática a velha máxima "quem faz a cama deita-se nela".

De ano para ano a situação tem vindo a extremar-se. A ditadura do politicamente correcto faz-se sentir e depois de ter ouvido tantas vezes que é preciso pensar "fora da caixa", quando queremos dela sair não conseguimos, porque foi fechada, lacrada e ainda enterrada, connosco e a nossa opinião lá dentro.

Tenho estado a falar acerca de opiniões pessoais, mas vamos pender sobre as opiniões de figuras públicas e políticas, por exemplo. Mesmo estas, nos dias de hoje, vivem amordaçadas pelas sociedades, e foram até criados órgãos que dão o nó nessas mordaças. Falo das empresas de "fact check" que vão sendo cada vez mais comuns, sendo que elas próprias acabam por não ter uma entidade reguladora que confirme se os "fact checks" feitos têm fundamento ou não. Isto porque na grande maioria das vezes estas empresas estão associadas a grupos de media que as acabam por guiar para os factos que mais lhes convém.

Com esta conversa toda significa que defendo que deveríamos fazer o que?

Nada. Ou melhor tudo. Dizer tudo como os malucos e ter em consideração que poderemos ter que arcar com as consequências da nossa faladura. Mas o problema não está em quem diz. Está em quem não quer ouvir, e o exercício é esse mesmo.

Quem não quiser ouvir terá que se começar a treinar para perceber que a opinião dos outros é a opinião dos outros, e por não concordarmos com ela não significa que haja a necessidade mudar o pensamento daquela pessoa. 

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