Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

16
Mar22

Ser cobarde salvaria mais vidas


Pacotinhos de Noção

png_20220316_190825_0000.png

O conceito de herói é muito subjectivo e tem cada vez mais sido banalizado. 

A partir de determinada altura todos são heróis. Desde o tipo que salva uma família de um incêndio, até ao outro que conseguiu solucionar o caso de uma torneira que não parava de pingar.

Para mim a palavra herói não tem um sentido tão lato, e muito provavelmente nem vai ao encontro daquilo que a maior parte das pessoas usa como definição. Mas isto é porque sou um pouco cobarde, até caguinchas, e para pessoas como eu, o herói é aquele que consegue evitar o conflito.

Tomemos como exemplo o caso de Zelenskiy.

O presidente ucraniano está, neste momento, catalogado como herói. Concordo e nem tenho nada a apontar.

O homem surpreendeu tudo e todos, surpreendeu principalmente Putin, que pensava poder manietar o adversário com relativa facilidade, mas tal não aconteceu. Zelenskiy fez frente a alguém mais poderoso e até tem a sua vida colocada em risco para defender uma nação... Mas e o que é uma nação? É apenas um pedaço de terra, em determinado lugar, ou uma nação só o é graças às pessoas que a formam?

E a nação, que acaba por ser algo de abstracto, merece que se morra e se mate por ela?

Aquilo que aqui vou expor não é o certo ou o errado, é apenas aquilo que eu faria, tendo em consideração o meu pouco caso para qualquer categoria de conceito de nação, de orgulho nacional ou amor à pátria.

Gosto de Portugal? Gosto do território, do clima, e até de algumas comidas, mas cada vez gosto menos da praga que infesta o país, e que são as pessoas. Dado curioso é que pessoas há em todo o lado e não diferem muito de sítio para sítio. De qualquer maneira mesmo eu apreciando cada vez menos pessoas, não julgo que deveriam desaparecer. Talvez o certo seria eu transformar-me numa espécie de eremita, porque no final das contas quem está mal sou eu. Não posso ser o tipo que vai na autoestrada em sentido contrário, defendendo que sou o único que está correcto.

Como não penso que devam desaparecer, e caso estivesse no lugar de Zelenskiy, mal houvesse a pequena ameaça de uma invasão, que pudesse causar qualquer tipo de baixa, render-me-ia logo. Mas é que nem pensava duas vezes. Sei ser chocante isto que escrevo, mas recordo-vos que quem vos escreve é um tipo assumidamente sem valores patriotas, com pouca coragem pessoal, e que julga que uma vida, seja ela russa, ucraniana, portuguesa ou chinesa, não tem preço. Se for de uma criança então, a dívida que fica, de cada vez que uma é vítima desta guerra (ou de outra qualquer) é impossível de pagar.

As últimas notícias dão conta de pelo menos 100 crianças mortas. Não tenho palavras que consigam transmitir a tristeza que me percorre todos os poros, todas as veias, todos os milímetros do meu corpo, ao imaginar o medo que uma criança tem, neste cenário dantesco. O sofrimento dos pais que perderam quem mais amavam, e a constatação de que estas 100 crianças estão a horas e dias de se transformarem em 110, 120, 200.

É por isso que para mim o acto mais heroico que Zelenskiy, e o próprio povo ucraniano poderia fazer, era entrar em conversações, com o animal do Putin, e dizer-lhe que sim a tudo. Que não querem a NATO, que não querem a Europa, que não vão ter armas nucleares, que saltam ao pé-coxinho... Eu sei, eu sei que em teoria Putin ganharia esta guerra, mas não vejo as coisas por esse prisma. Quem verdadeiramente ganharia a guerra seria quem nela não morreu, nem iria morrer. Seria quem pudesse voltar para sua casa e para junto dos seus, seriam todas as crianças que poderiam voltar a sonhar em ir para a escola, crescerem e serem adultos.

O que realmente iria mudar no dia a dia do comum ucraniano? Julgam que muito? Não me parece. Esta, e todas as guerras de sempre, acabam por acontecer por motivos políticos, e é verdade que um político forte como o Zelenskiy dá outra moral, outro tipo de força, que nos faz ficar mais corajosos. Mas continua a valer mais um corajoso morto do que um cobarde vivo?

Posso garantir-vos que se fosse ucraniano a minha coragem estaria apenas apontada nos esforços para dali conseguir sair, com a minha mulher e os meus filhos. Seria um desertor? Seria, mas neste jogo que é a vida, já em pleno século XXI, devo dizer que não estava à espera de ter que decidir se deveria matar, ou não, inimigos, mas tendo que decidir, decido sempre que prefiro fugir.

Dos fracos não reza a história, aos fortes rezamos nós, no dia dos seus funerais.

04
Fev22

Quão hipócrita és tu?


Pacotinhos de Noção

 

png_20220204_022856_0000.png

Sim, tu.

Este texto é para ti, Rodrigo, Joana, Pedro, Filipa, Alexandre e João, ou para qualquer outro nome de quem leia estas linhas.

O país é hipócrita, o Mundo também o é.

Dou exemplos.

Todos, repito, TODOS e não só o CHEGA, criticam os ciganos quando os veem, por volta de dia 20, nas suas romarias aos CTT para levantar o dinheiro do rendimento social de inserção.

Dizem serem miseráveis e que andam às migalhas, mas a verdade é que nestas eleições António Costa ganhou a maioria porque acenou aos mais velhos com um aumento de 10 € nas pensões, e aos funcionários públicos com uma promessa de pensar numa semana de trabalho de 4 dias, e num ordenado mínimo de 900 €. Não é também miserável dar um voto de confiança a um Governo sem propostas, apenas porque este acena com uma nota de 10 e promessas de menos trabalho e mais dinheiro?

O próprio Governo sofre desta hipocrisia, porque neste momento aguardam, e até salivam, por um dinheiro europeu lançado como se estivessem a atirar milho velho a pombos.

A comunidade internacional é também hipócrita.

Tanto alarido fizeram com a saída dos E.U.A do Afeganistão, mas apenas o fizeram porque era mediático. Entretanto, no Inverno rigoroso que por lá se faz sentir, diariamente têm morrido crianças com fome, frio e doenças que são por nós consideradas normais, ou até já quase extintas. Vi uma reportagem da SIC que mostrava uns pais desfeitos que embrulhavam o seu pequeno filho de dois anos, já morto, num cobertor, e que pela última vez pegaram-lhe ao colo para dali o levarem para o funeral. Mostraram também uma pequenina de 7 meses que dificilmente escapará à pneumonia, ao sarampo e à febre que lhe roubam os anos que poderia vir a ter, mas que não acontecerão. E onde estão os gritos da comunidade internacional? Saíram de lá os E.U.A, mas não existem mais países no mundo que devam ser chamados a intervir? E a ONU não serve para isto mesmo, ou só pode intervir quando o retardado do Putin ameaça a Europa com cortes de fornecimento de gás, e invasões à Ucrânia?

A maior hipocrisia é gritarmos aos quatro ventos que algo deve ser feito quando temos a consciência plena de que nada será feito, e sabendo que se tem essa consciência então pergunto, gritar para quê? Porquê?

Quem realmente decide não quer saber se a população grita, se chora, se morre. É feio, mas é verdade.

Agora, por exemplo, dado que as eleições já aconteceram, e foram ganhas, aposto que já se vão começar a regredir nas medidas relativas ao bicho peçonhento que teima em não nos largar, e não é porque tenha ficado mais fraco, mas sim porque o Governo está mais forte.

E para terminar falo em mais uma hipocrisia global que é a das medidas que visam acabar com o uso do carvão para fabricar electricidade. Esta é uma forma poluente, mas que acaba por ser a mais barata.

 Como se pode exigir a países como a Índia, o próprio Afeganistão, ou outros com o mesmo tipo de problemas sociais e económicos, que desistam da forma mais barata de produzir energia, apostando noutras mais caras, quando nem para comer, ou se aquecerem convenientemente eles têm capacidade? Vai-se condenar toda uma população para que outra se regozije ao afirmar nas suas reuniões COP, para onde foram nos seus aviões a jacto, que os objectivos foram cumpridos e estaremos então a viver num Mundo com menos carbono?

Sim, viveremos num Mundo com menos carbono mas também com menos valores éticos e morais e cada vez mais hipócrita.

20
Nov21

Morte Laboralmente Assistida


Pacotinhos de Noção

Polish_20211120_174844884.jpg

Recentemente voltou a ser aprovada no parlamento a lei da morte medicamente assistida, vulgarmente conhecida como eutanásia. Gostaria de sublinhar que houve votos contra e votos a favor tanto no PS como no PSD, o que significa que não houve instrumentalização dos deputados e cada um votou com a sua consciência. Deveria ser sempre desta forma, isso sim, é viver em democracia e saber representar quem neles votou.

Mas embora esta introdução possa levar ao engano, não é acerca deste assunto que quero falar. Venho, isso sim, falar acerca da morte laboralmente assistida que, caso não tenham ainda percebido, é um processo em qual todos nós estamos inseridos. É certo que há alguns que lhe conseguiram escapar, mas nem sabiam ao que fugiam.

A morte laboralmente assistida não é algo que aconteça do dia para a noite. Leva anos, leva muita paciência e é um estratagema muito bem montado.

A finalidade é a de poupar recursos ao Estado. Aos olhos de alguns isto poderá ser apenas uma teoria da conspiração, mas sugiro que continuem a ler e no fim logo me dirão se concordam ou não.

O estratagema consiste em colocar as pessoas numa azáfama diária, no percurso casa->trabalho, trabalho->casa. Poderão perder parte da vida em transportes públicos, que de ano para ano se vai prometendo que serão melhores, mas que nunca é aquilo que testemunhamos. Quem quiser fugir a este suplício poderá ir para o trabalho em transporte próprio, mas também sofrerá no trânsito, sofrerá nos valores que terá que pagar de combustível e sofrerá para encontrar estacionamento.

No trabalho estará sobre constante stress. Ou por os prazos serem curtos, ou, porque a empresa está em risco de fechar, ou simplesmente por o patrão ser uma besta e gostar de chatear.

No fim de um dia de trabalho há que passar por uma superfície comercial, para fazer as compras do dia. Mais stress, mais preocupações porque os produtos só aumentam e qualquer dia mais vale comer areia da praia. Temos a ideia de que queremos comprar biológico porque supostamente é mais saudável, mas a ideia vai por água abaixo. Os preços são proibitivos por isso comemos um bocadinho menos saudável. Pode ser que nem faça mal. Podíamos comprar legumes à D.Augusta que até tem uma horta, e mais biológico seria difícil, mas ela deixou de vender para fora quando a câmara a multou porque não tinha licença.

Chegando a casa vemos um monte de contas para pagar. A luz, o gás e a água aumentaram. Os miúdos não param de crescer e precisam de roupa nova. Fomos à Primark, mas o barato sai caro e vestir a roupa lá comprada parece mais que é uma promessa ou é um castigo. Por muito que se procure não se encontra nada de jeito e aquelas cuecas que lá se comprou causam uma micose que até apetece cortar os...

Da escola disseram que as refeições também aumentaram. Já perguntámos se as crianças poderiam levar comida de casa num cestinho, como antigamente, mas disseram que não. Logisticamente é difícil e não é inclusivo para as crianças, que se poderão sentir à parte e com traumas... Mas estou a desviar-me do assunto principal. Os dias, as semanas e os anos vão passando e tudo vai permanecendo sempre igual. Uma ou outra melhora, outras pioram, mas quase nada muda. O desgaste vai-se sentido cada vez mais. Temos férias que vamos gozando mas também se pagam caro, e se não for caro é a crédito, o que é ainda mais caro.

Os miúdos são graúdos, já saíram da Universidade que custou os olhos da cara. Custou os da cara porque conseguiram entrar na pública, se fosse na privada custariam outros mais.

Estão com 30 anos e não desamparam a loja. São formados e orgulham-se de ser de uma geração das mais instruídas, mas isso de pouco vale porque a instrução não lhe deu emprego e os pais, pouco instruídos, são quem os continua a sustentar porque embora velhos ainda vão conseguindo manter o trabalho que tinham. Mesmo quando os filhos arranjam trabalho continuam a ser um peso para os pais, porque querem comprar casa e dava jeito uma ajudinha. As poucas poupanças que se foram amealhando acabam aplicadas no futuro daqueles que pode ser que ainda o tenham.

Mas não faz mal, daqui a dois anos chega a reforma, e embora não seja muita finalmente vamos poder ter um bocadinho de tempo para nós e descansar, ler uns livros, brincar com os netos e fazer aquilo que durante décadas não foi possível fazer, porque estávamos naquela correria louca. VIVA A REFORMA!

Só que, entretanto morremos. Sim, morremos porque a reforma aqui é aos 66 anos e 6 meses, e com uma vida de stress, de luta para saber como pagar as contas, num país em que quase tudo é complicado, a corda teria que rebentar, e aos 66 anos o lado mais frágil da corda é aquele que nos prende à vida. Isto, meus amigos, é a morte laboralmente assistida. É fazer-nos trabalhar cada vez até mais tarde porque desta forma morremos antes de conseguir sequer gozar um mês de reforma.

Pensem em exemplos próximos e com consciência. Quantas pessoas conheceram que morreram enquanto ainda trabalhavam ou que morreram logo após se reformarem?

Alguns vão romantizar dizendo que morreu logo após deixar de trabalhar porque era o trabalho que lhe dava alento... Até concordo, se for um artista plástico, um actor ou um músico. Mas eu, que sou menos romântico nesse sentido, digo-vos que até estes artistas mencionados, só trabalham até onde podem, porque nem à reforma têm direito, ou quando têm é também miserável.

A morte laboralmente assistida existe. Não está consagrada em nenhuma constituição nem foi votada no parlamento, mas é uma espada sobre a nossa cabeça e não lhe podemos fugir.

Sempre ouvi que quando chegar a altura não vou ter reforma. Quando era miúdo pensava ser treta e agora tenho a certeza que não o é porque, na verdade quando eu chegar à idade da reforma a reforma é que já não me vai ter a mim, porque provavelmente já estiquei o pernil.

21
Out21

Post das lamentações


Pacotinhos de Noção

delinquencia_juvenil_tipos_causas_e_consequencias_

Ontem foi morto um tipo na estação do metro das Laranjeiras.

Não foi um jovem, não foi um menor, não foi um estudante, conforme se foi noticiando.

Não foi um crime passional, não foi um crime racial, não foi um assalto, como também já vi algumas pessoas a especularem.

Aquilo que já se vai sabendo é que o rapaz que foi morto, o Rafael, pertencia a um gang. Sim um gang, daqueles que se juntam para roubar, destruir, amedrontar, bater e em último caso matar. Daqueles que combinam encontros na internet para depois fazerem autênticas batalhas campais, acabando por vezes até a causar estragos em propriedade que lhes é alheia, como por exemplo em carros que possam estar estacionados nos sítios para onde foram combinadas as lutas.

Tratando-se de um ajuste de contas entre gangs tenho apenas a lamentar todos os danos colaterais que foram causados a quem nada com isto tem que ver.

Lamento por quem estava na estação e assistiu a esta selvajaria, lamento pelos pais do Rafael que por muito que tenham errado na educação do filho certamente quê nunca desejaram que ele tivesse este fim.

Lamento até por quem viu a sua vida atrasada pelo motivo do metro ter ficado várias horas com a estação fechada.

Lamento também que os agressores ainda não tenham sido apanhados e lamento muito caso algum seja menor de idade, pois dessa forma não terá a punição justa e adequada.

Outro dos lamentos grandes que tenho é que estas situações vão sendo cada vez mais frequentes. Há cerca de um ano mataram, também à facada, um rapaz de 16 anos numa estação de comboios na Amadora. Novamente luta de gangs. A meio de Setembro deste ano mataram um rapaz de 20 anos, no Cais do Sodré, com dois tiros na cabeça... Aqui não há a certeza de que tenha também sido um ajuste de contas entre gangs, mas tudo aponta para que sim.

A violência atinge limites fora do normal e chega a pessoas com idades cuja principal preocupação deveria ser se têm ou não uma nova borbulha, se a Jéssica Vanessa está apaixonada por ele, se consegue passar o nível naquele jogo da PlayStation ou se sempre conseguirá aquele primeiro emprego. Nalguns casos a preocupação deveria ser até se vai conseguir ter nota para entrar no ensino secundário ou não. Alguns destes tipos não deviam sequer andar sozinhos na rua, no entanto andam com facas e revólveres no bolso.

Urge ser dado um passo para tentar mudar algo, porque da forma que está não dá para continuar. É demasiado perigoso.

A minha sugestão vai no sentido de acabar com tretas como as Polícias Municipais, por exemplo, que mais não são do que homens armados, mal preparados e que na sua essência servem apenas para multar carros mal estacionados e servirem de polícias sinaleiros em locais com trabalhos na via, e formar algo como uma polícia musculada de Giro, que circularia pelas ruas e pelos transportes com o fim de evitar estes confrontos e apartando toda e qualquer escaramuça que pudesse surgir.

Alguns vão dizer que seria como dar início a uma guerra, mas tenho uma novidade... A guerra já começou e estamos desarmados, bem no meio dela, e não temos quem nos defenda.

Acho que este deveria ser um dos primeiros passos a dar, para que os lamentos que hoje fiz não sejam repetíveis incessantemente, em maior escala e com vítimas que nada tenham mesmo que ver com estas situações.

 

04
Set21

Escravatura artística


Pacotinhos de Noção

210903_WhatsApp-Image-2021-09-03-at-10.54.02-720x1

Morreu ontem Igor Sampaio.

Não tenho muito que dizer da pessoa porque pura e simplesmente não o conhecia. Sei que uma familiar é seguidora deste espaço e como tal dou-lhe os meus pêsames.

Em relação ao artista tenho a dizer que simpatizava bastante. Era um actor com pergaminhos mas devo dizer que a personagem dele que mais me marcou poderia ser considerada de menor relevo uma vez que fazia parte da sitcom de 1995, "Tudo ao molho e fé em Deus". Poderá ser redutor mas foi um programa que acompanhou a minha pré-adolescência e que segui com alguma atenção. Mas definir como redutor quando nessa sitcom tínhamos Igor Sampaio, Diogo Infante, José Pedro Gomes, Ana Bustorff e Alexandra Lencastre, é apenas má vontade. Pelos vistos na altura apostavam em actores de qualidade, até para uma sitcom.

Mas o assunto que quero abordar é de alguma forma delicado, e é um vespeiro que tenho pensado várias vezes se valerá a pena espicaçar ou não. Isto porque poderá de alguma forma ofender produtoras ou canais de televisão, mas vamos lá e logo vemos se existirão consequências. Afinal de contas este Instagram não é tão visível, ao ponto de me trazer problemas.

Igor Sampaio, Maria João Abreu e Filipe Duarte. Todos eles artistas e todos eles morreram num curtíssimo espaço de tempo, ou com AVC's, aneurismas, ataques de coração. Temos depois Rogério Samora que está a lutar pela vida na cama de um hospital e que também lá foi parar com um problema cardíaco.

Noutra vertente temos Pedro Lima que cometeu suicídio, e uns afirmaram que por dívidas (algo que a esposa já desmentiu) outros dizem que o actor sofreu um esgotamento.

Sei que estou apenas a especular mas gostaria que pensassem sobre o assunto e que alguém responsável pudesse legislar a situação, mas o que é um facto é que outro dos pontos comuns a todas estas pessoas é que estavam a trabalhar horas e horas a fio, com stress constante, com a pressão de terem as cenas gravadas a tempo e horas em autênticas maratonas de filmagens.

Isto não deveria ser regulamentado?

Não deveriam as produtoras, e até os canais de televisão, serem obrigados a respeitar um limite máximo de horas de gravação e um limite mínimo de descanso?

E porque não passariam a transmitir as novelas apenas aos dias de semana, podendo assim ter dois dias extra para edição e montagem e melhor planeamento de gravações? Eu sei que a luta pelas audiências é feroz, mas esgotar os artistas ao máximo, no meu entender, poderá acabar por não compensar. Pelo menos a estes, sobre os quais falo, não compensou.

Há poucos dias ouvi no Maluco Beleza uma conversa entre o João Paulo Sousa e o João Baião. A determina altura, e sem ser em formato de queixume, João Baião afirma que no momento o único dia de folga que tem é ao Domingo e que mesmo ai tem que preparar a semana a seguir... Tudo bem, o João Baião é fonte de energia inesgotável, mas é inesgotável até que acaba, e acaba sem aviso prévio porque a determina altura a mente quer, mas o corpo não aguenta.

Se repararmos com atenção, aquilo que as televisões estão a fazer é o mesmo que algumas empresas, que depois têm os sindicatos à canela. Tentam ter o maior número de produção mas com o menor número de funcionários.

Tanto se fala sobre trabalho escravo e exploração, e depois temos as situações destas figuras, que são públicas, mas que não se queixam porque poderiam estar a extinguir aquele que é o seu ganha-pão.

Todos sabemos que no mundo do espectáculo não há contratos, não há limites e não há respeito. O interesse mais básico de todos não é divertir o público, é inundá-lo de conteúdos, uns atrás dos outros para não dar nem tempo de mudar de canal, para conseguir e manter as audiências e assim conseguirem mais publicidade vendida a preços mais caros.

No meio desta orgia de lucros e valores estão os artistas.

"Ah, mas eles estão apenas a brincar aos teatros e às novelas..."

Esta falta de respeito por quem nos faz chegar a cultura, mesmo que em pacotes de caldo Knorr que são as novelas, já foi visto durante os confinamentos. Não havia trabalho, não havia apoios, não havia futuro enquanto estivessem fechados em casa.

Também isso levou, e leva, ao desespero daqueles que trabalham com cultura. Aqui falo em actores, mas recentemente também se suicidou Tony Lemos, um músico do grupo Santa Maria. Será isto tudo coincidência?

Gostaria de lembrar a quem me lê que não é porque um palhaço faz rir que esse palhaço está sempre contente. Muitas das vezes faz rir e ajuda as pessoas a esquecer os seus problemas mas está desfeito por dentro, ou cansado, ou doente.

Estas mortes todas, ainda por cima com tantos pontos em comum, não podem ser um triste acaso do destino.

Dir-me-ão que o Igor Sampaio tinha 76 anos. Exactamente, tinha 76 anos mas ainda trabalhava, e muito bem se era o que desejava, mas em que condições? E os 76 anos de hoje não são os 76 anos dos tempos dos meus avós, que se chegassem aos 70 já era uma vitória.

Posso estar a ser injusto e na realidade isto tudo ser apenas uma conjugação de tristes factos, mas quem estiver dentro do assunto saberá se o que estou a dizer é real ou uma alarvidade. Caso não se queiram expor poderão dizer-me pelo privado, para me retirar da minha ignorância.

12
Ago21

A morte como auxiliar de memória


Pacotinhos de Noção

Polish_20210812_202119675.jpg

A realidade com a qual vou iniciar este texto será de difícil compreensão para a malta mais nova, mas os da geração de 80 e anteriores perceberão perfeitamente.

Naquela altura existiam apenas 2 canais, o Canal 1 e o Canal 2, e mesmo assim havia a necessidade de mexermos numa antena para conseguir apanhar a frequência com alguma qualidade, e qualidade não era ser ou não em HD, era ter mais ou menos "chuva" no ecrã.

O Canal 1 emitia durante quase todo o dia. Iniciava pelas 8/9 horas e entrava madrugada dentro, por ser um grande maluco, terminado à uma ou duas da manhã.

O Canal 2 iniciava a sua emissão depois do almoço e terminava pela meia-noite.

Existindo tão pouca oferta a verdade é que as coisas acabavam por ser mais organizadas. Havia tempo para noticiários (de tempo normal), concursos, desenhos animados, programas culturais e outros de entretenimento, e existiam também as novelas.

As novelas eram o que mais facilmente atingiam picos de audiência, audiências que eram afinal de pouca importância, pois não havia concorrência. Não existindo produção nacional, e quando existia era de parca qualidade, as novelas que sorvíamos eram as brasileiras da Globo, e devo dizer que ainda bem que o fazíamos, pois eram e ainda hoje são, produções que primam pela qualidade, pela boa direcção de actores e por investimentos que por muito que tentemos não vamos nunca conseguir igualar.

Com a recente produção nacional massiva de novelas a verdade é que as da Globo passaram a ser relegadas para segundo plano, e quando actores que nos acompanharam tantas e tantas vezes desaparecem, acabamos por nem ficar a saber.

Ontem morreu Paulo José, um actor que vivia mais por detrás das câmaras, por ser também director e realizador, e que teve na personagem do "prestamista" Gladstone em Tieta do Agreste, talvez a personagem que em Portugal mais o deu a conhecer. Durante o dia de hoje morreu também um ícone das novelas, cinema e teatro no Brasil, e alguém que durante muitos anos também fomos acompanhando, quer nas novelas, quer também na sua vida pessoal, que se destacava por ter um filho que era a sua fotocópia e um casamento que faria em 2022, 60 anos.

Tarcísio Meira, que tinha uma extensa carreira, ficou para mim conhecido pelos papéis na novela Roda de Fogo, em que interpretava a personagem principal, Renato Villar, que viria a morrer no último episódio vítima de um tumor cerebral, deitado no colo da sua amada numa praia paradisíaca, enquanto apreciava um copo de vinho.

Mais recentemente havia sido visto em duas novelas, em personagens um pouco mais cómicas. Foi João Medeiros, na novela "Um Anjo caiu do Céu" e depois o vampiro Boris, em "O Beijo do Vampiro.

Mas diminuir o actor a estes 3 exemplos é até ofensivo. Participou em mais de 70 novelas e em mais de 20 filmes. Dono de uma presença forte, e de uma estatura imponente dava ideia de que nada o derrubaria... O Covid derrubou.

Estava vacinado mas não foi a vacina que o matou, foi a falta da vacina nos outros que o fez.

Morreu com 85 anos, teve uma vida muito preenchida, provavelmente já pouco mais iria fazer. As palavras que escrevo não são para celebrar a sua vida nem para lamentar a sua morte, são para mostrar que a memória do público é efémera e que só amam o artista e o actor, caso ele apareça.

Que se saiba Tarcísio Meira não morreu na miséria. Uma vida de trabalho no meio artístico brasileiro rende bem mais do que aqui em Portugal, mas a verdade é que o actor estava esquecido do público português e podemos alegar que isto acontece porque ele nem era de cá. Mas e os tantos de cá que também ficam esquecidos?

Falo de um Eládio Clímaco, de um Luís Pereira de Sousa ou de muitos outros tantos que a notícia próxima que teremos, será a da constatação da sua morte.

Aconteceu com Maria José Valério, e acontecerá com Eunice Munoz e Ruy de Carvalho, caso eles deixem que se esqueçam deles.

A classe artística mostrou já a sua fragilidade com os confinamentos e os encerramentos recentes das salas de espectáculos, mas na verdade a maior fragilidade que os poderá afectar é a falta de lembrança e de reconhecimento daqueles a quem eles já tanto deram.

Orlando Costa, Rui Mendes, Luís Vicente, Guilherme Filipe... Estes nomes foram já uma constante no dia-a-dia dos portugueses, mas grande parte de nós terá que procurar no Google para agora saberem quem são.

O mundo evolui, mas os artistas também e algo que os ajuda a melhorar é também a idade. Mas aquilo que reparo é que em Portugal cada vez mais se faz televisão de nojo, em que o velho não pode aparecer. Entre colocar um Carlos Ribeiro a apresentar uma daquelas fantochadas de fim-de-semana, conseguindo assim até dar alguma dinâmica à coisa, preferem colocar um Rúben Rua, cujo talento está ainda por demonstrar e que mais não é do que o aproveitamento do colocar o menino bonito da directora a apresentar qualquer coisinha.

A memória atraiçoa-me nalgumas situações mas nestas não, e lembro-me de nomes que estão hoje afastados dos ecrãs, e outros que até estão nos ecrãs mas que mereceriam outro destaque, como o Júlio Isidro, por exemplo, e que colocariam as programações muitos níveis acima.

Falo de Maria Elisa Domingues, Carlos Cruz, Eládio Clímaco, Vera Roquete, António Sala, Fernanda Freitas, Joaquim Letria, Carlos Ribeiro... São nomes que não acabam mais, uns mais jovens que outros mas todos cheios de qualidade e que não são aproveitados porque são mais velhos, são datados e deitados fora como se de iogurtes fora de prazo se tratassem. Temos a televisão que merecemos, mas não me lixem, temos também a que queremos, e infelizmente queremos com uma qualidade muito mas mesmo muito fraquinha.

26
Jul21

Um abraço ao Nuno


Pacotinhos de Noção

770-25-anos-amnistia-fp-25.jpg

Morreu o Capitão de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho.

Capitão de Abril que se diz, foi um dos mentores da revolução, mas também Capitão de Abril que por ele, se tinham metralhado os fascistas todos no Campo Pequeno. Por ele, o orgulho português de se ter conseguido uma revolução sem sangue, passaria a ser a vergonha de um banho de sangue que teria sido possível evitar, tal como se evitou, aliás.

Este Capitão de Abril lutou para se livrar das amarras de um Governo ditatorial e opressor, um Governo que fazia o povo viver na base do medo.

Já nasci na liberdade. Nasci na década de 80 e nunca soube o que foi viver em ditadura. Sou dos que alegam que conhecem quem nela tenha vivido mas que afirmam nunca terem sentido medo, e dos que teve até um pai vários anos na Guiné, a lutar numa guerra que não era a dele, mas que ainda assim diz que o período em que sentiu mais medo foi de 80 a 87.

O período em que o valoroso Capitão de Abril, o que agora se finou, por não gostar da democracia que a revolução ditou, tentou engendrar um plano para impor a anarquia que imaginou.

Assaltou bancos e carrinhas de valores. Foram roubadas somas que convertidas para a moeda de hoje ascenderiam aos 5 milhões de euros. É obra.

Morreram 17 pessoas em assassinatos à queima-roupa e atentados cobardes. O mais cobarde deles todos aconteceu em 1984, e matou um bebé de 4 meses que dormia no seu berço. Um bebé que ainda não tinha dentes, ainda não tinha sonhos, ainda não tinha ideologias e que ainda não tinha aprendido a dizer nem pai nem mãe. Mas tinha um nome. Era Nuno. O bebé Nuno morreu porque tinha um avô que era, segundo as FP25, um fascista, porque não aceitou juntar-se a uma cooperativa. Preferiu pagar uma renda para alugar umas terras para poder trabalhar para si, em vez de trabalhar para uma cooperativa que tinha ligações as forças comandadas por Otelo. Como retaliação ao fascista rico, que de tão rico morava numa casa onde dormiam todos ao monte, as FP25 colocaram uma bomba na parede que dava para o quarto onde todos dormiam. O bebé teve morte imediata.

Estas forças armadas clandestinas existiram para fazer fortuna própria sob um manto de justiça social. Tudo o que fosse empresário era uma potencial vítima, mas a verdade é que quem mais morreu às mãos de Otelo e companheiros, foram forças de segurança pública e cidadãos anónimos.

Dois GNR, por exemplo, foram mortos como forma de vingança, por terem conseguido evitar um assalto perpetrado por este braço armado.

Atenção que o Otelo chegou a cumprir alguns anos de pena por estes crimes, mas Mário Soares concedeu-lhe uma amnistia, traindo assim a memória de todos a quem as FP25 decidiram tirar a vida.

Morreu o Capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho... Já foi tarde.

06
Mai21

Depois de mortos só alguns são bons


Pacotinhos de Noção

81f1b57e-814b-45d0-a8ed-c62b0f3f6223.jpeg

 

Anteontem morreu o humorista e actor brasileiro Paulo Gustavo.

Por ignorância minha tenho que admitir que desconheço o seu trabalho, mas pesquisando um pouco deu para perceber que era uma estrela no Brasil mas que aqui não tinha grande expressão.

Já tinha visto há uns meses uma notícia que dava conta da doença do artista e nessa notícia era dada a informação de que pouco haveria a fazer. É triste, mas ao que parece seria uma questão de tempo.

Ontem morreu o actor português Cândido Ferreira, vítima de cancro. Não seria um actor que aparecesse muitas vezes nas revistas VIP ou na Caras, mas as suas aparições eram frequentes, quer em filmes quer em novelas e no teatro. Anteontem a actriz Maria João Abreu desmaiou enquanto trabalhava. Sofreu um aneurisma e agora está em coma.

Gostaria que tivessem em atenção que não desprezo nenhum destes artistas nem tão pouco pretendo manchar a imagem de alguém que já faleceu, aquilo que me leva a escrever estas linhas é, mais uma vez, a grande hipocrisia que testemunhei nas redes sociais.

O actor brasileiro Paulo Gustavo, não sendo aqui uma vedeta, logicamente que é alguém cuja "celebração" da morte, os numerosos RIP, e a transcrição de frases que o actor disse, vão obrigatoriamente dar likes... Eu até percebo isso, mas não me lixem! Querem convencer-me que a D.Almerinda, de 65 anos, que mora no Alandroal e que só posta fotos de gatinhos e de flores com abelhas, sabe quem era o Paulo Gustavo? Não saberá mas sabe que toda a gente está a lamentar a morte do artista, e mesmo não o conhecendo, vai lamentar como todos os outros que tem visto lamentar.

Já em relação ao Cândido Ferreira e à Maria João Abreu, pouco ou nada se viu... É que os likes vindos do Brasil, não chegam aos artistas portugueses.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub