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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

29
Jan22

Passo-me com o passado


Pacotinhos de Noção

Nos últimos tempos passou a estar quase generalizada a ideia de que o que conta é o futuro, que quem vive do passado são os antiquários e ser-se saudosista não é visto com bons olhos. Pois, eu sou um enorme saudosista e ter saudades do passado é algo de agridoce, pois se por um lado me conforta o coração por outro entristece-mo, por saber que há coisas que não mais viverei. Tenho, ainda para mais, uma condição, não diagnosticada, mas que é um facto, de que perdi grande parte da memória de toda a minha infância. Não sei se foi de quando parti a cabeça em miúdo, mas o meu passado é quase todo um enorme vazio. Familiares contam-me coisas passadas que, para mim nunca existiram. Curiosamente algumas das memórias que a mente optou por guardar, prendem-se com programas de televisão ou sensações. Talvez seja por isso que do pouco que me lembro, recordo com carinho, mesmo que alguns sejam momentos que não são particularmente espectaculares.

Respeito e agrada-me também o passado porque é ele que nos faz evoluir. Afinal de contas a formação do nosso carácter acontece por tudo aquilo que passámos e não por aquilo que há-de vir a acontecer. Se nos estivermos a moldar, projectando aquilo que pode vir a acontecer podemos nunca chegar a ser nada, pois o futuro é incerto, pode nunca vir a acontecer. Já o passado está lá, firme e forte, com toda a sua história.

Como disse anteriormente o passado causa-me também um sentimento um pouco agridoce, uma certa angústia, porque sei haver coisas que não mais se repetirão, mesmo que eu as tente reproduzir fielmente, e são muitas.

As manhãs de Domingo, em que o meu pai ia para o quintal tratar da horta ou dos animais, em que me chamava para o ir ajudar, coisa que me aborrecia, pois eu queria era ficar a ver os desenhos animados, mas que acabavam por ser preteridos para eu ir varrer o quintal.D

Depois havia o cheiro da madeira a arder, na fogueira que o meu pai habilmente fazia entre dois tijolos para depois se pousar a grelha e assar o frango, frango esse cujo sabor fumado é até hoje inigualável e que sei que por muitos anos que viva nunca mais o vou sentir. O pai que assava o frango já cá não está, as manhãs de Domingo já não são para ver os bonecos, e mesmo que queira fazer um frango daqueles agora já tenho um grelhador e uso carvão... Ah, e não herdei a habilidade do meu pai a acender fogueiras.

Outra das memórias de fim-de-semana era quando a minha mãe pedia que eu e a minha irmã fossemos ao supermercado Polisuper, na Galiza, só para comprar o pão que lá faziam e que vinha quentinho, acabadinho de sair do forno. Íamos a correr para casa só para ainda conseguirmos ter a manteiga a derreter no pão, mas não sei bem o que acontecia que, invariavelmente, o pão já chegava a casa com duas ou três dentadas. Daqueles mistérios que ficarão por resolver. Depois do pão comprado via, quando era possível, ao Sábado as classificações dos pilotos da fórmula 1, e ao Domingo a própria corrida.

Ainda há fórmula 1, mas os carros são diferentes, a publicidade é diferente, os comentários são diferentes e por mais que estes pilotos sejam vedetas nunca irão atingir o patamar de mitos como Ayrton Senna, Alain Prost, Nélson Piquet ou até Mikka Hakkinen. Continuando no mundo das corridas, que curiosamente devo dizer que agora até nem me interessam, recordo-me também com bastante saudade dos Paris-Dakar, que aconteciam nos princípios do ano e que nos aqueciam o Inverno, por vermos os carros a atravessar os desertos escaldantes.

Outras memórias que me ficam são os dias passados na praia, em que nada tinhamos com que nos preocupar, tudo aparecia feito como que por magia dentro de uma arca azul e laranja que depois o meu pai carregava para a praia. Que bem que nos sabia, depois de corridas, mergulhos, buracos, castelos na areia e sermos enterrados até ao pescoço, aquelas sandes de alface com afiambrado, porque naquela altura o fiambre era a preços proibitivos, e as pequenas madalenas da DanCake, que pareciam pequenos barquinhos...

Por falar em comida, outra das memórias doces que tenho são os lanches que a minha mãe nos fazia. Simples, porém deliciosos. Leite com café de cevada e uma boa fatia de pão de Mafra com manteiga. Sabia pela vida e não havia Bollycao que tivesse comparação.

Mas estas são memórias mais infantis. Crescendo e evoluindo fui também guardando outras memórias que me alimentam a alma. Como esquecer o pôr-do-sol cor de laranja que banhava a sala de estar da casa onde morava a namorada, que viria a ser a minha mulher e mãe dos meus filhos.

Era um pôr-do-sol de Verão que nos banhava o rosto e do qual sentíamos aquele calorzinho agradável que só nos toca na face e em volta dos lábios. Almada, aquele deserto na margem Sul, passou para mim a significar o verdadeiro começo da vida, pois esse pôr-do-sol era ali que pertencia.

Da minha filha mais nova ainda não tenho memórias suficientemente distantes das quais possa sentir saudades, mas do meu filho de 4 anos posso dizer que já tenho várias. Uma das mais queridas é de umas férias que fomos fazer a Nerja, uma cidade no litoral de Málaga, onde foi gravada a série "Verão Azul". Foi aliás por causa disso que decidimos lá ir. A verdade é que o meu filho tinha quase 2 anos na altura, mas foi (e é) uma companhia tão prazerosa para os pais, que fez com que essas férias fossem de facto bestiais. Cheguei a andar com ele horas às cavalitas, em abafadas temperaturas de 39º e 40º, e suei as estopinhas, mas foi magnífico e tenho imensas saudades.

Depois há memórias que tenho com os irmãos mais novos, que em parte já ajudei a criar, e que não voltam mais. Olhar para pessoas de 30 anos a quem dei banho e mudei fraldas (sim, naquela altura os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos) faz-me gostar muito mais de tudo o que já vivi e de que me lembro, do que daquilo que por ai há-de vir e que não faço ideia do que seja. Vontades tenho muitas, desejos também, mas não sei se duro até amanhã e por isso só me quero preocupar o estritamente necessário, no que ao futuro diz respeito.

E vocês, são saudosistas, não ligam nenhuma ao passado e anseiam pelo futuro, ou gostam do abraço confortável que as memórias vos trazem? 

02
Nov21

Finaram-se a vergonha e a educação


Pacotinhos de Noção

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Ontem, dia 1 de Novembro, comemorou-se o Dia de Todos os Santos. Hoje, dia 2, será o Dia de Finados, dia em que normalmente se visitam as campas de entes queridos relembrando-os ainda mais do que noutros dias.

Como dia 1 é feriado e dia 2 não, é comum que as pessoas aproveitem o Dia de Todos os Santos para irem ao cemitério. Desde a morte do meu pai que este passou a ser um hábito, se bem que a visita à sua campa é bem mais frequente, pois sendo eu um agnóstico (por vocação e não por vontade própria) o único sítio onde consigo sentir que estou mais perto do meu pai é precisamente perto da cova onde foi deixado. É que fisicamente ele ainda está lá e para quem em nada acredita, não existe a situação de que depois de morta a pessoa está connosco. Para mim coisas como a alma, e a vida depois da morte são fabulações católicas, nas quais gostaria mesmo de acreditar, pois facilitar-me-ia muito a vida, mas não consigo. No entanto espero estar enganado e ter uma excelente surpresa quando o meu tempo acabar.

O cemitério estava cheio de gente que aproveitou este dia para limpar as campas, trocar as flores, rezar ou apenas estar lá, acreditando cada um naquilo em que acredita, seja diferente dos demais ou não, mas tendo todos em comum o respeito pelo momento que ali se vive...

Todos não. Quase todos.

O que vou escrever agora vai fazer com que seja conotado de xenófobo, racista, um pupilo do Ventura (personagem que não me diz nada e que acho que é mesmo apenas uma personagem que se não tiver tempo de antena tenderá a desaparecer) mas não é por receio dessas conotações que o deixarei de fazer.

Como referi o cemitério estava cheio, e não sei porquê as pessoas que se apresentavam em maior número eram ciganos. Mas em larga escala. Se houvesse 200 pessoas no cemitério 160 eram ciganas.

As mulheres estavam vestidas como se fossem numa qualquer saída nocturna e os homens em amena cavaqueira como se fosse um churrasco de Domingo.

A cada esquina do cemitério encontravam-se também ciganas carpideiras mais velhas que faziam o espectáculo habitual das carpideiras. Espectáculo que assim rapidamente como começava, também rapidamente terminava.

Até aqui tudo bem, tudo o que referi não me incomodava, eram apenas análises de situações e atitudes com as quais posso até nem me identificar mas que não me importunam, e por isso nem as devia sequer referir. Mas é agora que a situação muda.

Aos poucos o cemitério mais parecia um parque infantil, pois os miúdos ciganos decidiram que aquele seria o sítio indicado para brincarem.

A partir de determinada altura saltavam por cima das campas, corriam derrubando vasos, iam contra pessoas que estavam ali para repousar um pouco com quem desfruta do repouso eterno.

Os mortos, caso conseguissem, agarravam nas suas coisinhas e iam penar para outra freguesia, já que para chatear estavam ali aqueles putos charilas.

Mais chocante ainda foi ver os adultos a instruírem as crianças para irem incomodar as pessoas introspectivas com o famigerado "Pão por Deus", exigindo-lhes dinheiro.

Já é uma chatice quando vêm bater à porta. Situação que não gosto mas que ainda se tolera. Agora, fazer isto no cemitério e numa altura em que há ali pessoas que estão sensíveis.

Para piorar ainda mais destratavam quem não lhes dava nada, ou se as moedas fossem de valor inferior a 0,50€.

Entretanto os grupos de homens, com tanta conversa e tanta alegria, já se começavam a desentender e a falar alto uns com os outros e com cara de poucos amigos. Dava para perceber claramente que aquilo mais tarde ou mais cedo ia descambar, e como gosto pouco de confusões decidi "dar corda aos sapatinhos".

Na entrada do cemitério há uma casa que é o florista. Florista esse que já deitava as mãos à cabeça, porque os miúdos que não estavam a pedir "Pão por Deus" ou a saltar em cima das campas, lembraram-se que queriam flores para colocar nas campas dos familiares, mas pagar não estava nos seus planos e então tentavam roubar as flores ao homem.

Corajoso florista, devo dizer, pois até ameaçou dar uma palmada a uma das crianças, sujeito depois a levar um ensaio de porrada.

Agora gostaria de indagar o seguinte. Haverá aqui uma única alma que me consiga dizer que este tipo de comportamento é aceitável ou tem justificativa? Vão usar o argumento de que é a cultura "deles"?

O problema está neste "deles". É que embora tenham uma etnia, eles não são "eles". Eles são parte de nós e deveriam ter que se comportar como nós. O cartão de cidadão português que possuem não tem mais ou menos valor que o meu e a educação, essa então, é um valor que não olha a credos, raças ou etnias.

Em relação à cultura.

Touros de morte em Barrancos também é cultura. É para continuar? Se uma cultura é para manter porque é que a outra não? Porque numa se faz sofrer o animal? Tudo bem, dou de barato que este exemplo não seja bem escolhido, mas então e o casamento de miúdos de 14 e 15 anos? É cultura ou pedofilia? Os casamentos são arranjados, logo é como se fosse um negócio.

Um homem bater numa mulher é crime público, e muito bem, mas neles não. Neles é a cultura que assim o permite. Permite bater e fazer da mulher um boneco sem vontades nem votos na matéria. Podem até gritar muito alto e parecerem mulheres muito decididas, mas se "o meu homem me mandar dançar o vira, eu danço. O meu homem mandou."

Como vem sendo habitual começo os meus textos com um tema completamente diferente daquele com o qual vou acabar, mas até acho mais dinâmico desta forma porque assim falo de mais assuntos.

Fico agora a aguardar os polícias do politicamente correcto que venham criticar aquilo que escrevi.

Analisando assim de repente não me parece que exista nada que permita fazer interpretações enviesadas, mas isso sou eu que não leio os textos com a lupa da inquisição.

15
Out21

Valor€s mais altos s€ l€vantam


Pacotinhos de Noção

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Com esta moda de falar em alta-voz não rara é a vez em que ouvimos conversas que deveriam ser privadas mas que, não se resguardando o interlocutor, também não serei eu a ter que me mobilizar de forma a não ouvir. Neste caso concreto até nem podia porque foi no meu local de trabalho, e por mais que eu quisesse dali sair, e acreditem que queria, mesmo que não estivesse ninguém a falar ao telefone, não o podia fazer.

Falo nesta conversa porque mais tarde vi também uma notícia que acaba por emparelhar com aquilo que ouvi e que demonstra claramente a falta de afecto e valores que vivemos.

Uma tipa na casa dos seus 50, relatava a alguém pelo telefone, e de forma divertida, quão a sua mãe já estava demente, pois foi ao lar e ela já nem a reconhece. Comentou como a mãe não se lembrava que ela esteve lá ontem, que a outra filha agora morava Espanha e que nem fazia ideia de que ia mudar de centro de dia.

Momentos divertidos à parte, e aqui a gravidade na voz mudou, o que a estava a preocupar mais era se a mãe conseguiria assinar a procuração que entregaria ao Banco de Portugal, para ela ter acesso às contas bancárias. Era imperativo que conseguisse para conseguir movimentar as contas antes da irmã.

Já com o pai o conseguiu fazer e convinha que com a mãe também o conseguisse porque senão depois só nas partilhas.

Falou também se haveria de vender ou alugar a casa da mãe. A do pai alugou, mas a da sogra vendeu porque não estava em bom estado e não queria perder dinheiro.

Ao ouvir estas palavras não consegui nunca dissociar de que aquela pessoa estava a falar de quem lhe deu a vida, de quem a viu nascer, quem a acompanhou no seu processo evolutivo e quem esteve provavelmente a seu lado nos momentos mais importantes. Tudo bem, posso estar a especular, e a verdade é que os pais desta pessoa falharam redondamente, porque os valores pelos quais ela se rege são apenas os monetários e os do oportunismo e se assim é é porque hão-de ter falhado na educação da filha. Ou então não. Se calhar até nem falharam e não nos podemos esquecer que somos seres individuais e que a partir de determinado momento, mesmo tendo por base uma boa, ou má, educação, somos nós que escolhemos o caminho que queremos percorrer. O final desse caminho ninguém conhece, mas a forma como o fazemos cabe a cada um de nós decidir. Claro que há sempre aqueles que escolhem o caminho mais complicado ou tortuoso e culpam os seus ancestrais, os seus descendentes, os seus iguais e os seus diferentes, nunca admitindo que o único grande culpado é apenas ele mesmo.

Ouvindo as palavras daquela filha vinha a mim a imagem daqueles filmes de cowboys em que um tipo está abandonado no meio do deserto e os abutres ficam ali, sempre a rondar o indivíduo, à espera que se torne a carniça que tanto anseiam por devorar.

Neste caso estou a falar de filhos que enterram os pais ainda vivos para assim usufruírem daquilo que eles lhes deixarão, caso contrário ser-lhes-á arrancado. E pais que não honram o compromisso de amor que deveriam ter feito com os filhos e que acabam por mostrar que às quatro letras da palavra amor se sobrepõem as cinco que compõem "guito" e "pilim".

Este assunto é controverso mas não é por isso que não lhe toco...

Vi hoje nas notícias que o ex-dux João Gouveia foi absolvido de pagar uma indemnização aos pais das vítimas da praia do Meco. 225 mil euros a cada um. Os pais vão recorrer desta decisão.

Não duvido, nem quero sequer imaginar o sofrimento daqueles pais por terem perdido os filhos, e também aqui, numa tentativa de justificarem o fim da vida daqueles que amavam, tentam imputar a culpa a todo e qualquer um, menos àqueles que foram os maiores culpados e que pagaram o maior preço que se pode pagar e que são os próprios filhos. Mas dizer a um pai que a culpa da morte do filho é do próprio filho é cruel.

Mas e quanto vale a vida e a memória de quem amamos? Quanto dinheiro é necessário para amenizar a dor de um pai que não mais abraçará um filho, tapar o buraco que fica no peito e que sangra sem parar? E que pai é esse, que em lugar de lutar para conseguir que seja preso aquele que considera ser o responsável pela morte da sua cria, ou para conseguir fazer com que sejam proibidas as praxes, luta antes para conseguir uma quantia em dinheiro?

Haverá quem argumente que o dinheiro não é compensatório mas que servirá para punir o responsável. Isto são opiniões e a minha está bem explícita acima. Os responsáveis pagaram com a vida e a eles o dinheiro não lhes trará qualquer tipo de benefício ou prejuízo.

Sendo frio e arriscando-me a ser apelidado de besta, só consigo pensar nos tais abutres dos filmes de cowboys. Se no primeiro caso era a filha a querer beneficiar de uma morte anunciada e mais que esperada, aqui temos pais a quererem beneficiar de uma morte inesperada mas que, passando o período do luto, pensam que algum hão-de conseguir fazer com que lhes entre no bolso. Pelo menos era o que esperavam.

A minha fé na humanidade é nula. Não falo por causa da retirada dos americanos da palestina, ou por causa da fome no Mundo ou na falta de respeito pela natureza. Essas são aquelas causas que ficam bem dizer que se defendem, tal como a sororidade, por exemplo. Estas são causas de lutas perdidas porque não és tu, Zé Manel que lê estas linhas, que vais conseguir mudar o Mundo neste sentido, porque o Mundo não quer mudar. Todas estas causas têm políticas envolvidas e por muito que nos custe, nós para os políticos somos apenas números... Não se iludam com a treta de que o "Estado somos nós". O estado somos nós para pagar e para votar, nada mais. Se queremos que realmente alguma coisa mude comecem por mudar em casa. Amem os vossos filhos e os vossos pais para que eles percebam que têm alguém para quem são importantes. Assim os pais viverão os dias que lhes restam com alguma alegria, no meio desta podridão que é a sociedade, e os filhos, sabendo o que é amor e empatia, poderão aos poucos ir fazendo com que esta podridão seja menos podre. Não vai mudar já na geração a seguir. Isto é como quando nos tornámos bípedes. Não nos levantámos e andámos, levou uma eternidade até endireitar a espinha com orgulho. Um orgulho que cada vez vai sendo mais difícil de manter.

22
Jul21

Decidam-se


Pacotinhos de Noção

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Tem circulado esta imagem, com esta notícia, pelas redes sociais. Na Argentina passará a ser reconhecido o trabalho das mães, que ficam com os seus filhos em casa, e será contabilizado para efeitos de reforma. Este reconhecimento tem a duração de 1 ano, o que a mim me parece escasso, mas 1 ano sempre é melhor que nenhum e quem crítica sou eu, um português que vive inserido num sistema que nem nunca colocou esta hipótese em cima da mesa.

Agora vamos à parte com a qual não concordo.

Esta medida é catalogada como uma vitória feminista e é apenas orientada para as mães. É impressão minha ou vejo aqui uma feminilidade tóxica, de uma sociedade que delega o homem para segundo lugar e que despreza o papel desse mesmo homem como pai e que poderá também querer ter a alternativa de ficar a tomar conta dos seus filhos? Então mas isto dos direitos funciona só para um dos lados?

Não são respeitados os direitos da mulher e é uma vergonha, não são os dos homens e é uma vitória feminista.

Por essa ordem de ideias significa que o magro insultar o gordo, o branco ser racista com o preto e um bronco ofender um homossexual é uma desgraça, mas um gordo insultar um magro, um preto ser racista com um branco e um homossexual ofender um bronco é uma vitória das ideias que, neste caso, os agressores defendem?

Sei que é um exemplo arcaico, mas quero com isto dizer que não pode haver dois pesos e duas medidas. A justiça das acções tem que sofrer de igualitarismo.

Em relação a esta medida devo dizer que não a vejo como uma vitória feminista mas sim uma vitória social. Afinal de contas os primeiros anos de um filho deveriam ser juntos dos pais e não entregues a pessoas, que fazendo o seu melhor, por mais que se esforcem não são pais e que estão a formar crianças que desde cedo se habituam a ser institucionalizados. Dai achar que o acompanhamento de um dos pais, caso quisessem, deveria ser até aos 5 anos de idade.

Voltando à questão do feminismo há mais um ponto que me chama à atenção.

Então uma das principais lutas das mulheres, não foi durante anos e anos não quererem ser encaradas como simples parideiras, que o seu papel não poderia ser apenas o de donas de casa e de mães e que queriam ter o seu lugar no mercado de trabalho... E quando finalmente parece que a coisa se está a compor, afinal uma vitória do feminismo é voltar dois passos atrás, voltando para casa a tomarem conta dos filhos?

11
Mai21

"Podia ter sido eu"


Pacotinhos de Noção

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Há 4 dias morreu uma bebé de 2 anos.

Foi esquecida pela mãe dentro do carro. Entretanto já se gerou uma onda de solidariedade para com a mãe, porque pelos vistos "Podia ter sido eu" ou podia ter sido qualquer pessoa. Analisar este caso faz-nos obrigatoriamente analisar também a situação em que a mãe se colocou.

Posso acreditar que a dor da mãe seja imensa, posso acreditar que foi completamente sem intenção, agora não posso com isso achar, como já vi escrito por ai, que esta senhora não deve pagar pelo seu erro, porque já tem uma punição para a vida toda.

Há um pensamento que não consigo dissociar disto tudo, sendo pai de duas crianças nesta faixa etária. Imagino o sofrimento da bebé ao ver que estava ali sozinha sem a mãe, e não quero sequer imaginar o terror que sentiu quando teve fome, teve sede, sujou a fralda, quando um qualquer carro passou perto dela e buzinou... Pessoas afirmam chorar com pena da mãe, eu tremo e arrepio-me imaginando o sofrimento da filha.

Foi um esquecimento, quem nunca teve?

ESTAMOS A FALAR DE UM BEBÉ, PORRA!

Já vi situações destas relatadas nas redes sociais, em que só faltava arrancar o escalpe do esquecido. A única diferença é que o que se esqueceu foi um cachorro e não um bebé. Estamos neste momento a dar mais valor à vida de um animal do que à de um ser humano!? "Quanto mais conheço as pessoas mais gosto de animais", é isso!?

A teoria é que todos têm um pouco da culpa. A senhora andava com insónias, a senhora é pressionada pela sociedade para ser mãe, mulher e profissional, a culpa é da creche que não avisou quando a criança não apareceu, a culpa é de quem andou na rua e não viu a criança, a culpa é dos homens que não ajudam as mulheres, a culpa é dos patrões que exigem demasiado das mulheres, a culpa é da comunicação social que deu a notícia como se a culpa fosse da mãe. Não me lixem!

Só descobriram que a criança estava esquecida porque esta senhora esgotada, que estava a trabalhar em casa, em frente de um computador, pediu à sua empregada "Maria" para ir buscar os miúdos à escola. Ela não estava na lavoura, ela não estava a apanhar batatas. Todos os trabalhos custam, mas há uns que cansam mais que outros. Se em vez da filha se tivesse esquecido do telemóvel no carro, não daria mais facilmente pela falta dele?

Caríssimos, foi mãe porque quis... E quis 3 vezes. Se não quis então mostra apenas irresponsabilidade. Não se pode apontar o dedo só aos mais desfavorecidos por terem  filhos e não saberem ser pais.

Se em vez de morar na Av. Miguel Bombarda, em Lisboa, esta senhora vivesse num bairro social em qualquer parte do pais, iriam todos dizer que "Podia ter sido eu"?

Se um camionista, que depois de uma viajem França - Portugal, em que passou noites mal dormidas, adormecesse ao volante e atropelasse uma criança, também se iam meter no lugar dele e dizer que "Podia ter sido eu", ou iam dizer que provavelmente ia bêbedo?

A mãe sofre. Não quero nunca sentir este tipo de sofrimento. A culpa está lá toda e ela sente-a bem, agora assim como também pedem para que não se aponte o dedo, também não devem colocar paninhos quentes. A CPCJ vai investigar o caso, porque podem ter-se omitido alguns factos... Ainda nada sabem e ainda nada se disse. Convém lembrar que há mais duas crianças, e que também há um marido destroçado, e que nalgumas das defesas da senhora se deixa implícito que ele é ainda mais culpado que ela. Porque não foi bom marido e não foi bom pai.

Devo referir que estas afirmações são de pessoas que apenas especulam, assim como eu o faço nestas linhas. Nada sabemos acerca destas pessoas, apenas sabemos dos factos que são publicados e o facto maior que é: Uma mãe esqueceu a filha no carro e a criança morreu.

21
Abr21

Memórias que realmente (nos) interessam


Pacotinhos de Noção

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Quando em conversa nos perguntam quais as memórias mais felizes que temos não é raro acontecer começarmos a fazer um esforço para saber quais são? Normalmente tentamos mostrar todo o nosso "potencial" dizendo que foi a viagem à Índia, um mergulho com as baleias, aquele concerto fantástico, ou algo de que só se conseguiram lembrar com algum custo.

Cada um tem as suas memórias, mas se há necessidade de fazer tanto esforço para lembrar, então é porque essa não será a melhor de certeza.

Foi em conversa com a minha mulher que constatei este facto e gostaria que reflectissem, mas não pensassem, e que percebessem qual é aquela memória doce, confortável como uma cama acabadinha de fazer, que vos vem à ideia.

Posso dar exemplos e perceberão que as memórias da minha mulher, e as minhas, para vós não serão nada de especial, mas as nossas boas memórias são boas porque são nossas, não são boas porque vão causar inveja nos outros.

Tocou determinada música dos anos 80 na rádio. Não consigo precisar qual. A minha mulher cantarolou e comentou: "Esta música traz-me óptimas recordações. Era miúda. Ia no carro com os meus pais e o meu irmão. O meu pai, que nunca o ouvi a ser musical, começou a cantar. A alegria da música alastrou e segundos depois todos cantávamos. Tínhamos ido visitar alguém e estávamos no caminho de regresso a casa. Foi um dia perfeito em que tudo correu bem e em que me senti muito confortável e feliz". Como podem ver para nós nada tem de especial, mas a ela marcou-a de tal modo que não se esquece até hoje.

Tenho duas memórias destas.

Na primeira brincava no chão do corredor da minha casa. Era fim de Verão, mas ainda fazia calor e pelas janelas abertas ouviam-se os "gritos” das andorinhas, que ninguém sabe que se chamam de gazeio.

O meu pai chegou do trabalho ainda era dia e trouxe-me uma pequena prenda. Passou por mim no corredor e deu-ma. Não vinha embrulhada, não era espectacular e nem era algo em que eu tivesse alguma vez demonstrado interesse, mas o meu pai achou que me a devia dar. Era um saquinho de soldados verdes de plástico. Duraram-me anos e foram muito brincados. Não era o meu aniversário e o meu pai não tinha por hábito dar-me prendas sem justificação. Naquele dia o gesto soube-me pela vida e recordo com carinho até hoje.

Outra recordação acaba de forma agradável, mas começa de forma dolorosa.

Tinha uns 5 anos. Era um dia normal, ainda de manhã. Aos "pinotes" no sofá da sala desequilibrei-me e mandei uma cabeçada na porta de madeira da janela. Comecei a chorar e a pensar que ainda ia levar nas orelhas por pular no sofá. Mas as mães gostam de surpreender, e em vez de um ralhete surgiram umas festas na cabeça, um beijo no galo e alguns minutos encostados ao colo da mãe. Podia bater com a cabeça todos os dias se o final fosse sempre tão confortável como este.

Estas minhas memórias são minhas. Não as vendo porque para vocês não têm valor e para mim o valor é incalculável.

Que memórias têm vocês que vos aquecem o coração, fazem pena porque não mais se vão repetir e que metem uma viagem à Índia, ou um jantar com um vosso ídolo, num chinelo?

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