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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

25
Abr22

O sincero significado do 25 de Abril


Pacotinhos de Noção

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Hoje vão multiplicar-se os textos alusivos, e até comemorativos, do 25 de Abril. Estas minhas palavras, acredito, serão um pouco contracorrente, não como intuito de ser diferente, nem tentando menosprezar o feito conseguido em 1974, nada disso.

Sou nascido na década de 80, quase 10 anos passados da revolução, e quando me comecei a entender como gente, e a ter os chamados "2 dedos de testa", a esses 10 anos já se haviam juntado mais uns poucos, o que significa que liberdade foi apenas o que conheci. Não vou entrar no campo de que aquilo em que vivemos hoje não é bem uma liberdade. Isso é outro tema que não quero agora abordar.

Dado que vivi sempre  em liberdade, o que significa GENUINAMENTE, para mim, o 25 de Abril?

Sem rodeios, sem "rodriguinhos" e sem falsos moralismos... É um feriado. Já abordei este assunto relativamente ao 5 de Outubro e o pensamento é exactamente o mesmo. Como tive a felicidade de não ser castrado nas minhas vivências e no bem-estar do meu dia-a-dia, o 25 de Abril é um feriado, comemorativo de algo importante, mas que só ganha maior importância quando calha numa Quinta, numa Sexta, numa Segunda ou numa Terça-feira, que assim há fins de semana prolongados ou até pontes.

Cada um sente as coisas de diferentes formas, e sei que no meu pouco caso pesa o facto de não ser minimamente nacionalista, mas também custa-me a perceber a inflamação quase revolucionária de gente da minha geração, e até muito mais novos, que sentem o 25 de Abril como se tivessem sido eles a lutar nas guerras do Ultramar ou a terem estado encarcerados no Tarrafal. Sim, sei serem pessoas com o coração perto da boca, que sentem tudo muito mais intensamente do que o comum dos mortais, e a isso se deve o facto de padecerem de uma característica cujo nome em inglês não tem uma tradução simpática, e é o de serem umas enormes "attention whores".

O meu filho de 4 anos, por dia, deve repetir a palavra mãe umas 85303253039 vezes. É uma criancinha em crescimento, e em fase de desenvolvimento, é natural que careça de uma atenção mais especial, mas estes marmanjos, embora não sejam de 74, 84, e se calhar até já nem são de 94, mas são adultos, são homenzinhos, só que a necessidade de atenção deles continua em níveis estratosféricos.

Não sei o que mudou em 74. Adoro ouvir podcasts de história, e até sugiro o "E o Resto é História", da Rádio Observador, com o João Miguel Tavares e o historiador Rui Ramos, e foi neste podcast que fiquei mais familiarizado com aquilo que a liberdade trouxe-nos, mas que também não se pode apagar o passado, pois o passado é o que faz a história, com que aprendemos e melhoramos, e que mesmo nos períodos maus houve coisas positivas que puderam ser retiradas.

A título de curiosidade, sabiam que o Estado Novo, que no final era opressor da liberdade, a início foi visto como o salvador de Portugal, visto que libertou o país de anos de instabilidade e insegurança, causados pela Primeira República?

Sabiam também que em 1940 se realizou a maior exposição em Portugal, até à realização da Expo98? Foi a Exposição do Mundo Português e para este evento foi reabilitada toda a zona de Belém que vai desde o Mosteiro dos Jerónimos, até ao Padrão dos Descobrimentos, e o Espelho de Água. Antes a zona era maioritariamente industrial, e o enorme jardim em frente aos Jerónimos e que passa pelos pastéis de Belém, chegando quase ao Palácio de Belém, nem sequer existiam.

Estas são as curiosidades positivas e depois temos as negativas. A mais negativa delas todas é que as guerras do Ultramar vitimizaram mais de 10 000 soldados portugueses. Muita morte por uma luta que nem percebiam o porquê de existir... Se não fosse por mais nada, só por isso o 25 de Abril já teria valido a pena.

Resumindo e concluindo. Sei que não dou o devido valor a este feriado. Não dou e não poderia dar, não sei na realidade o que representa e não fico patriótico por osmose, mas não é por isso que algo mudará, teremos sempre quem tenha nas veias a correr o hino de Portugal e a gritar 25 DE ABRIL SEMPRE.

22
Nov21

Hoje sinto-me um imbecil


Pacotinhos de Noção

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Quem me lê há-de ter reparado que super e hipermercados são microcosmos que frequentemente utilizo para mostrar exemplos da quão ranhosa é esta nossa sociedade. Isto acontece por estas superfícies serem frequentadas por toda a categoria de gente. Mesmo o mais eremita precisa de mantimentos e é lá que se abastecerá.

Hoje desloquei-me a uma loja Minipreço e a cena com que lá me deparei abalou as minhas convicções. Agora, algumas horas passadas, tenho o discernimento para perceber que a unidade não é um todo, mas no imediato da situação não é com essa a sensação com que se fica.

Defendo que Portugal não é um país racista. Tem, como todos os países terão, elementos medíocres que por serem tão barulhentos até podem parecer que são muitos, mas a verdade é que não são. Mas quando atacam, ao atacado dói tanto como se fossem mais, e o que realmente interessa é isso. Vamos então ao relato da situação.

Entrando no supermercado que referi, ouço uma senhora a falar alto com a menina da caixa, que por acaso é brasileira. Não sei qual seria o motivo nem quem ali tinha a razão, mas sei quem rapidamente a perdeu.

O primeiro argumento que me acertou como um murro no estômago foi o bom e velho — "mas você não sabe que o cliente tem sempre razão?" — a resposta foi um educado -"talvez na sua perspectiva, mas na minha não". Como as pessoas que gostam de falar alto não lidam bem com quem lhes responde baixo e com educação, aproveitam logo para mostrar o jogo todo pondo as cartas na mesa, e o trunfo jogado foi lançado todinho de uma vez. Parecia uma avalanche de idiotice, estupidez e trampa que a tal senhora vomitou, e esta porcaria toda, para mim que nem tinha nada que ver com o assunto, em vez de voltar-me a acertar no estômago, acertou-me com toda a força nas trombas deixando-me até sem reacção. Esta senhora, a quem agora faço questão de apelidar de vaca, virou-se para a rapariga e metralhou-a com -"mas quem julga você que é? Vem para o país dos outros a dar ares de quem manda? Vá, mas é para a sua terra"...

O "vá, mas é para a sua terra" tem em mim o mesmo efeito que ver um animal atropelado na estrada. Sabemos que acontece, ocasionalmente vemos um, mas sempre que por ele passo, até sinto um arrepio na espinha.

Agora sei que deveria ter intervindo. Deveria ter chamado à atenção aquele saco de estrume e disponibilizar-me para servir de testemunha à funcionária ofendida. Não o fiz e sinto-me um imbecil por isso. 

Nesta situação não deveria ter tido pudores de ter sido até deselegante com tão desprezível pessoa, mas de facto não tive reacção. Reacção teve a ofendida que se retirou e foi-se fechar no W.C. a chorar. Estou certo que o fez não só pela ofensa mas também por não ter tido quem a defendesse e até por se ter sentido traída por colegas que não tomaram as suas dores, apenas porque ficaram com receio da cliente. Percebo que o nervoso tenha-lhes toldado o discernimento. Se me aconteceu e não era nada comigo, imagino como terá sido difícil para eles engolir esta ofensa. Até porque também eles são brasileiros.

Aquilo que posso apenas dizer é que me sinto envergonhado.

Sinto-me envergonhado por assistir a isto e não ter reagido. Não vou aqui afirmar que "sou isto e aquilo" e "que faço e aconteço", mas hoje podia ter sido só um bocadinho "daquilo" para fazer "acontecer" e o acontecer aqui até podia ter trazido o bónus de ter feito uma "tuguinha" ranhosa sentir-se humilhada por ser chamada à atenção por outro "tuguinha", que foi ranhoso por não intervir. E ser "tuguinha" é isto... É muito provavelmente ter familiares a trabalhar no estrangeiro, é afirmar que já se sofreu de preconceito por um ou outro motivo, é sublinhar que quanto mais conhece as pessoas mais gosta de animais, mas que mal tem a sua oportunidadezinha de espezinhar alguém não hesita e fá-lo com os dois pés, e até com botas da tropa, para saber que calcou bem e sentir orgulho numa nação que trata assim quem nela mora. Mas mais uma vez afirmo, e não me deixo ir ao engano, por assistir a este triste espectáculo não mudo a minha opinião. Não somos um povo racista, mas temos por cá muita porcaria, que curiosamente até por cá nasceu.

17
Nov21

Em Portugal faz-se mais "cock" se pensa


Pacotinhos de Noção

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Trevor Noah, apresentador do "The Daily Show", ousou fazer uma piada com Portugal. Nem sabe bem com quem se veio meter.

Vou citar o jornal "O Público" que escreveu:

"O apresentador do The Daily Show brincou com uma lei laboral portuguesa e insinuou que uma quebra na produção nacional em nada influenciaria o resto do mundo. Mas os utilizadores do Twitter não se ficaram: pastéis de nata, cortiça, vinho e “caralhos” das Caldas foram apenas alguns exemplos."

Neste excerto vemos que o português produz algumas coisas mas aquela que mais produz está explícita mas não referenciada e que é a grande capacidade de produzirem ondas de indignação.

Gerou-se uma grande onda de indignação para com Trevor Noah por ter afirmado que Portugal não produzia nada que fosse de relevo, mas isto mostra a ignorância e falta de informação do apresentador e é por isso que o título tem lá um "cock", que em inglês não é, nada mais, nada menos, do que pila, pila essa que a alguém há-de chamar a atenção e que poderá gerar também uma onda de indignação... Vá, uma onda não vai gerar porque não tenho tanta expansão, mas pode gerar uns tremeliques neste mar de indignados. E é isto mesmo que o nosso país lusitano se habituou a produzir. Chatos, indignados, pessoas que para mais nada servem do que "chagar" a cabeça a coitados como o Trevor Noah, que ignorava esta nossa faceta, e temendo a indignação dos portugueses, para se redimir já veio a público dizer... Nada. Rigorosamente nada, porque por mais que o povo português viva na ilusão de que apita alguma coisa, e goste de fazer barulho, este é um barulho tão pequenininho que do outro lado do oceano ninguém vai ligar.

A força dos portugueses de cancelarem alguém resume-se a alguém que esteja dentro dos limites do nosso quintal e que não tenha as "balls" no sítio para mandar o pessoal mandar uma volta ao bilhar grande.

Acabo quase sempre por voltar ao mesmo, mas estamos transformados num país que é um pãozinho sem sal, ou uma água de salsicha, como dizem os brasileiros (que nestas definições são bem melhores que nós), e que define bem pois a água de salsicha não tempera, não serve de alimento e não é para aproveitar. Está lá apenas para manter a salsicha e para encher a lata.

Este fenómeno não é só nosso. Esta mariquice do pensar 50 vezes antes de falar, não com medo de dizer algo que não deva, mas antes com medo de dizer algo assertivo que possa raspar, mesmo que minimamente, a falsa dignidade de alguém, está a acontecer um pouco pelo Mundo todo, mas quando ao resto do Mundo pouco me ralo, porque é aqui que eu vivo.

Tenho que ser sincero, acho uma certa piada quando alguém lá de fora nos aponta a nossa pequenez. Não porque goste da nossa mediocridade, mas porque acho piada a tantas notícias, quer na televisão, quer nos jornais, com o melhor bolo de chocolate do Mundo, as melhores empresas Unicórnios e aposto até que todos vós já viram coisas como "Estas são as melhores praias do Mundo e Portugal tem duas na lista", mas depois, na prática somos aqueles pequeninos de sempre que nos queremos montar nas cavalitas do Cristiano Ronaldo para mostrar o quão magnífico são os descendentes do Afonso, que no meio de tantas conquistas só nos orgulhamos que tenha batido na mãe, quando aquela característica diferenciadora do CR7, que todos os treinadores lhe apontam, é uma que falta à grande generalidade dos portugueses. O empenho e o foco do jogador na parte chata que é o treino, sendo o primeiro a chegar e o último a sair porque quer treinar sempre mais e mais, não porque goste, mas porque é o seu trabalho e quer continuar a tentar ser o melhor... Ora se aqui na velha Portugália, uma Maria Mijona que tire fotocópias não despeja um caixote de lixo porque não faz parte das suas funções, como é que podemos dizer que Portugal produz Cristianos Ronaldos?

Produz mas é o caraças.

Produzimos a indignação que mostramos quando nos criticam, produzimos barulho quando nos queixamos e produzimos calo no rabo, como os babuínos, por estarmos sempre alapados à espera que as coisas se produzam sozinhas e com qualidade.

15
Mar21

Coitadinhos dos coitadinhos


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Erradamente quase a generalidade dos portugueses têm por hábito dizer que "saudade" é uma palavra que existe apenas no nosso idioma. É um erro compreensível se imaginarmos que quem tenha dito isto da primeira vez o tenha dito figurativamente, no sentido de que o português é um povo tão melancólico e saudosista que nas outras partes do Mundo a saudade não é igual à nossa e, como tal, esta saudade só existe em português. E é isto que me leva ao que quero escrever hoje. Porque o facto de acharmos que sofremos como ninguém reporta-me à palavra "coitadinho", e essa existirá certamente em quase todas as línguas do Mundo, mas aposto que em nenhum deles é tão utilizada como em Portugal. E é usada com tal mestria que o português tornou até possível usá-la em coisas consideradas positivas, senão reparem no cenário. Uma mãe com o seu filhote no parque. O garoto cheio de energia e com cores saudáveis, brinca alegremente. Alguém se aproxima da mãe e tece elogios ao petiz e no fim acaba com um "coitadinho que é tão querido, ou fofinho, ou bonitinho". E se quiserem em vez de uma criança podem colocar um animalzinho de estimação... Dá para tudo.

Depois há o "coitadinho" que é dito de forma ameaçadora. Aquele "coitadinho, tu nem sabes o que te espera" ou o outro "coitadinho" que se refere ao desprezo por algo ou por alguém. "Aquele malandro? Aquilo é um coitado que ali anda..."

O "coitadinho" é muito versátil e isto só é possível num povo que sente tanta pena de si próprio, e é por isso que o coitadinho preferido é mesmo aquele mais simplista, aquele que mostra que quem é coitadinho é mais desgraçado que qualquer um, e este "coitadinho" é quase sempre de uso próprio.

"Coitado do Almiro que foi despedido... Não, não, coitado é de mim, que ele agora vai ficar a receber subsídio e eu vou continuar a trabalhar e é dos meus descontos que sai o subsídio dele."

"Coitada da D.Eugénia, ainda ontem estava viva e agora já se foi... Não senhor, coitado é de mim, que ela já lá vai e não sofre mais e eu ando aqui que não me aguento das costas."

Se bem se lembram no primeiro Big Brother quem saiu vitorioso foi um coitadinho, no futebol os grandes são os bandidos tubarões, mas quando se descobre um clube mais pequeno com coisas menos lícitas, é porque "coitadinhos, são pequeninos, têm que se safar de alguma forma."

O "coitadinho" serve de álibi e de desculpa para um número infindável de coisas. Coisas essas que não vou escrever porque coitadinhos de vocês, que estão a ler, mas mais coitadinho sou eu que já tenho aqui os dedos que não aguento, de tanto escrever.

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