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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

02
Fev22

"Mas a mãe quer quer levar um estalo?"


Pacotinhos de Noção

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Há uns anos existia um anúncio do chimpanzé Gervásio.

O Gervásio conseguia separar o cartão do vidro e do metal e colocar nos respectivos caixotes de reciclagem. "Se o Gervásio consegue, tu também consegues" era o mote da campanha. A minha questão é a seguinte:

Visto que o Gervásio fazia a separação do lixo, o Gervásio passou a ser um chimpanzé educado, ou apenas um chimpanzé treinado?

Penso que não haverá grande contestação ao afirmar que tanto o Gervásio, como qualquer outro animal submetido a um treino, não passou assim a ser educado, e eu gostava de estabelecer um paralelismo entre o treino a que se submetem animais e a suposta educação que damos às nossas crianças.

Esta última frase tem tudo para correr mal e ser alvo de críticas, mas justificar-me-ei.

A primeira crítica é o treino aos animais. Não se amofinem já porque quando me refiro a um treino não falo de circos e coisas do género. Falo, por exemplo, do Piruças que têm em casa, que quando vê a trela já sabe que vai à rua, ou que vos dá a pata quando lhe pedem.

A segunda crítica é afirmar que existe relação entre o treino dos animais e a educação que damos às crianças.

Afirmo isto porque constato que cada vez mais as pessoas não percebem bem o que é a educação.

Educar não é instruir ao máximo uma criança para ela dizer "Olá, "Boa tarde" ou "Boa noite" quando os pais a recordam que o deve fazer. Isto porque se a educação funcionasse desta forma, as crianças manteriam o mesmo comportamento estando com os pais ou não.

De que adianta que o Joãozinho diga perdão, após mandar um valente arroto à mesa, se passado dois ou três minutos o vai fazer de novo porque pensa que ser educado não é evitar dar o arroto, ou controlar-se minimamente, mas sim pedir aquele perdão?

O Salvador e o Martim até tratam a mãe por você, mas podemos considerar serem educados quando dizem -"Mãe, você será estúpida?" ou "Mas a mãe quer quer levar um estalo?"

Este tipo de situações vão-se repetindo cada vez mais e observamos no quotidiano que a geração mais nova tem uma relação bastante afastada com o verdadeiro conceito de educação.

Miúdos barulhentos e mais "mexidos" sempre houve, mas os comportamentos pouco justificáveis, que vejo com regularidade, ultrapassam em larga escala os pequenos excessos normais da juventude e da adolescência.

Desde gritos descontrolados no meio da rua, assustando quem com eles se cruzam, a linguagem chula e ordinária, usada em alto e bom som, curiosamente cada vez mais usada por raparigas, à forma menos própria como se dirigem a alguém mais velho, ou como se comportam dentro de um qualquer estabelecimento comercial, demonstra que educação é algo à qual não tiveram acesso. Tiveram ao longo de algum tempo um treino dado pelos pais, pela escola e até pela sociedade, para poderem fingir que se comportam de forma minimamente aceitável, nalgumas situações específicas, mas é sempre sol de pouca dura e na realidade nem lhes podemos atribuir grande culpa, pois apenas reproduzem aquilo que lhes foi ensinado e etiquetado como educação, mas não é. 

Educação é algo mais e não se treina, ela vem como consequência de todo um ensinamento transmitido, que dará origem à formação de carácter de um indivíduo, e em que fará surgir naturalmente uma maneira de ser e estar a que poderemos então chamar de educação.

Gostaria de dizer que a verdadeira educação mais não é do que o ensinamento e a ajuda ao desenvolvimento da consciência na criança.

Ao desenvolver a consciência, a criança, e posterior adolescente, vão ter as ferramentas adequadas para conseguir perceber que o arrotar à mesa é rude, nojento e que não deve acontecer, que o tratar mal alguém, ainda para mais a mãe, é algo que nos pesará na consciência e que aquela pessoa que nos cria e viu nascer, não deve ser agredida de forma alguma.

A consciência é o que nos faz ter o discernimento entre o bem e o mal, que nos ajuda a agir correctamente.

Ajudar à formação da consciência não é difícil, basta-nos apenas conseguir passar valores positivos aos nossos filhos e não lhes dizermos tudo aquilo que realmente pensamos, porque quando damos a perceber aos nossos garotos o quão pouca esperança temos na população em geral, estamos assim já a demonstrar-lhe que não vale a pena que ele se torne alguém de jeito. E a verdade é que vale, porque vivemos agora uma crise social de valores, mas cabe a que cada um de nós, principalmente aos que têm filhos, moldar um futuro melhor, com mais camaradagem e harmonia social.

A ideia não me parece nada mal, agora implementar isto de forma a que sejam os computadores, os telemóveis, as redes sociais e os tablets a dá-lo a conhecer aos miúdos, para não ter assim que incomodar os pais, que têm também sempre algo mais importante para fazer, nos computadores, nos telemóveis, nas redes sociais e nos tablets, do que estar com os filhos, é que me parece mais difícil.

15
Set21

Livre de dar opinião, se for permitido


Pacotinhos de Noção

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Não gosto de nêsperas nem de nespereiras.

A nêspera é demasiado doce, mas ao mesmo tempo meio borrachona. Já a nespereira teima em dar abundantemente um fruto do qual não gosto, e só para me afrontar ainda os deixa cair quando estão maduros.O que acontece depois é ver as formigas todas atarefadas, atropelando-se umas às outras, famintas pelo pedaço e pelo açúcar, da nêspera de que não gosto, mas que lhes proverá o alimento do Inverno rigoroso.

Está corrida desenfreada das formigas, ilustra perfeitamente aquilo que hoje aconteceu na internet. Por muita volta que se dê, acaba sempre por aparecer a notícia de que o Quintino Aires foi dispensado, de que fez comentários homofóbicos e que devia ser queimado na fogueira.

Tudo bem, esta parte da fogueira inventei, mas pouco falta.

Vou já sublinhar que não suporto o Quintino. Não o conheço pessoalmente, nunca me fez mal algum, mas de todas as vezes que lhe ouvi a voz senti que a minha fraca opinião acerca da psicologia tem um fundamento bastante válido. Bem sei que não é uma ciência exacta mas é um facto que tem bases. Essas bases perdem alguma sustentabilidade porque existem diferentes pontos de vista e várias vertentes, o que a mim me dá a percepção (pode até ser errada) de que ser psicologo mais não é do que debitar as suas opiniões, por mais ridículas que possam ser. O Quintino Aires, para mim, é a prova viva do que acabo de dizer. Ele é pago para dar a sua opinião, e podendo ser ridículo ele aproveita e é.

Podemos ou não concordar com aquilo que disse. Eu, por exemplo, também não acho piada às marchas de orgulho LGBT. Acho que com estas marchas folclóricas, ao invés de estarem a agir com a normalidade que se ser homossexual ou heterossexual deverá ter, estão apenas a querer criar um nicho, mostrando que só eles percebem o que é ser-se ou não LGBT. E estão certos, só eles é que deverão perceber. Eu, que não sou, não tenho interesse nenhum em saber. A minha mentalidade não foi mudada por qualquer marcha que tenha visto ou em que tenha participado, até porque a minha mentalidade não mudou.

Para mim, que sou heterossexual, faz todo o sentido que o homem se junte com uma mulher, mas para mim, que sou heterossexual, também faz todo o sentido que o Joaquim se junte com o Manuel, porque se amam. São dois homens!? Tudo bem, não me faz qualquer espécie, mas isto foi acontecendo no meu âmago, porque sim. Não foi nenhum panfleto, não foi nenhuma marcha, não foi o Brokeback Mountain. Foi o não querer saber, porque realmente não quero. Cada um ama quem quiser, e respeito isso.

No meio disto tudo o que me causa algum repúdio é, mais uma fez, esta política de cancelamento, de amordaçar e quase esventrar publicamente quem tem uma opinião que, ou não é politicamente correcta, ou não respeita a normalidade que as redes sociais instituíram.

Os movimentos LGBT lutam pela sua liberdade, pelos seus direitos mas são os primeiros a tentar acorrentar e a desprezar alguém que pensa e sente diferente.

O Quintino Aires não incitou ao ódio, expressou uma opinião macaca e descabida na óptica da maioria, mas é apenas a sua opinião. Foi pago para isso, sabe que ser polémico gera audiência, barulho e potenciais clientes, mas esqueceu-se que estamos a viver numa época de virgens ofendidas, que querendo usufruir das suas liberdades não querem permitir que os outros também as tenham, porque lhes podem beliscar o orgulho.

Falando em liberdade alguém argumentará que a liberdade de alguém termina quando começa a do outro. Mas e se a liberdade do outro for mais invasiva do que a minha? Quem define o tamanho da liberdade de quem?

Comecei com uma analogia, meio que inserida a martelo, e vou acabar com outra.

Sinto que actualmente voltámos à época das arenas romanas, em que a populaça, para se sentir um bocadinho menos excrementosa daquilo que era, fazia questão de querer que alguém sofresse, quase sempre até à morte. Dava-lhes gozo imaginar que o desfecho se devia àquilo que decidiam, quando de facto esse poder não lhes cabia. Apenas se regozijavam porque existia alguém, naquele momento, para quem conseguiam canalizar as suas frustrações.

Não sou psicólogo, mas também sei inventar.

 

01
Jul21

Publicidade coaching


Pacotinhos de Noção

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Quando era miúdo um dos meus programas preferidos era o "Anúncios de Graça" com o Edson Athayde, e a presença imaginária do seu tio Olavo, e ainda hoje quando há repetições, assisto com gosto. Para o programa eram escolhidos anúncios geralmente engraçados e quase todos premiados, mas na verdade este meu gosto por publicidade é geral. Gosto de anúncios e não sou dos que mudam de canal ou que ficam irritados com os mesmos. Admito que quando a repetição já é demasiada também perco a pachorra, mas quando vejo que é um anúncio novo fico na esperança de que seja alguma coisa de jeito.

Isto não invalida o facto de que, embora gostando de publicidade, não fique ligeiramente irritado com algumas novas formas de comunicação dos anúncios.

A primeira é a forma como me tratam.

Reparem que agora, em quase todos os produtos ou serviços que nos vendam, a tendência é tratarem toda a gente por tu.

Não sou um tipo de classe social elevada, ou um pseudo-beto, que trata o filho Salvador por você, mas quando me tentam vender alguma coisa, seja na televisão ou presencialmente, gostaria que me fizessem sentir um tanto ou quanto especial, e como não me convidam para jantar, nem me oferecem bombons, parece-me que tratar-me com alguma deferência, não me cairia de todo mal, a não ser que julguem que a economia agora mexe toda na base de miúdos de 16 e 17 anos. Sei que o pessoal se habituou a ficar em casa dos pais até aos 40, mas isso não é síndrome de Peter Pan e por isso não devem ser tratados por tu. É necessidade, oportunismo ou só gostar de viver no pescoço dos velhotes enquanto se puder.

Sei que a maior parte do pessoal nem se preocupa com isso de serem tratados por tu, mas não consigo perceber o porque não! A maior parte deste mesmo pessoal, quando faz o cartão multibanco, pede que seja usado o título académico de Dr., mesmo quando não tem o 12º feito. Se está lá o quadradinho para se escolher o Dr. então escolhe-se. Sempre dá estatuto ao pagar as coisas no LIDL.

Mas a nova comunicação publicitária que mais me incomoda, e que geralmente vem também associada com a utilização do TU, é a publicidade coaching.

O que é isto da publicidade coaching.

Neste tipo de publicidade não vendem só um produto ou um serviço. Vendem um modo de vida. Mas não é um modo de vida qualquer, é o modo de vida que eles julgam ser o que queremos para nós. É o modo de vida da foto instantânea, o modo de vida "Instagramico" em que o mar e o céu são mais azuis, a areia é mais branca, o nosso carro não tem capota e a casca de laranja não está na pele, está só naquela rodela do nosso magnífico cocktail. Nesta publicidade dizem-nos coisas profundas como: "Vive a vida", "Dá o primeiro passo", "Quebra barreiras", "Não temas o futuro", "Estar vivo é o contrário de estar morto".

A nossa vida pode estar complicada com confinamentos, lay off, a avó nos cuidados intensivos e toda a gente a parecer-nos irritante, mas se o anúncio da MEO passa na televisão e ouvimos a Inês Castel-Branco a dizer "Humaniza-te", então pronto, ficamos logo todos humanizados porque era mesmo aquilo que precisávamos de ouvir.

A ideia que dá é que nas agências deixaram de trabalhar publicitários, e passaram a contratar só pessoal do coaching. Parece tudo saído dos vídeos do Gustavo Santos e estou sempre à espera de um qualquer anúncio em que me espete um "O amor da tua vida és TU", ou um "A mente chama-se mente porque nos mente".

Enquanto o mundo não melhora com todas estas injecções bombásticas de psicologia publicitária, resta-me recordar anúncios e slogans que não queriam mudar o meu modo de vida, e que até faziam sentido, como um "Onde você estiver, está lá", porque realmente com o telemóvel estou sempre contactável, ou um "Vá para fora, cá dentro" que nesta altura faria todo o sentido.

Enquanto espero essa melhora, não me vou humanizando porque não sou cliente MEO, mas posso sempre pedir que se juntem a mim e aguardem comigo porque "Together we can", que é o slogan da Vodafone.

23
Abr21

Cyborgs das redes sociais


Pacotinhos de Noção

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Há cerca de uma semana, em S.Domingos de Rana, um miúdo de 15 anos (Tomás Braga) foi assassinado por um colega de escola de 18.

O motivo não interessa. Um miúdo morreu, outro, não tão miúdo, matou.

Tirando a CMTV, os restantes canais pouca ou nenhuma relevância deram ao caso. O que morreu era branco, o que matou era preto. Não vi o Mamadou Ba, o Diogo Faro ou a Joacine Katar Moreira a elevar a voz, ou a colocarem posts no Instagram acicatando toda uma multidão contra o preto que matou. Isto porque provavelmente não consideram que tenha sido um crime de racismo. E eu concordo. Aliás, não é este, não é o do Bruno Candé, não é o do George Floyd. O assassino que matou Floyd também mataria um branco, quem matou o Candé também, e o rapaz que matou o Tomás matá-lo-ia tivesse ele a cor que tivesse, porque o que falha aqui não é a cor da pele, são os valores.

O que é que leva um rapaz, com toda uma vida pela frente, a cometer um acto destes?

Simples. Falta de carácter, falta de respeito pelo próximo, falta de sentimentos.

Isto porque andamos a criar seres ciborgues. Não têm um braço ou uma perna robótica mas o cérebro está formatado para "likes" e validações em redes sociais.

Com que fundamentação faço tal afirmação? Analisando este caso concreto.

O rapaz que matou discutiu com o Tomás numa rede social. Os "amigos" disseram-lhe que ele não podia deixar as coisas ficarem assim, que era uma humilhação, que teria que haver sangue e teria que haver facada. Eles filmaram o acto em si porque estavam a transmitir para a rede social. Uma discussão ou uma luta vai dar "likes", vai fazer ganhar seguidores. É para isto que vive a geração mais nova.

Aquele que era um nicho social há uns tempos, que depois formava indivíduos para serem protagonistas de "reality shows", está a deixar de ser um nicho e começa a ser generalizado. Como pai tenho receio. Sei que estou a educar os meus filhos com os valores basilares para saberem viver em sociedade, mas saberá a sociedade de então, viver com eles?

Hoje os comportamentos desviantes ainda são fáceis de identificar, mas será que mais tarde o serão? Ou o comportamento desviante será uma pessoa que demonstra o mínimo de respeito e educação e acabará por ser marginalizado, porque não vive segundo os cânones da sociedade da altura? Ninguém sabe as respostas a estas perguntas e resta-nos aguardar.

Esta febre da malta nova pelas redes sociais deveria ser travada. Tal como a pornografia, o álcool, conduzir e o tabaco, as redes sociais só deveriam ser permitidas depois dos 18 anos, porque ter-lhes acesso enquanto têm o sistema cognitivo em formação, é estar a transformá-los em seres insensíveis e sem escrúpulos.

Em vez de andarem a proibir desenhos animados como o Dragon Bal, onde existe uma clara diferenciação entre o bem e o mal, ou a fazer caça às bruxas porque nos Simpsons o que faz a voz de determinado boneco não é da raça desse boneco, cujo intuito é apenas o de estimular o sentido de humor, que é uma clara demonstração de inteligência, deveriam analisar os prós e os contras das redes sociais na mente dos jovens e crianças, e então tomar decisões...

"Ah, o meu filho tem 3 anos e sabe mexer muito bem no tablet"...

Tudo bem, mas se calhar ainda usa fraldas e não sabe usar um talher. Prioridades, meus amigos, prioridades, para mais tarde não termos que ir à prisão, visitar o nosso filho ou pior, ao cemitério.

Estou a ser dramático? É natural, a situação é dramática.

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