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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

20
Fev22

A D.Leonor foi despedida


Pacotinhos de Noção

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Imaginem então:

D.Leonor, 65 anos, trabalhou mais de 40 numa fábrica que agora fechou. A idade da reforma é 66 anos e 7 meses. 

Recebe subsídio de desemprego, direito que se lhe assiste tendo em consideração os anos trabalhados.

É obrigada a estar inscrita no IEFP, fazer prova de procura activa de trabalho e frequentar cursos de formação profissional, sob pena de que caso não o faça perde o seu subsídio.

Isto não é ficção, são casos reais que acontecem diariamente e que muitos de nós conhecemos.

Os Institutos de Emprego e Formação Profissional, deveriam ser órgãos de apoio à procura de primeiro emprego, formação adequada e procura de novo emprego, mas não o são.

Os IEFP deste país, funcionam apenas como meios fiscalizadores e até dissuasores, com o intuito de fazer com que se falhe uma qualquer reunião, que a pessoa se recuse a fazer uma formação proposta disparatada, ou que não aceite um trabalho que nada tem que ver com a sua área profissional, e que ainda por cima será extremamente mal pago.

No caso específico da D.Leonor, e de tantos como ela, é desumano que depois de uma longa vida de trabalho, seja-lhe dito que para receber um subsídio, seu por direito, tenha que continuar a procurar trabalho, mesmo que seja em algo completamente diferente daquilo em que sempre trabalhou, ou que tenha que frequentar um curso de Animador Sócio-Cultural, ao invés de fazerem como de fossemos um país de primeiro mundo, tendo em consideração que faltando tão pouco tempo para a D.Leonor atingir a idade da reforma, que, se quiser pode procurar algo, ou então aguardar até ser reformada. Posso dar o exemplo dos Países Baixos, em que sei que isto acontece, até porque a minha sogra viu-se nesta mesma situação.

Já nos tempos idos, do nosso mui amável e saudoso Eng.José Sócrates, se engendrara um plano deste tipo. Era o chamado programa Novas Oportunidades, em que o intuito era exactamente igual ao de agora.

E perguntam-me vocês muito amofinados:

"Então, mas o que o Governo ganha com isto?"

Ganha duplamente. Se a D.Leonor os mandar dar uma grande volta, deixa de estar inscrita no Centro de Emprego, baixando assim os números de desempregados do país, dando s entender que foi criado emprego, e não foi, e ganham também menos um subsídio de desemprego que têm que pagar, porque se a D.Leonor se recusar a fazer a formação proposta, essa é logo a mais rápida consequência.

Formação obrigatória a pessoa acima de 60 anos é violência. Não que as pessoas não tenham capacidade de aprendizagem, mas, porque são pessoas que JÁ PASSARAM UMA VIDA A TRABALHAR.

Imaginem que até há uma proposta de trabalho semelhante à função que a D.Leonor desempenhava, e que precisam dela. Pois muito bem, julgo que sim, que a D.Leonor deve ocupar aquele cargo e trabalhar até à reforma, cuja idade é estupidamente alta, aliás, mas só se a proposta for completamente adequada ao perfil da senhora.

Mas como já disse isto é apenas mais uma forma encapotada de total desprezo e desrespeito pelo cidadão comum, e trabalhador que, na verdade, é aquele que sustenta esta máquina ferrugenta e balofa que é o Estado. 

Pergunto, mas de que estou eu a queixar-me? Neste microcosmos que é a minha página, estatisticamente mais de metade das pessoas votaram PS, por isso não há que reclamar. Eles são uma trampa e cheiram mal, mas fomos "nós" (entre aspas porque nós é muita gente, e eu incluo-me fora disso) que decidimos continuar a comer com eles, servidos numa travessa de porcelana caríssima, porcelana essa paga por nós.

20
Nov21

Morte Laboralmente Assistida


Pacotinhos de Noção

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Recentemente voltou a ser aprovada no parlamento a lei da morte medicamente assistida, vulgarmente conhecida como eutanásia. Gostaria de sublinhar que houve votos contra e votos a favor tanto no PS como no PSD, o que significa que não houve instrumentalização dos deputados e cada um votou com a sua consciência. Deveria ser sempre desta forma, isso sim, é viver em democracia e saber representar quem neles votou.

Mas embora esta introdução possa levar ao engano, não é acerca deste assunto que quero falar. Venho, isso sim, falar acerca da morte laboralmente assistida que, caso não tenham ainda percebido, é um processo em qual todos nós estamos inseridos. É certo que há alguns que lhe conseguiram escapar, mas nem sabiam ao que fugiam.

A morte laboralmente assistida não é algo que aconteça do dia para a noite. Leva anos, leva muita paciência e é um estratagema muito bem montado.

A finalidade é a de poupar recursos ao Estado. Aos olhos de alguns isto poderá ser apenas uma teoria da conspiração, mas sugiro que continuem a ler e no fim logo me dirão se concordam ou não.

O estratagema consiste em colocar as pessoas numa azáfama diária, no percurso casa->trabalho, trabalho->casa. Poderão perder parte da vida em transportes públicos, que de ano para ano se vai prometendo que serão melhores, mas que nunca é aquilo que testemunhamos. Quem quiser fugir a este suplício poderá ir para o trabalho em transporte próprio, mas também sofrerá no trânsito, sofrerá nos valores que terá que pagar de combustível e sofrerá para encontrar estacionamento.

No trabalho estará sobre constante stress. Ou por os prazos serem curtos, ou, porque a empresa está em risco de fechar, ou simplesmente por o patrão ser uma besta e gostar de chatear.

No fim de um dia de trabalho há que passar por uma superfície comercial, para fazer as compras do dia. Mais stress, mais preocupações porque os produtos só aumentam e qualquer dia mais vale comer areia da praia. Temos a ideia de que queremos comprar biológico porque supostamente é mais saudável, mas a ideia vai por água abaixo. Os preços são proibitivos por isso comemos um bocadinho menos saudável. Pode ser que nem faça mal. Podíamos comprar legumes à D.Augusta que até tem uma horta, e mais biológico seria difícil, mas ela deixou de vender para fora quando a câmara a multou porque não tinha licença.

Chegando a casa vemos um monte de contas para pagar. A luz, o gás e a água aumentaram. Os miúdos não param de crescer e precisam de roupa nova. Fomos à Primark, mas o barato sai caro e vestir a roupa lá comprada parece mais que é uma promessa ou é um castigo. Por muito que se procure não se encontra nada de jeito e aquelas cuecas que lá se comprou causam uma micose que até apetece cortar os...

Da escola disseram que as refeições também aumentaram. Já perguntámos se as crianças poderiam levar comida de casa num cestinho, como antigamente, mas disseram que não. Logisticamente é difícil e não é inclusivo para as crianças, que se poderão sentir à parte e com traumas... Mas estou a desviar-me do assunto principal. Os dias, as semanas e os anos vão passando e tudo vai permanecendo sempre igual. Uma ou outra melhora, outras pioram, mas quase nada muda. O desgaste vai-se sentido cada vez mais. Temos férias que vamos gozando mas também se pagam caro, e se não for caro é a crédito, o que é ainda mais caro.

Os miúdos são graúdos, já saíram da Universidade que custou os olhos da cara. Custou os da cara porque conseguiram entrar na pública, se fosse na privada custariam outros mais.

Estão com 30 anos e não desamparam a loja. São formados e orgulham-se de ser de uma geração das mais instruídas, mas isso de pouco vale porque a instrução não lhe deu emprego e os pais, pouco instruídos, são quem os continua a sustentar porque embora velhos ainda vão conseguindo manter o trabalho que tinham. Mesmo quando os filhos arranjam trabalho continuam a ser um peso para os pais, porque querem comprar casa e dava jeito uma ajudinha. As poucas poupanças que se foram amealhando acabam aplicadas no futuro daqueles que pode ser que ainda o tenham.

Mas não faz mal, daqui a dois anos chega a reforma, e embora não seja muita finalmente vamos poder ter um bocadinho de tempo para nós e descansar, ler uns livros, brincar com os netos e fazer aquilo que durante décadas não foi possível fazer, porque estávamos naquela correria louca. VIVA A REFORMA!

Só que, entretanto morremos. Sim, morremos porque a reforma aqui é aos 66 anos e 6 meses, e com uma vida de stress, de luta para saber como pagar as contas, num país em que quase tudo é complicado, a corda teria que rebentar, e aos 66 anos o lado mais frágil da corda é aquele que nos prende à vida. Isto, meus amigos, é a morte laboralmente assistida. É fazer-nos trabalhar cada vez até mais tarde porque desta forma morremos antes de conseguir sequer gozar um mês de reforma.

Pensem em exemplos próximos e com consciência. Quantas pessoas conheceram que morreram enquanto ainda trabalhavam ou que morreram logo após se reformarem?

Alguns vão romantizar dizendo que morreu logo após deixar de trabalhar porque era o trabalho que lhe dava alento... Até concordo, se for um artista plástico, um actor ou um músico. Mas eu, que sou menos romântico nesse sentido, digo-vos que até estes artistas mencionados, só trabalham até onde podem, porque nem à reforma têm direito, ou quando têm é também miserável.

A morte laboralmente assistida existe. Não está consagrada em nenhuma constituição nem foi votada no parlamento, mas é uma espada sobre a nossa cabeça e não lhe podemos fugir.

Sempre ouvi que quando chegar a altura não vou ter reforma. Quando era miúdo pensava ser treta e agora tenho a certeza que não o é porque, na verdade quando eu chegar à idade da reforma a reforma é que já não me vai ter a mim, porque provavelmente já estiquei o pernil.

22
Jul21

Decidam-se


Pacotinhos de Noção

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Tem circulado esta imagem, com esta notícia, pelas redes sociais. Na Argentina passará a ser reconhecido o trabalho das mães, que ficam com os seus filhos em casa, e será contabilizado para efeitos de reforma. Este reconhecimento tem a duração de 1 ano, o que a mim me parece escasso, mas 1 ano sempre é melhor que nenhum e quem crítica sou eu, um português que vive inserido num sistema que nem nunca colocou esta hipótese em cima da mesa.

Agora vamos à parte com a qual não concordo.

Esta medida é catalogada como uma vitória feminista e é apenas orientada para as mães. É impressão minha ou vejo aqui uma feminilidade tóxica, de uma sociedade que delega o homem para segundo lugar e que despreza o papel desse mesmo homem como pai e que poderá também querer ter a alternativa de ficar a tomar conta dos seus filhos? Então mas isto dos direitos funciona só para um dos lados?

Não são respeitados os direitos da mulher e é uma vergonha, não são os dos homens e é uma vitória feminista.

Por essa ordem de ideias significa que o magro insultar o gordo, o branco ser racista com o preto e um bronco ofender um homossexual é uma desgraça, mas um gordo insultar um magro, um preto ser racista com um branco e um homossexual ofender um bronco é uma vitória das ideias que, neste caso, os agressores defendem?

Sei que é um exemplo arcaico, mas quero com isto dizer que não pode haver dois pesos e duas medidas. A justiça das acções tem que sofrer de igualitarismo.

Em relação a esta medida devo dizer que não a vejo como uma vitória feminista mas sim uma vitória social. Afinal de contas os primeiros anos de um filho deveriam ser juntos dos pais e não entregues a pessoas, que fazendo o seu melhor, por mais que se esforcem não são pais e que estão a formar crianças que desde cedo se habituam a ser institucionalizados. Dai achar que o acompanhamento de um dos pais, caso quisessem, deveria ser até aos 5 anos de idade.

Voltando à questão do feminismo há mais um ponto que me chama à atenção.

Então uma das principais lutas das mulheres, não foi durante anos e anos não quererem ser encaradas como simples parideiras, que o seu papel não poderia ser apenas o de donas de casa e de mães e que queriam ter o seu lugar no mercado de trabalho... E quando finalmente parece que a coisa se está a compor, afinal uma vitória do feminismo é voltar dois passos atrás, voltando para casa a tomarem conta dos filhos?

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