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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

08
Jul22

A cair no esquecimento


Pacotinhos de Noção

O dia hoje foi carregadinho de notícias importantes. O Boris Johnson que se demitiu, o NOS ALIVE que está em alta, as temperaturas que sobem no Verão, os incêndios que advém das temperaturas, etc. Como disse, são tudo notícias com a sua importância, mas parece que a guerra na Ucrânia acabou.

Os vários blocos noticiosos, honra lhes seja feita, não abandonaram o assunto. A SIC, principalmente, continua a falar no assunto e a fazer as suas análises, mas o cidadão comum já deitou para trás das costas, já não é um assunto tão "trendy".

Para mim o lado mais negro da guerra são as mortes das crianças. Um adulto que viva na Ucrânia sabe que está num país em conflito e poderá ser uma questão de tempo até lhe rebentar um projectil em cima. Tem essa consciência, não será uma surpresa. Mas e uma criança? Uma criança inocente que sonha, chora, ri, pula, canta e brinca, e quando brinca, num jardim infantil, como ainda hoje os meus filhos fizeram, e muito provavelmente os vossos também, não espera nunca que aquela volta no cavalinho ou aquela subida no balancé, poderá ser a última. É isso mesmo que mostra o pequeno vídeo que aqui coloquei. A senhora que fala não é família, não é amiga, não tem nenhuma ligação com os miúdos, mas dá para notar na sua respiração ofegante e no seu discurso meio atabalhoado, que viu algo que nunca irá esquecer, uma criança de bruços, em cima do baloiço, onde morreu enquanto brincava.

Algo ainda mais assustador é que ao que parece o ataque foi feito por tropas ucranianas, porque a região onde isto aconteceu está já tomada pelos russos e este ataque foi uma contraofensiva conduzida por parte de tropas ucranianas. A Ucrânia não desmentiu o sucedido, apenas afirmou que "apenas ataca alvos militares".

Muito sinceramente é completamente irrelevante quem foram os indivíduos que dispararam aquele "rocket", mas se foram as tropas russas para culpabilizar a Ucrânia, isso é hediondo, mas se foram os ucranianos, numa vã tentativa de recuperar terreno, então isso além de hediondo é de uma falta de honestidade e vergonha inqualificáveis. Quantas vidas, principalmente de crianças, é admissível perder por causa de terra?

Para mim, é fácil falar, pois não sou minimamente nacionalista, de facto irrita-me bastante o slogan "O que é nacional é bom" porque há muita trampa nacional que não chega sequer a mau, quanto mais a bom. Como não beijo a bandeira, não fico doido com a selecção e nem sequer gosto de bacalhau, se me visse numa situação como a dos ucranianos, já teria pedido ao Zelensky que entregasse a chave do país ao doente do Putin. Ia perder o meu orgulho? Provavelmente, mas iria poupar em vidas.

Eu com isto não digo que concordo com a invasão, atenção, aquilo que digo é que a guerra mexe com demasiados interesses para ter um fim à vista. Recordem-se, por exemplo, que Boris Johnson só não saiu antes do cargo que ocupava, porque entretanto passou a ser uma parte bastante activa neste conflito.

Costa coloca a culpa do aumento dos preços na guerra, Macron, embora tremido, ainda conseguiu ganhar mais um vez as eleições, e o mundo do fabrico de armas voltou a sentir os cofres a encher como já há muito não sentia. É uma guerra que interessa a muitos que não acabe tão depressa, e enquanto isso vão morrendo cidadãos comuns, entre eles crianças.

28
Dez21

Eurico Ferro


Pacotinhos de Noção

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Não é um homem bonito, não vos pediu ajuda porque tinha uma qualquer doença rara, não participou num crime de ódio ou racismo nem se sabe se batia ou não na mulher, por isso a sua história não foi partilhada nas redes sociais.

De facto pouco sabemos de Eurico Ferro. Sabemos que já foi bombeiro voluntário e trabalhava agora  como motorista de longo curso. Um trabalho que não se faz por gosto e sim por necessidade. É um trabalho duro, em que se está muitas horas ao volante de um grande camião e em que muitas vezes se sai de casa sem saber bem quando se volta. Eurico não volta mais.

A história de Eurico não tem os ingredientes necessários para ter o brilho e o destaque do Instagram. Como já disse a sua imagem não seria das mais apelativas e por mais que se diga que o interior é que conta não é o interior que nos aumenta as visualizações.

Em jeito de brincadeira, e como consequência das notícias mais recentes, os motoristas passaram a ser culpados de tudo e ainda estou à espera de ler algum tipo de comentário que afirme que a morte de Eurico Ferro é apenas consequência da sua pouca empatia para com os migrantes que lhe tentaram invadir o camião.

Foi o que três migrantes tentaram fazer em França, perto de Calais, com o intuito de atravessarem o Túnel da Mancha, para seguirem rumo ao Reino Unido. O motorista não o permitiu e a consequência foi uma paulada na cabeça que haveria de se complicar, desencadeando um ataque cardíaco fatal, no ex-bombeiro.

O homem morreu e deixou uma família que sustentava. Não vi ainda nenhuma palavra de uma qualquer autoridade governamental e todas as associações e partidos que defendem os migrantes com unhas e dentes, também não vieram dizer de sua justiça.

A luta dos migrantes por uma tentativa de vida melhor é algo que deve ser acompanhado e apoiado, mas não podemos também tapar o sol com a peneira e romantizar a situação, quando sabemos das mortes de pessoas que atravessam o mediterrâneo em cascas de noz, transportando quase sempre crianças.

Não digo que o façam por gosto e não digo que não se justifica que fujam dos seus países. Aquilo que digo é que a tentativa de bem-estar deles não pode levar a que tirem a vida a alguém com a mesma facilidade com que se come uma peça de fruta. Tentavam atravessar o Túnel da Mancha de França para o Reino Unido, não do país que temiam para um que os salvaria, porque salvos já estavam. O problema, que também é real, é que muitos destes migrantes são também apenas homens que querem vir para um país na Europa, de preferência rico, para que assim consigam um emprego onde consigam ganhar mais. No final das contas o objectivo deles é o mesmo que era o de Eurico, mas Eurico, para atingir os seus objectivos, não matou ninguém.

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