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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

09
Mar22

Os fantoches que nos servem


Pacotinhos de Noção

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Sábado à noite e vou com amigos a um restaurante daqueles onde todas as pessoas vão.

Servem almoços e jantares e com tanto movimento obviamente que os funcionários já estão com algumas horas de trabalho nas pernas.

Sento-me e aguardo pelo senhor que nos há de atender. Vejo-o atrapalhado, a andar para a frente e para trás, levando tabuleiros numa mão, garrafas de vinho na outra, e se mais braços tivesse, mais coisas levaria, mas é o trabalho dele. Cada um com o seu, e também ninguém me vai lá ao escritório fazer o trabalho por mim.

Já começo a bufar porque estamos à espera há uns bons 10 minutos. O tipo passa por mim, pede desculpa e diz que vem já ter connosco. Entretanto, vejo-o a ir entregar uma conta, uma salada de frutas e uma mousse.  E EU ALI SENTADO À ESPERA...

Quando finalmente vem ter connosco, devo dizer que a figura mete-me um pouco de impressão. Todo suado e desgrenhado, com ar de quem correu uma maratona, e aspecto visivelmente cansado.

Fazemos o nosso pedido e ficamos à espera novamente. Raio do pessoal do restaurante que parece que não sabe trabalhar mais rápido.

Vinte minutos depois, estou eu e os meus amigos a deglutir os nossos pratos, em amena cavaqueira. O funcionário lá continua, feito barata tonta, de um lado para o outro. Se tem trabalho a mais que diga ao patrão para meter mais pessoal.

Hora de pedir sobremesas, o cafézinho, e algum do pessoal vai pedindo uns calicezinhos disto e daquilo. O raio do empregado tem o desplante de vir dizer que é quase meia-noite, e que tem que fechar o estabelecimento. Mas qual é a pressa do tipo, não aguenta mais uns 15/20 minutos, para acabarmos a nossa conversa e os nossos cálices? Estes tipos não querem fazer nenhum, e depois ainda se queixam não haver trabalho.

Esta introdução é ficcionada, mas é baseada em muitos comentários que já ouvi, atitudes que presenciei e até em pensamentos que ocasionalmente posso ter, mas hoje deu-se-me uma epifania e dei por mim a pensar em como por vezes consigo, ou melhor, conseguimos (não vou arcar com  as culpas todas, sozinho) ser injustos, e pouco compreensivos para quem trabalha.

No exemplo que dei, seria positivo ter em conta os quilómetros que aquele empregado de mesa já poderia ter percorrido, só naquele dia, e que se não tem mais colegas que o ajudem não será por vontade dele. Quando somos servidos a maior parte das vezes esquecemos que aquela pessoa que está atrás do balcão não é parte do balcão e que a sua vida é muito mais para além daquilo.

Uma das coisas que mais me incomoda ouvir nalgumas lojas de comércio local, que são normalmente geridas apenas pelos proprietários, é a pergunta "Vocês estão sempre abertos?" Não passa pela cabeça daquela pessoa que todos têm direito ao descanso físico e até mental, para se refazerem de ter que lidar com idiotas que fazem estas perguntas.

Em negócios maiores até posso tolerar, visto que poderão existir mais funcionários, mas em lojas de rua, e lojas familiares...

O total desrespeito por horários também faz-me eriçar os pêlos da nuca. No outro dia, eram umas 18:30 e observei uma "simpática" senhora, que vendo que dentro de um laboratório Germano de Sousa estava uma funcionária, começou a bater desenfreadamente à porta. Uma porta de vidro laminado, bem limpa, por sinal, que tinha como puxador um magnífico tubo de alumínio, e em letras garrafais, que se viam do outro lado da rua, um horário onde se via, explicitamente, que encerram às 16:30.

A senhora tanto insistiu, e gritava que só queria fazer uma pergunta que a rapariga lá teve que ir à porta. E a senhora de facto fez apenas uma pergunta. Perguntou "Estão fechados?"

A pergunta que agora eu vos deixo, caros compinchas leitores, é se um estalo valente dado na cara desta senhora, poderia ser considerado crime?

Não contente, a senhora que passa neste momento de senhora, a velha chata, lança o seu charme e diz que "já que está aqui, podia ver se estas análises estão prontas?"

A funcionária disse que não podia, ainda levou com a má disposição da velha, e lá voltou para o seu trabalho, que se atrasou uns minutos devido a alguém que julga que um outro alguém, que desempenha uma função de atendimento ao público, não é alguém, mas sim uma coisa, um adereço.

Para certas pessoas quem está atrás de  balcão não tem dores, não tem tristezas, não tem horários nem vontades. É engraçado que numa altura em que tanta gente discute a semana de 4 dias de trabalho, essa tanta gente pense que a semana de trabalho dos outros, deveria ser de 7 dias, e sem pausas sequer para dormir, que de calões está o Mundo cheio.

Segundo essas pessoas, mesmo que subconscientemente, no fundo, os funcionários, são apenas fantoches que estão ali para os servir.

07
Jan22

Serão fracas as forças de segurança?


Pacotinhos de Noção

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Qual a semelhança entre o caso dos GNR, que humilharam e torturaram os imigrantes em Odemira, e o recente caso do Polícia Municipal que foi agredido em Lisboa?

A semelhança é porque ambos aconteceram graças à sensação de impunidade que impera actualmente.

À “posteriori” pode até ser que essa impunidade não se verifique, mas o que trama tudo é o "pode ser".

Não é líquido que quem cometa um crime, ou uma qualquer prevaricação, seja punido. Estes casos servem como prova disso mesmo, mas, numa vertente mais bairrista, posso referir-me aos badalhocos que riscam as paredes, riscos esses a que chamam "tags".

No município onde moro é usual ver funcionários camarários a limpar e a pintar, para fazer desaparecer esses rabiscos feitos por tipos cro-magnons, mas é certinho que passados dois ou três dias está tudo esborratado novamente, porque sabem que nada lhes acontecerá. E nem digo que deviam ser presos, que a prisão é para quem dela realmente precisa, mas pelo menos todas as custas de limpeza urbanística, que fosse necessária como consequência dos seus traços mal elaborados, deveriam ser impostas a quem os fez.

Voltando ao tipo que agrediu o agente da Polícia Municipal.

 É muito curioso que o indivíduo seja já conhecido das forças de segurança. Não foi a primeira vez que pôs em prática esta brincadeira e, ou muito me engano, mas não será a última, e é isto que deveria ser evitado. Esta besta não pode sentir que agredir uma força de segurança é algo que não se pague caro.

Todos nos perguntámos o porquê do polícia não ter reagido de maneira mais física, e eu respondo porquê. Porque não podia.

Se o polícia tivesse tido a feliz ideia de colocar o estupor que o agredia a coxear para o resto da vida, haveriam de aparecer os defensores de toda aquela sociedade marginal, para quem as regras foram feitas para se quebrar, a pedir a caveira do polícia. Estavam várias pessoas a filmar, nenhuma interveio, mas se tivesse sido sacada uma arma e disparado um tiro, mesmo que para o ar, o polícia ia meter-se numa carga de trabalhos, e ser acusado de uso excessivo de força ou de abuso de autoridade.

Isto traz também à discussão a falta de preparação das forças policiais.

Bem sei que uma polícia municipal é um órgão de segurança cuja principal função é a de passarem multas de estacionamento, e peço desculpa esta fraca caracterização, que sendo fraca é real, mas não é por isso que deixa de ser uma autoridade.

Devo também dizer que ambas as situações que envolvem forças de autoridade são consequências das fracas estratégias de recrutamento e até formação dessas forças.

Os GNR humilhadores não podiam nunca ter chegado a ser GNR. Para fazerem da Guarda profissão, significa que falharam os testes de admissão, falharam as entrevistas, falharam os colegas, falharam os superiores hierárquicos e falha todo um Estado, que pagando pouquíssimo às suas forças de segurança, não atrai pessoas com mais capacidades, ficando assim os lugares vagos para aqueles que quando eram miúdos eram os conflituosos, os cábulas, os putos "gangster", a quem diziam que nunca seriam nada na vida, mas que afinal de contas até chegaram à GNR.

Continuam a ser uns nadas, mas aos menos são uns nadas fardados e com capacidade de humilhar os mais fracos.

 

02
Nov21

Finaram-se a vergonha e a educação


Pacotinhos de Noção

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Ontem, dia 1 de Novembro, comemorou-se o Dia de Todos os Santos. Hoje, dia 2, será o Dia de Finados, dia em que normalmente se visitam as campas de entes queridos relembrando-os ainda mais do que noutros dias.

Como dia 1 é feriado e dia 2 não, é comum que as pessoas aproveitem o Dia de Todos os Santos para irem ao cemitério. Desde a morte do meu pai que este passou a ser um hábito, se bem que a visita à sua campa é bem mais frequente, pois sendo eu um agnóstico (por vocação e não por vontade própria) o único sítio onde consigo sentir que estou mais perto do meu pai é precisamente perto da cova onde foi deixado. É que fisicamente ele ainda está lá e para quem em nada acredita, não existe a situação de que depois de morta a pessoa está connosco. Para mim coisas como a alma, e a vida depois da morte são fabulações católicas, nas quais gostaria mesmo de acreditar, pois facilitar-me-ia muito a vida, mas não consigo. No entanto espero estar enganado e ter uma excelente surpresa quando o meu tempo acabar.

O cemitério estava cheio de gente que aproveitou este dia para limpar as campas, trocar as flores, rezar ou apenas estar lá, acreditando cada um naquilo em que acredita, seja diferente dos demais ou não, mas tendo todos em comum o respeito pelo momento que ali se vive...

Todos não. Quase todos.

O que vou escrever agora vai fazer com que seja conotado de xenófobo, racista, um pupilo do Ventura (personagem que não me diz nada e que acho que é mesmo apenas uma personagem que se não tiver tempo de antena tenderá a desaparecer) mas não é por receio dessas conotações que o deixarei de fazer.

Como referi o cemitério estava cheio, e não sei porquê as pessoas que se apresentavam em maior número eram ciganos. Mas em larga escala. Se houvesse 200 pessoas no cemitério 160 eram ciganas.

As mulheres estavam vestidas como se fossem numa qualquer saída nocturna e os homens em amena cavaqueira como se fosse um churrasco de Domingo.

A cada esquina do cemitério encontravam-se também ciganas carpideiras mais velhas que faziam o espectáculo habitual das carpideiras. Espectáculo que assim rapidamente como começava, também rapidamente terminava.

Até aqui tudo bem, tudo o que referi não me incomodava, eram apenas análises de situações e atitudes com as quais posso até nem me identificar mas que não me importunam, e por isso nem as devia sequer referir. Mas é agora que a situação muda.

Aos poucos o cemitério mais parecia um parque infantil, pois os miúdos ciganos decidiram que aquele seria o sítio indicado para brincarem.

A partir de determinada altura saltavam por cima das campas, corriam derrubando vasos, iam contra pessoas que estavam ali para repousar um pouco com quem desfruta do repouso eterno.

Os mortos, caso conseguissem, agarravam nas suas coisinhas e iam penar para outra freguesia, já que para chatear estavam ali aqueles putos charilas.

Mais chocante ainda foi ver os adultos a instruírem as crianças para irem incomodar as pessoas introspectivas com o famigerado "Pão por Deus", exigindo-lhes dinheiro.

Já é uma chatice quando vêm bater à porta. Situação que não gosto mas que ainda se tolera. Agora, fazer isto no cemitério e numa altura em que há ali pessoas que estão sensíveis.

Para piorar ainda mais destratavam quem não lhes dava nada, ou se as moedas fossem de valor inferior a 0,50€.

Entretanto os grupos de homens, com tanta conversa e tanta alegria, já se começavam a desentender e a falar alto uns com os outros e com cara de poucos amigos. Dava para perceber claramente que aquilo mais tarde ou mais cedo ia descambar, e como gosto pouco de confusões decidi "dar corda aos sapatinhos".

Na entrada do cemitério há uma casa que é o florista. Florista esse que já deitava as mãos à cabeça, porque os miúdos que não estavam a pedir "Pão por Deus" ou a saltar em cima das campas, lembraram-se que queriam flores para colocar nas campas dos familiares, mas pagar não estava nos seus planos e então tentavam roubar as flores ao homem.

Corajoso florista, devo dizer, pois até ameaçou dar uma palmada a uma das crianças, sujeito depois a levar um ensaio de porrada.

Agora gostaria de indagar o seguinte. Haverá aqui uma única alma que me consiga dizer que este tipo de comportamento é aceitável ou tem justificativa? Vão usar o argumento de que é a cultura "deles"?

O problema está neste "deles". É que embora tenham uma etnia, eles não são "eles". Eles são parte de nós e deveriam ter que se comportar como nós. O cartão de cidadão português que possuem não tem mais ou menos valor que o meu e a educação, essa então, é um valor que não olha a credos, raças ou etnias.

Em relação à cultura.

Touros de morte em Barrancos também é cultura. É para continuar? Se uma cultura é para manter porque é que a outra não? Porque numa se faz sofrer o animal? Tudo bem, dou de barato que este exemplo não seja bem escolhido, mas então e o casamento de miúdos de 14 e 15 anos? É cultura ou pedofilia? Os casamentos são arranjados, logo é como se fosse um negócio.

Um homem bater numa mulher é crime público, e muito bem, mas neles não. Neles é a cultura que assim o permite. Permite bater e fazer da mulher um boneco sem vontades nem votos na matéria. Podem até gritar muito alto e parecerem mulheres muito decididas, mas se "o meu homem me mandar dançar o vira, eu danço. O meu homem mandou."

Como vem sendo habitual começo os meus textos com um tema completamente diferente daquele com o qual vou acabar, mas até acho mais dinâmico desta forma porque assim falo de mais assuntos.

Fico agora a aguardar os polícias do politicamente correcto que venham criticar aquilo que escrevi.

Analisando assim de repente não me parece que exista nada que permita fazer interpretações enviesadas, mas isso sou eu que não leio os textos com a lupa da inquisição.

30
Ago21

Curriculum Virtuale


Pacotinhos de Noção

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Tive a necessidade de comprar parafusos. Sempre me foi dito que tinha falta de alguns e a altura para tratar do assunto foi esta.

Desloquei-me a uma daquelas superfícies de bricolagem que há AQUI e ali, e na dificuldade de encontrar o material que precisava decidi perguntar a quem sabe... Ou que pelo menos deveria saber... Ou que pelo menos, tendo a informação deveria partilhar sem que fosse preciso arrancar a ferros.

A falta de vontade de atender o cliente é de tal ordem que quem compra quase que se sente na obrigação de não incomodar quem arrasta os pés pelos corredores, envergando um uniforme em que houve alturas que era indicador de que "EU TRABALHO AQUI", mas que agora apenas nos mostra que "PAGAM-ME PARA ESTAR AQUI".

Gostava de ser mosca e ter assistido às entrevistas de emprego destes "calinas" laborais. O currículo nem preciso ler. Sei que são todos pró-activos, "multitasking", com facilidade na resolução de problemas e com uma capacidade de atendimento ao público, acima da média. Trabalham também todos muito bem sob pressão.

Serem utilizadores de Word na óptica do utilizador ainda lá está, mas já de nada serve, só que não se apaga porque sempre são mais umas linhas de texto para ler. São currículos pré-fabricados que se encontram pela internet.

Não sei qual o meu espanto no facto de alguém mentir no currículo. Então mas se já tivemos Ministros e Primeiros-ministros que também o fizeram, porque é que para repor artigos numa prateleira, um tipo não o pode fazer?

Se bem que no meu entender, só se mente nos currículos porque muitas das vezes a entidade patronal está mesmo a pedir que se minta.

Quando ainda estudava, um dos meus primeiros trabalhos foi precisamente um destes de arrumar prateleiras em superfícies comerciais. Não me foi pedido currículo. Tenho em crer que nem tinham ideia se eu sabia ler ou escrever, e um dos funcionários mais antigos explicou-me o porquê dessa situação. Segundo ele, só não colocavam macacos a fazer o serviço simples que nós fazíamos, porque acabava por ficar mais dispendioso ensinar os primatas. Tendo isso em consideração, passou a ser, curiosamente, mais simples e prazeroso desempenhar a minha função, pois estavam a pagar-me para fazer algo que qualquer pessoa com meio dedo de testa conseguiria fazer.

Não tenho nada contra trabalhos que não requeiram "canudo" ou curso superior. Muito pelo contrário, acho que toda a sociedade começa pela sua base e como tal tem que ser valorizada. O chato da questão é que quem compõe essa base não respeita o trabalho que faz, não respeita o dinheiro que lhe pagam, não respeita quem lhe dá o dinheiro a ganhar e não consegue perceber que havendo cada mais ofertas de serviços, se o cliente deixa de ir aquele estabelecimento, o patrão não tem dinheiro a entrar e terá que fazer cortes podendo até esses cortes chegarem ao limite de falências e insolvências, ficando o funcionário, que mostrou tanta má vontade ao ajudar-me na procura de um simples parafuso, a continuar a morar em casa dos pais no alto dos seus 35 anos.

No fundo no fundo, e para resolver questões como esta e parecidas com esta, tem que passar a haver respeito.

Respeito pelo trabalho que se faz, respeito pelo cliente que se atende, respeito pelo lugar que se ocupa e que poderia ser ocupado por outro, quem sabe até 

mais competente.

Só respeito, basta isso... E um currículo bem aldrabado.

 

13
Ago21

Uma questão de nomes e pronomes


Pacotinhos de Noção

egocentrismo-1.jpgA falta de respeito pela sociedade incomoda-me bastante. O cuspir e mandar beatas para o chão, passar sinais vermelhos, meter os pés em cima dos bancos nos meios de transporte ou não dar o lugar aos mais velhos deixa-me sempre a pensar no quão egoísta se pode ser, ao imaginar que a sociedade existe apenas para o usufruto de determinada pessoa. Como acabei de afirmar esta falta de respeito incomoda-me mas a falta de respeito pelo indivíduo embrulha-me o estômago. Fico com vontade de me meter ao barulho e ser estúpido para quem demonstra que é estúpido para com alguém. Fico tão chateado que posso até afirmar que se fosse um Deus seria um bem punitivo e então, com todos os meus poderes, mal uma pessoa tivesse este tipo de falta de respeito passaria a mancar. Se as más atitudes tivessem continuidade então, além de ser coxo, passaria também a ser marreco e ia sempre por ai fora, até se transformar numa Betty Grafstein. Aos poucos das duas uma, ou seríamos todos Betty's ou a coisa acabava por se compor.

Gosto de dar exemplos daquilo de que me queixo para que melhor seja entendido.

Quem anda de transportes, e costuma bebericar um café nos estabelecimentos de estações e terminais de comboios, barcos ou autocarros, de certeza que já se deparou com a personagem que tem mais pressa do que nós.

Ora levanto-me eu da minha caminha atempadamente, para poder passar pelo café e tomar o meu pequeno-almoço ou simplesmente beber uma bica, e eis que surge então uma pessoa cheia de pressa, já com as moedinhas contadas na mão, passa à frente de todos e diz que "é só um cafézinho que tenho pressa". A pressa aqui há-de ser para ir apanhar o seu transporte que, no meu entender e pela atitude demonstrada, deverá ser um carro de bois que só se moverá quando esta personagem colocar o jugo para o puxar. A falta de educação deste imbecil, que em vez de tirar a cabeça da palha mais cedo, tal como eu fiz, deixou-se ficar a dormir (dá para perceber pela cara ramelosa) revolta-me. Desde já aviso a algum dos ramelosos que porventura esteja a ler isto, que se no café alguém não vos deixar passar à frente, a probabilidade dessa pessoa ser eu é muitíssimo... nula. Sou um caguinchas e depois ainda levo alguma tareia.

Outra situação que me dá taquicardia é quando se dirigem a mim, mas sem desligar o telemóvel, ou quando estão a falar comigo mas ao mesmo tempo a escrevem mensagens. Tudo bem, admito que possa não ser a pessoa mais interessante, mas há que ter o mínimo de delicadeza e pelo menos fingir que se está a ouvir, ou então pedir licença e mentir, dizendo que "tenho mesmo que enviar uma mensagem". Só a desculpa já demonstrava que aquela pessoa tem pelo menos um bocadinho de respeito e consideração por mim.

Para finalizar tenho uma situação que já presenciei várias vezes e que se está a tornar muito comum, mostrando o quão arrogante se pode ser, e que colocar um monte de bosta (em sentido figurado, claro) na cabeça de alguém, é coisa que não custa assim tanto.

Imaginem que se chamam Duarte ou Luana. São nomes meramente exemplificativos mas qualquer nome que foneticamente possa ser confundido com outro, serve.

Perguntam-vos o nome e respondem Duarte ou Luana e a pessoa, que poderá ter percebido mal diz "Eduardo!? Joana!?" Podia ser um mero equívoco, mas deixa de o ser quando a partir deste momento não importa mais, porque podem emendar, soletrar, fazer o pino mas para aquela pessoa são o Eduardo ou a Joana. Por mais que insistam em corrigir o máximo que vão conseguir é um "sou muito distraída, mas Duarte/Eduardo, Luana/Joana, é quase igual.

Não não é. Galinha e perua também são quase iguais, mas não são os mesmos e olhando para uma pessoa que não consegue fixar o nome da outra, a confusão que poderá aqui emergir é apenas essa. Se ela é uma galinha ou uma perua.

O nosso nome é o NOSSO nome, por mais comum que possa ser. Joões há muitos no mundo, mas há um João específico que é aquele João, com as suas qualidades, defeitos, feitios e individualidades. Estar a errar no nosso nome, e ainda insistir no erro, é dizer que "esta pessoinha é tão insignificante que nem me esforçarei minimamente para corrigir ou sequer recordar de como se chama. Estas pessoas são as mesmas que tratam os empregados de mesa por "Psst" e que "Obrigado" e "Se faz favor" são como às calças à boca-de-sino, que já se usaram mas que entretanto já nos deixámos disso.

O exemplo dos nomes é o que mais me toca, precisamente porque é o tipo de falta de respeito mais pessoal que pode haver. Ninguém nos está a ofender moralmente, não estão a dizer que alguém é isto ou aquilo nem tampouco a chamar nomes a uma progenitora, mas este tipo de ofensa, e pouco caso para com o outro, demonstra que cada vez mais queremos saber menos das pessoas. Na verdade todos os exemplos que dei demonstram isso mesmo.

Não sou sociólogo mas sou muito "teoriologo", e embora não elabore teorias da conspiração elaboro algumas acerca da sociedade. Situações como a que se viveu no Euro 2020, dos adeptos da Inglaterra que individualizaram a culpa da derrota em 3 jogadores da própria selecção, demonstram que é cada vez mais simples faltar-se ao respeito a uma pessoa só, do que a toda uma comunidade. Isto porque as comunidades são enormes minorias que, cada vez mais, vão tendo sempre associações, membros partidários e individualidades do mundo social que os defendem porque acaba por ficar bem, quando se falta ao respeito a uma pessoa só então estão a faltar ao respeito a uma pessoa que está mesmo SÓ. Reparem que este caso não teve manchetes porque os jogadores foram ofendidos individualmente. O que chamou à atenção foi porque foram vítimas de racismo e a comunidade negra foi toda ofendida. Com uma sociedade a querer cada vez menos saber de cada um de nós, é natural que depois, mesmo que camufladamente, existam pessoas que se comportem como se o outro seja apenas um nada. Ainda por cima muitos deles podem até ter lido livros do Gustavo Santos, que gosta de afirmar que "aquilo que importa é o EU.Todos à volta são nada, o importante é aquilo com que vivo e eu vivo 24 horas com o EU".

Lamento pelo Gustavo Santos, porque se o EU de quem gosta for igual ao ELE que nós vemos, então é uma desgraça, e lamento por todos os que se focam demasiado no EU e que que acabam por ser um eu seco e vazio que mal se dará com um ELES e que dificilmente terá um NÓS.

30
Jul21

Problema da coluna


Pacotinhos de Noção

rudall30-AdobeStock_cover.jpgNão venho perguntar se há por aqui ortopedistas ou neurocirurgiões. Também não venho queixar-me de lombalgias nem de hérnias discais.

Estes problemas da coluna são mais indicados para um otorrino e até para um psicólogo ou até, quem sabe, um psiquiatra.

Quando este problema da coluna ataca tenho várias sensações. O meu canal auditivo estremece, começo a ter palpitações no coração tal é a camadinha de nervos, e começo a pensar em atitudes que conhecidas por pessoas consideradas normais, poderiam ser apelidadas de agressivas e até destemperadas. É aqui que entraria em acção o psicólogo, que me deitaria numa marquesa, me diria para ter calma e ouviria todos os impropérios que tenho a dizer por causa da maldita da coluna... É que já não a aguento, às vezes dá vontade de agarrar numa marreta e esmaga-la bem esmagadinha. Mais ninguém faria nada dela. Alguns argumentarão que esmagar a coluna me iria trazer outros problemas, mas quem sofre do mesmo mal que eu, muito provavelmente também já imaginou cometer um acto tão tresloucado como este.

Às vezes fico dias sem ter contacto com esta chatice, mas mal sinto a maldita da coluna, a calma que senti durante uns dias, depressa desaparece.

É verdade, do psiquiatra não falei.

O psiquiatra não é para mim, é para os atrasados mentais que continuam a não querer usar auscultadores e que me obrigam a "gramar" com o esgoto sonoro que teimam em meter aos altos berros nas suas colunas bacocas que transportam ao pescoço e que até parecem barris, como os que usam os cães São Bernado, nos desenhos animados. A grande diferença é que os cães São Bernardo representam a segurança e a salvação e quem usa estas colunas representa três faltas. Falta de gosto, falta de respeito e falta de educação.

Percebo que o facto de serem um gebos desgraçados, os obrigue a terem que chamar à atenção de qualquer forma, mas porque é que não vão para mimos? Não fazem barulho, o branco e preto fica bem a quase todos e até podiam ir ganhar uns trocos na rua Augusta. Mas vendo bem esta minha sugestão até me sinto envergonhado. É que um mimo é um artista e para se ser artista tem que haver método, talento e trabalho e essas são coisas que alguém, que se dá ao trabalho de incomodar seja quem for, com a música foleira que gosta de fingir que ouve, não sabe o que é, nem nunca saberá.

Poluição sonora também é poluição. Se chateiam o pessoal por causa dos sacos chateiem também estes mentecaptos... Olha, dêem-lhes um pontapé no "saco"!

 

 

03
Jul21

A estrada é uma selva


Pacotinhos de Noção

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Vários ciclistas cortaram hoje a Avenida da Índia, em Lisboa, como forma de protesto e em memória da ciclista grávida, de origem italiana, que morreu atropelada há poucos dias.

Em relação a este caso específico devo apenas dizer que se gerou uma tempestade perfeita. Uma grávida de bicicleta e um tipo de 80 anos que muito provavelmente já não deveria conduzir.

O facto de estar grávida e andar de bicicleta já é só por si perigoso. Eu a andar a pé às vezes já me mando para o chão, se tivesse um ser no ventre não ia tentar a minha sorte. Mas a senhora tentou e não deveria ter morrido por isso. Nem ela nem o bebé.

O senhor alega que não a viu, por causa do sol, e até acredito que possa ser verdade, mas também acredito que não a consiga ter visto porque já não tem os olhos de antigamente, ou porque quando a viu já não teve reflexos para se desviar.

Já na última 2a feira, em Cascais, um senhor, também de 80 anos, atropelou um GNR que procedia ao comando da circulação do trânsito numas obras. Isto levanta um problema que tem sido constantemente ignorado e que são as renovações das cartas de condução em indivíduos de idade mais avançada.

Daquilo que tenho conhecimento as renovações das cartas em indivíduos com mais de 60 anos requerem apenas um atestado médico electrónico e acima dos 70 um certificado de aptidão psicológica, o que considero que é claramente pouco. No meu entender, a partir de determinada idade, quem quisesse a carta renovada deveria ter que prestar prova psicológica mas também teria que fazer novo exame prático de condução. Todos os dias vejo pessoas que não deveriam sequer poder ter uma tesoura nas mãos, mas que, para meu espanto, entram num carro e arrancam... Aos soluços e aos S's, mas arrancam.

Em relação à vigília da Avenida da Índia. Eu até percebo que os ciclistas queiram mais segurança, mas alguns dos argumentos utilizados não fazem muito sentido.

Ouvi coisas como "As estradas não são dos carros", "Os carros têm que andar a 30 na Marginal", "Os acidentes entre automobilistas e ciclistas são propositados, 90% das vezes" e que " Os ciclistas podem andar aos pares, podem andar em grupo e os carros têm que passar 1,5m de distância".

No meio de tudo isto há coisas certas, erradas e absurdas.

Os ciclistas podem andar em grupos desde que andem a pares e uns atrás dos outros. Aquilo que testemunhamos todos os dias é que quando vão em grupo não só não andam a pares, como não param em vermelhos, e ocupam quase sempre toda uma faixa de rodagem por vezes até duas, o que acaba por tornar difícil respeitar a tal distância de 1,5m. Fica mais difícil ainda quando os ciclistas teimam em passar por entre os carros, e nem sempre quando estão parados.

Andar a 30 na Marginal é ridículo. Não é uma via rápida mas é uma estrada que, sim senhora, pertence aos carros. Não é uma ciclovia e não é usada para o lazer. Todos os dias por ali passam pessoas que vão e vêm do trabalho e já basta as filas intermináveis que se apanham. Andar a 30 seria tortura.

Afirmar que os acidentes que acontecem são propositados é um comentário de gente doida a que nem vale a pena dar atenção.

O número de ciclistas aumentou e muito. Os automobilistas têm que ter em consideração que quem anda numa bicicleta acaba por estar exposto e não existe nenhum sistema de segurança que possa proteger alguém que vá neste tipo de veículo e que entre numa luta frente a frente com um carro. Já os ciclistas também têm que ter em consideração a sua vulnerabilidade e tentar prevenir-se e não achar que o facto de andarem de bicicleta lhes dá direitos superiores a todos os outros. O código da estrada vale para todos, andem de carro, moto, bicicleta ou trotinete.

A estrada é uma selva, mas até na selva há uma grande parte de animais que se respeitam uns aos outros.

 

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