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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

29
Jan22

Passo-me com o passado


Pacotinhos de Noção

Nos últimos tempos passou a estar quase generalizada a ideia de que o que conta é o futuro, que quem vive do passado são os antiquários e ser-se saudosista não é visto com bons olhos. Pois, eu sou um enorme saudosista e ter saudades do passado é algo de agridoce, pois se por um lado me conforta o coração por outro entristece-mo, por saber que há coisas que não mais viverei. Tenho, ainda para mais, uma condição, não diagnosticada, mas que é um facto, de que perdi grande parte da memória de toda a minha infância. Não sei se foi de quando parti a cabeça em miúdo, mas o meu passado é quase todo um enorme vazio. Familiares contam-me coisas passadas que, para mim nunca existiram. Curiosamente algumas das memórias que a mente optou por guardar, prendem-se com programas de televisão ou sensações. Talvez seja por isso que do pouco que me lembro, recordo com carinho, mesmo que alguns sejam momentos que não são particularmente espectaculares.

Respeito e agrada-me também o passado porque é ele que nos faz evoluir. Afinal de contas a formação do nosso carácter acontece por tudo aquilo que passámos e não por aquilo que há-de vir a acontecer. Se nos estivermos a moldar, projectando aquilo que pode vir a acontecer podemos nunca chegar a ser nada, pois o futuro é incerto, pode nunca vir a acontecer. Já o passado está lá, firme e forte, com toda a sua história.

Como disse anteriormente o passado causa-me também um sentimento um pouco agridoce, uma certa angústia, porque sei haver coisas que não mais se repetirão, mesmo que eu as tente reproduzir fielmente, e são muitas.

As manhãs de Domingo, em que o meu pai ia para o quintal tratar da horta ou dos animais, em que me chamava para o ir ajudar, coisa que me aborrecia, pois eu queria era ficar a ver os desenhos animados, mas que acabavam por ser preteridos para eu ir varrer o quintal.D

Depois havia o cheiro da madeira a arder, na fogueira que o meu pai habilmente fazia entre dois tijolos para depois se pousar a grelha e assar o frango, frango esse cujo sabor fumado é até hoje inigualável e que sei que por muitos anos que viva nunca mais o vou sentir. O pai que assava o frango já cá não está, as manhãs de Domingo já não são para ver os bonecos, e mesmo que queira fazer um frango daqueles agora já tenho um grelhador e uso carvão... Ah, e não herdei a habilidade do meu pai a acender fogueiras.

Outra das memórias de fim-de-semana era quando a minha mãe pedia que eu e a minha irmã fossemos ao supermercado Polisuper, na Galiza, só para comprar o pão que lá faziam e que vinha quentinho, acabadinho de sair do forno. Íamos a correr para casa só para ainda conseguirmos ter a manteiga a derreter no pão, mas não sei bem o que acontecia que, invariavelmente, o pão já chegava a casa com duas ou três dentadas. Daqueles mistérios que ficarão por resolver. Depois do pão comprado via, quando era possível, ao Sábado as classificações dos pilotos da fórmula 1, e ao Domingo a própria corrida.

Ainda há fórmula 1, mas os carros são diferentes, a publicidade é diferente, os comentários são diferentes e por mais que estes pilotos sejam vedetas nunca irão atingir o patamar de mitos como Ayrton Senna, Alain Prost, Nélson Piquet ou até Mikka Hakkinen. Continuando no mundo das corridas, que curiosamente devo dizer que agora até nem me interessam, recordo-me também com bastante saudade dos Paris-Dakar, que aconteciam nos princípios do ano e que nos aqueciam o Inverno, por vermos os carros a atravessar os desertos escaldantes.

Outras memórias que me ficam são os dias passados na praia, em que nada tinhamos com que nos preocupar, tudo aparecia feito como que por magia dentro de uma arca azul e laranja que depois o meu pai carregava para a praia. Que bem que nos sabia, depois de corridas, mergulhos, buracos, castelos na areia e sermos enterrados até ao pescoço, aquelas sandes de alface com afiambrado, porque naquela altura o fiambre era a preços proibitivos, e as pequenas madalenas da DanCake, que pareciam pequenos barquinhos...

Por falar em comida, outra das memórias doces que tenho são os lanches que a minha mãe nos fazia. Simples, porém deliciosos. Leite com café de cevada e uma boa fatia de pão de Mafra com manteiga. Sabia pela vida e não havia Bollycao que tivesse comparação.

Mas estas são memórias mais infantis. Crescendo e evoluindo fui também guardando outras memórias que me alimentam a alma. Como esquecer o pôr-do-sol cor de laranja que banhava a sala de estar da casa onde morava a namorada, que viria a ser a minha mulher e mãe dos meus filhos.

Era um pôr-do-sol de Verão que nos banhava o rosto e do qual sentíamos aquele calorzinho agradável que só nos toca na face e em volta dos lábios. Almada, aquele deserto na margem Sul, passou para mim a significar o verdadeiro começo da vida, pois esse pôr-do-sol era ali que pertencia.

Da minha filha mais nova ainda não tenho memórias suficientemente distantes das quais possa sentir saudades, mas do meu filho de 4 anos posso dizer que já tenho várias. Uma das mais queridas é de umas férias que fomos fazer a Nerja, uma cidade no litoral de Málaga, onde foi gravada a série "Verão Azul". Foi aliás por causa disso que decidimos lá ir. A verdade é que o meu filho tinha quase 2 anos na altura, mas foi (e é) uma companhia tão prazerosa para os pais, que fez com que essas férias fossem de facto bestiais. Cheguei a andar com ele horas às cavalitas, em abafadas temperaturas de 39º e 40º, e suei as estopinhas, mas foi magnífico e tenho imensas saudades.

Depois há memórias que tenho com os irmãos mais novos, que em parte já ajudei a criar, e que não voltam mais. Olhar para pessoas de 30 anos a quem dei banho e mudei fraldas (sim, naquela altura os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos) faz-me gostar muito mais de tudo o que já vivi e de que me lembro, do que daquilo que por ai há-de vir e que não faço ideia do que seja. Vontades tenho muitas, desejos também, mas não sei se duro até amanhã e por isso só me quero preocupar o estritamente necessário, no que ao futuro diz respeito.

E vocês, são saudosistas, não ligam nenhuma ao passado e anseiam pelo futuro, ou gostam do abraço confortável que as memórias vos trazem? 

21
Abr21

Memórias que realmente (nos) interessam


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Quando em conversa nos perguntam quais as memórias mais felizes que temos não é raro acontecer começarmos a fazer um esforço para saber quais são? Normalmente tentamos mostrar todo o nosso "potencial" dizendo que foi a viagem à Índia, um mergulho com as baleias, aquele concerto fantástico, ou algo de que só se conseguiram lembrar com algum custo.

Cada um tem as suas memórias, mas se há necessidade de fazer tanto esforço para lembrar, então é porque essa não será a melhor de certeza.

Foi em conversa com a minha mulher que constatei este facto e gostaria que reflectissem, mas não pensassem, e que percebessem qual é aquela memória doce, confortável como uma cama acabadinha de fazer, que vos vem à ideia.

Posso dar exemplos e perceberão que as memórias da minha mulher, e as minhas, para vós não serão nada de especial, mas as nossas boas memórias são boas porque são nossas, não são boas porque vão causar inveja nos outros.

Tocou determinada música dos anos 80 na rádio. Não consigo precisar qual. A minha mulher cantarolou e comentou: "Esta música traz-me óptimas recordações. Era miúda. Ia no carro com os meus pais e o meu irmão. O meu pai, que nunca o ouvi a ser musical, começou a cantar. A alegria da música alastrou e segundos depois todos cantávamos. Tínhamos ido visitar alguém e estávamos no caminho de regresso a casa. Foi um dia perfeito em que tudo correu bem e em que me senti muito confortável e feliz". Como podem ver para nós nada tem de especial, mas a ela marcou-a de tal modo que não se esquece até hoje.

Tenho duas memórias destas.

Na primeira brincava no chão do corredor da minha casa. Era fim de Verão, mas ainda fazia calor e pelas janelas abertas ouviam-se os "gritos” das andorinhas, que ninguém sabe que se chamam de gazeio.

O meu pai chegou do trabalho ainda era dia e trouxe-me uma pequena prenda. Passou por mim no corredor e deu-ma. Não vinha embrulhada, não era espectacular e nem era algo em que eu tivesse alguma vez demonstrado interesse, mas o meu pai achou que me a devia dar. Era um saquinho de soldados verdes de plástico. Duraram-me anos e foram muito brincados. Não era o meu aniversário e o meu pai não tinha por hábito dar-me prendas sem justificação. Naquele dia o gesto soube-me pela vida e recordo com carinho até hoje.

Outra recordação acaba de forma agradável, mas começa de forma dolorosa.

Tinha uns 5 anos. Era um dia normal, ainda de manhã. Aos "pinotes" no sofá da sala desequilibrei-me e mandei uma cabeçada na porta de madeira da janela. Comecei a chorar e a pensar que ainda ia levar nas orelhas por pular no sofá. Mas as mães gostam de surpreender, e em vez de um ralhete surgiram umas festas na cabeça, um beijo no galo e alguns minutos encostados ao colo da mãe. Podia bater com a cabeça todos os dias se o final fosse sempre tão confortável como este.

Estas minhas memórias são minhas. Não as vendo porque para vocês não têm valor e para mim o valor é incalculável.

Que memórias têm vocês que vos aquecem o coração, fazem pena porque não mais se vão repetir e que metem uma viagem à Índia, ou um jantar com um vosso ídolo, num chinelo?

15
Mar21

Coitadinhos dos coitadinhos


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Erradamente quase a generalidade dos portugueses têm por hábito dizer que "saudade" é uma palavra que existe apenas no nosso idioma. É um erro compreensível se imaginarmos que quem tenha dito isto da primeira vez o tenha dito figurativamente, no sentido de que o português é um povo tão melancólico e saudosista que nas outras partes do Mundo a saudade não é igual à nossa e, como tal, esta saudade só existe em português. E é isto que me leva ao que quero escrever hoje. Porque o facto de acharmos que sofremos como ninguém reporta-me à palavra "coitadinho", e essa existirá certamente em quase todas as línguas do Mundo, mas aposto que em nenhum deles é tão utilizada como em Portugal. E é usada com tal mestria que o português tornou até possível usá-la em coisas consideradas positivas, senão reparem no cenário. Uma mãe com o seu filhote no parque. O garoto cheio de energia e com cores saudáveis, brinca alegremente. Alguém se aproxima da mãe e tece elogios ao petiz e no fim acaba com um "coitadinho que é tão querido, ou fofinho, ou bonitinho". E se quiserem em vez de uma criança podem colocar um animalzinho de estimação... Dá para tudo.

Depois há o "coitadinho" que é dito de forma ameaçadora. Aquele "coitadinho, tu nem sabes o que te espera" ou o outro "coitadinho" que se refere ao desprezo por algo ou por alguém. "Aquele malandro? Aquilo é um coitado que ali anda..."

O "coitadinho" é muito versátil e isto só é possível num povo que sente tanta pena de si próprio, e é por isso que o coitadinho preferido é mesmo aquele mais simplista, aquele que mostra que quem é coitadinho é mais desgraçado que qualquer um, e este "coitadinho" é quase sempre de uso próprio.

"Coitado do Almiro que foi despedido... Não, não, coitado é de mim, que ele agora vai ficar a receber subsídio e eu vou continuar a trabalhar e é dos meus descontos que sai o subsídio dele."

"Coitada da D.Eugénia, ainda ontem estava viva e agora já se foi... Não senhor, coitado é de mim, que ela já lá vai e não sofre mais e eu ando aqui que não me aguento das costas."

Se bem se lembram no primeiro Big Brother quem saiu vitorioso foi um coitadinho, no futebol os grandes são os bandidos tubarões, mas quando se descobre um clube mais pequeno com coisas menos lícitas, é porque "coitadinhos, são pequeninos, têm que se safar de alguma forma."

O "coitadinho" serve de álibi e de desculpa para um número infindável de coisas. Coisas essas que não vou escrever porque coitadinhos de vocês, que estão a ler, mas mais coitadinho sou eu que já tenho aqui os dedos que não aguento, de tanto escrever.

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