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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

21
Abr22

Prefiro viver de aparências


Pacotinhos de Noção

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Na música de 1986, "Efectivamente", dos GNR, Rui Reininho canta que "Efectivamente gosto de aparências".

Já eu, numa efectividade não tão sublinhada, devo admitir que tenho reparado que nos começa a fazer falta viver um pouco mais de aparências. Passo a explicar...

Estou farto de andar na rua e ver gente suja, porca e feia. A fealdade a que me refiro não é a física, acalmem-se já os puritanos, pois ao lerem as próximas linhas, e se fizerem um pequeno exercício, que nem terá grande uso da memória porque é algo actual, e acabarão por concordar comigo.

Este sentimento vem sendo diário, mas hoje uma situação despoletou alguma raiva e nojo em mim. Enquanto tomava o pequeno-almoço, num café próximo de uma estação ferroviária, apareceram, um senhor da CP, que vende bilhetes e que por acaso também é comercial da REMAX, e duas funcionárias da limpeza dos caminhos de ferro. Logo ao entrar transformaram o estabelecimento numa estrebaria, rindo e falando muito alto, com as suas caras ramelosas e os seus cabelos oleosos, característicos de quem toma banho nos primeiros Domingos de cada mês. Lavar os dentes é coisa que não sabem, e água naquelas trombas só acontece quando apanham um dia de chuva. Colocaram-se ao balcão para depois exigirem a sua bica sem princípio, outra em chávena fria e a terceira tirada em máquina italiana, montada por pigmeus indonésios, numa noite de lua cheia laranja. Sim, porque higienização é coisa de burguês, mas se pagam 0,75 € por um café, ai meus amigos, tenham paciência, mas esse café há de ter todas as características que eles exigirem!

Ora sucede então que, sendo já a aparência destes monumentos à badalhoquice algo de asqueroso, o "senhor" da CP e REMAX, decide todos presentear com um valente arroto, ali ao balcão e, as madames que o acompanhavam, de tão contentes que ficaram com o feito, começaram a gargalhar que nem duas mulas zurrantes. É importante referir que não falamos de garotada. Tudo gente entre 40 e 50 anos, talvez até mais.

Constatei logo ali que o aspecto daquelas pessoas, sendo já tão sujo e desleixado, mesmo assim deixa a desejar quanto à porcaria e à sujidade que lhes passa na cabeça.

Quem no seu perfeito juízo tem este comportamento? Quem, com dois dedos de testa, faz estas badalhoquices quando enverga o uniforme da empresa onde trabalha, mostrando assim que o pessoal contratado não é qualificado, nem socialmente?

E isto leva-me a querer viver de aparências porquê? Porque gente porca e sem noção sempre houve e vai continuar a haver, mas perdeu-se completamente a vergonha, e se dantes, estes mesmos porcos só o eram em casa e entre amigos, agora passaram a sê-lo em qualquer lugar e "quem não gostar que não coma, que ponha na borda do prato". Mas que prato, senhores? Existirá algum sítio que sirva estrume num prato? É que malta desta é igual a estrume. Pelo menos no aspecto, no cheiro e na atitude são-no, muito embora o estrume sirva ainda para fertilização de terras, e esta gente para pouco servirá.

Sou saudosista, por isso gostava do tempo em que as pessoas tinham o mínimo cuidado no vestir, quando a farda comum não era leggings do chinês, e polares cheios de borboto da Decathlon. Quando ainda se esforçavam um bocadinho e que quando não tomavam banho tentavam disfarçar o fedor, nem que fosse com perfume do chinês. Mas agora não, ou cheiram a cavalo, ou a sopa velha.

Gostava que voltássemos àquele passado recente em que alguém que trabalhava num café, fingia limpar o balcão para mostrar estar ocupado. Agora o balcão fica todo sujo, as mesas por levantar e ainda temos que aguardar que a pessoa acabe de responder àquele WhatsApp tão importante.

Saudades do tempo em que quem se atrasava pedia desculpa, com uma desculpa tão má que dava para perceber ser mentira, mas ao menos tentava desculpar-se, era uma questão de respeito. Agora quando alguém se atrasa nem comenta, ou então afirma que "é assim mesmo e que não consegue mudar. Que não é defeito é feitio"!

Quando se vivia com aparências os "Bons dias", "Boas tardes" e "Boas noites" eram respondidos, agora, mesmo que eu repita o cumprimento, há o descaramento de fazerem cara de pau e nem sequer responderem.

Quando vou a uma loja de roupa sei de antemão que não sou bem-vindo pelos funcionários. Afinal de contas, se não receberem à comissão, ganham o mesmo estando ali eu ou não, mas por acaso naquele momento até estou, e não me importava mesmo nada de um bocadinho de cinismo, de fazerem uma aparência de que até lhes importa que ali esteja. Não porque queira ser apaparicado, mas apenas por uma questão de educação e por uma questão de lógica. É que se sou tratado com indiferença, aquele lugar para mim não passa a ser indiferente, passa a ser antes um lugar a evitar, e depois o patrão não ganha dinheirinho para pagar os ordenadozinhos e depois vai tudo para o olhinho da ruazinha, sem perceberem muito bem porquê, porque na óptica deles, "o patrão até tinha dinheiro".

Viver em sociedade é viver de aparências e para o constatar não é preciso ir muito longe. Quem tiver sogras sabe bem do que falo, assim como sabe quem trabalha, quem recorre a serviços, quem vive no dia-a-dia com uma coisa muito importante, mas que vai escasseando... Educação.

08
Nov21

Quem muitos burros toca...


Pacotinhos de Noção

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Hoje, mais do que nunca, todos têm que ter um lema, um modo de vida, uma causa para defender, mostrando o quão activos, conscienciosos e magnânimos conseguem ser.

Alguém, que como eu, defende apenas o "vive e deixa viver, sem me chatearem a cabeça" ou o "agradecia que me largassem da mão" é considerado um bandalho, ainda para mais quando tem redes sociais e não as utiliza para ser como um Jeová da defesa das causas, batendo à porta de todos e cada um, mostrando a podridão que grassa de forma galopante e que serve dois principais objectivos.

O primeiro é o da confirmação de que o Mundo está mesmo podre. Está podre não porque se come carne, se usa plástico ou combustíveis fósseis. Está podre já desde a altura em que plásticos e combustíveis ainda não existiam, e onde a carne ainda se podia comer porque não era produzida, seja de forma sustentável ou não, era apenas caçada. O motivo era, e é, a grande percentagem de humanos que apenas assim são apelidados por pertencerem a essa espécie, e não por o serem na verdadeira acepção da palavra.

O Homem para ser vil, desonesto, infame, sem nobreza de carácter, mesquinho e nojento precisa apenas de ser Homem. Não precisa de mais ferramentas nem motivos. Está-lhe na natureza e corre-lhe nas veias, poder plantar o terror e a discórdia pelos motivos mais fúteis ou mais megalómanos, não interessa. Como se percebe tenho a nossa espécie em óptima conta, a minha falta de fé no Homem é quase generalizada e só não o é totalmente porque sei que no meio de tanto lixo também há pessoas boas. São raras, são como os trevos-de-quatro-folhas que raramente se encontram, mas que existem. Não se confundam, não digo serem perfeitos, digo serem pessoas boas e sim, pessoas boas podem ser imperfeitas. Já pessoas com a mania de que são perfeitas... Essas já é mais complicado que consigam sequer chegar a menos mazinhas, quanto mais a serem boas.

E isto leva-nos ao segundo objectivo da podridão que nos rodeia e que é muito necessária. Pelo menos é-o para os visados deste segundo objectivo.

O que realmente me levou a escrever estas linhas foi uma saturação da minha paciência relativa a estas individualidades que são cheias de causas.

Por que razão o fazem, por que razão existem, por que razão têm tanta gente que os segue. As repostas a estas perguntas tenho-as para mim como verdades, mas isso não significa que realmente o sejam. De qualquer das formas, e segundo o meu ponto de vista, que sei que nalgumas vezes poderá ser demasiado crítico, aquilo que vou observando é o que vou afirmar.

As respostas às perguntas que fiz são, na verdade uma só, ou várias que se misturam e que confundem.

Visualizações, seguidores, necessidade de aparecer, necessidade de desempenhar um papel fictício que ninguém lhes atribuiu, fazer crer aos demais que eles realmente são demais e que o "eu", que defende causas, é que realmente importa e que todos deveriam ser como ele e até agradecer-lhe porque faz petições públicas via net, e partilha fotos de vítimas sejam elas humanas, animais ou vegetais.

Todos que leem agora já se terão deparado com pelo menos uma página de Instagram de alguém que até se denomina activista. Estas páginas têm como características estarem cheias de exemplos de atentados a vários direitos, como os das mulheres, dos animais, da liberdade de expressão... Tudo lutas válidas, mas que vão perdendo a validade quando se consegue perceber que o objectivo final não é o de resolver nada. Não é porque não se queira resolver, é apenas porque o objectivo final não é mesmo esse. O objectivo é o de conseguir fazer barulho para se dar nas vistas.

Sempre ouvi dizer que "quem muitos burros toca, algum deixará para trás", e aqui até nem faz mal porque não tem interesse continuar a tocar o burro. O interesse é apenas que o animal cause impacto para que depois seja partilhado, conseguindo assim mais visualizações. Hoje mostras uma petição a favor de uma menina que foi vendida num qualquer país árabe, mas amanhã já não queres saber porque, entretanto já houve um gato que foi maltratado pelos donos e amanhã há uma mulher agredida pelo namorado.

Tudo isto são divulgações com um grau de gravidade elevado e que mereceriam um acompanhamento mais passo a passo, para saber o que acabou depois por acontecer, ou não. Com este desfolhar de causas, que após mostrada se amarrota e se deita para o lixo como se fosse uma simples folha de papel, deixa-me a forte convicção, uma quase certeza, de que a força da gravidade daquilo que mostram, para eles, é apenas momentânea, quando esses mesmos casos não são de momento, são muitas das vezes perpetuados.

Aquilo que digo é também fácil de verificar por quem queira. Basta ver uma dessas páginas de Instagram e ver a periodicidade das causas que ali divulgam, e que são umas atrás das outras, e a total ausência de seguimento ou de desfecho do caso.

Depois há os que seguem estas pessoas, e que, na verdade, são apenas vampiros que querem sangue e mais sangue. São como aqueles tipos que causam trânsito porque andam muito devagar, ou até param, para conseguir ver bem o acidente que aconteceu do outro lado da estrada.

Quando há, por exemplo, a divulgação de um cobarde que bateu na mulher/namorada, na zona de comentários o que mais se vê é — "divulga a fotografia do gajo" ou "era fazer a folha ao gajo e partir-lhe os dentes todos". Nunca é "contacta de imediato as autoridades e denúncia", que seria o único gesto correcto a fazer.

Mas quando temos uma "influencer" que até fotografa ao lado do caixão do pai, e um indivíduo que achou um piadão ver uma velhota ser desfeita por um atropelamento de comboio (esta reacção assisti pessoalmente, ninguém me contou nem li em lado nenhum) que, tal como disse mais acima neste texto, a minha fé no Homem, está pelas ruas da amargura.

03
Nov21

Cambada de "coninhas"


Pacotinhos de Noção

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Volto hoje a falar do Big Brother.

Este programa, por quase ninguém visto, continua de certa forma a dar audiências, e o que é um facto é que quando algo de mais marcante acontece todos ficamos a saber e acaba quase toda a gente também por comentar, porque sabemos que havemos de conseguir, nem que seja uma raspa no fundo do tacho do "sururu" que foi criado. É o meu caso aqui, que gosto de escrever mas também gosto que leiam o que escrevo, e por isso tento sempre estar em cima da onda da actualidade, e é também o caso do Bruno Nogueira, por exemplo, que também não gostando do formato, sabe disto que acabei de referir e acabou por se debruçar sobre o grave assunto do qual todos falam.

Mas será que foi assim tão grave?

Resumidamente conto-vos o que se passou.

Um concorrente afirmou ter tido já um contacto sexual com a namorada que fez na casa. Isto sem que ela se tenha apercebido, nem sequer consentido. Este foi o rastilho para que de repente estivéssemos no meio do incêndio de Roma, e o Nero que o ateou foi a própria produção. É fácil de perceber porquê. O formato vai ficando cada vez mais esgotado e há que aproveitar cada pisadela em ramo verde que um concorrente possa cometer. Desta forma podem ralhar, punir, causar polémica e burburinho chegando até a humilhar os concorrentes, mas não faz mal porque neste caso o "falem mal mas falem de mim" é o lema preferido e a exploração de situações que se possam tornar virais são aquilo que interessa. Prova disso mesmo foi a suposta queda do Eduardo Madeira para a piscina, no programa da Cristina Ferreira que, mesmo o Eduardo Madeira esforçando-se, deu para perceber como foi uma encenação muito mal executada.

Há uns anos uma boa desculpa, para quem via o Big Brother, era a de que viam como um fenómeno ou um estudo sociológico. Ninguém admitia que era porque gostava de assistir a um bate boca, cusquice ou peixeirada, ou até um ameaço de bofetada.

Nos dias de hoje esse fenómeno ou estudo sociológico continua a ser muito válido. De facto passou até a ter o dobro da validade, porque fazemos o estudo sociológico dos concorrentes que estão dentro da casa e fazemos o mesmo estudo do público que os segue.

As conclusões que se poderá tirar do estudo são que no primeiro Big Brother tínhamos concorrentes com o 9ºano, o 12º e homens da tropa. Chateavam-se, davam até pontapés uns nos outros mas dava perceber que eram na sua essência genuínos e que nem sabiam bem ao que iam. Agora temos na sua maioria licenciados, mas que pouco ou nada trabalharam, não fazem ideia de como se faz seja aquilo que for (achava piada pedirem-lhes para construir um galinheiro como fizeram com o Zé Maria) e têm a capacidade de argumentação de um maple do IKEA.

Capacidade de argumentação que poderia ter sido útil ao concorrente visado nesta polémica porque fui ver as imagens e aquilo que vi foi apenas uma piada, uma brincadeira.

A única pessoa que vi defender este ponto de vista, sem medo de colocar todos os pontos nos i's, foi o Flávio Furtado, que trabalhando até dentro do formato, não teve pudores de dizer aquilo que realmente pensa, não se vergando ao peso das audiências e das redes sociais.

Só quem esteja de má-fé, ou que queira muito pontos de audiência de forma muito badalhoca, é que pode agarrar neste contexto e dizer que o que se passou é uma vergonha, um crime, um abuso do homem pela mulher...

Tudo isto é demagogia barata. Aquela mesma demagogia utilizada pelo CHEGA e que supostamente tanto asco causa a tanta gente mas que afinal de contas até é bastante simples de usar, apenas e só porque a hipocrisia é a nota dominante.

O que nos leva ao estudo sociológico do "públicuzinho".

Estão todos transformados numa cambada de coninhas. Hoje em dia não se pode brincar com isto ou com aquilo, é uma ofensa, estão na televisão e têm que dar o exemplo... Deixem-se de tretas.

Pode-se e deve-se brincar com tudo. Não há limites para o humor. Há é os limitados sem humor, mas isso já é problema deles, por isso deixem-se ficar desse lado do monitor e vomitem as opiniões que quiserem mas pensem primeiro se valerá mesmo a pena. É que ao criarem essas opiniões pré-fabricadas vão apenas ser mais um bode naquele rebanho que tanto desdenham e ao qual imputam a pertença de indivíduos que pensam de maneira diferente da vossa, sem perceberem que por pensarem de maneira diferente de vós estão a demonstrar que afinal do rebanho não conhecem nem o pastor.

Ser uma ofensa é outro problema do receptor da mensagem que o programa possa passar. Quando alguém se vira para vocês e diz "És uma trampa", isso sim é uma ofensa, mas sentirem-se ofendidos por algo que passa na televisão é o mesmo que sentiam os inquisidores para justificar a queima das bruxas e das adúlteras, e a PIDE, para justificar o uso desenfreado do lápis azul. E felizmente, nos dias de hoje, mesmo que queiram usar o lápis azul, eu tenho a liberdade de sugerir que enfiem o lápis azul num sítio onde o sol não brilha, porque já não há pachorra para estes inquisidores de redes sociais, que não tiram os seus rabos suados da frente dos computadores e cuja coisa mais próxima de actividade física que praticam é vestir o fato de treino surrado que lhes serve de pijama, dia após dia, sem sequer lavar.

Querer também que a televisão sirva de exemplo é, mais uma vez, demitirem-se de toda e qualquer responsabilidade que têm para com a sociedade. A televisão é entretenimento e nela poderá, e deverá até, vir incluída cultura, regras de convivência e de cidadania... Mas poderá não vir, e se não vier o exemplo que os vossos filhos, caso tenham, devem seguir não é nunca o da televisão, é o exemplo dos pais, e o exemplo que eles vão seguir é o de alguém que, vivendo num país próximo da bancarrota, em que tudo aumenta, com um SNS deficitário (ao contrário do que nos querem fazer crer) e com políticos e governantes que mostram que a corrupção vai sendo a norma e não a excepção, se vai indignar com aquilo que um idiota que se fechou numa casa com outros 15 idiotas, para ser filmado para ser visto por algumas centenas de milhares de idiotas, disse. Belo exemplo para os garotos, sim senhor.

Para terminar, e fazendo também a minha análise sociológica, elaborando uma teoria rebuscada, a ideia que me dá é que a época em que vivemos está de barriguinha cheia.

Depois das Guerras Mundiais, as sociedades levaram o seu tempo para se restruturarem novamente, quer economicamente quer em valores morais e em convivência na sociedade. Como passaram por momentos traumáticos e como tinham mais em que pensar, os assuntos considerados menores nem sequer eram abordados. Só se perdia tempo com o que era essencial. Aqui tivemos uma ditadura e a Guerra do Ultramar e depois uma revolução que nos deu a liberdade, mas que nos tempos iniciais andou ali aos soluços e que sofria com várias instabilidades. Os anos foram passando e hoje somos filhos e somos netos de uma revolução, de uma ditadura e de guerras que vão ficando cada vez mais distantes e esquecidas. Isto leva-nos a um vazio de ideais e de convicções que sejam realmente importantes, o que nos leva também a que sejamos uns palonços que poderiam até tentar lutar contra algo maior que eles e que poderia levar a mudanças, mas ser-se inoperante já está tão vincado e passou a ser tão confortável que as lutas que se escolhe são aquelas que se apanham na televisão ou nas redes sociais e que não exijam grande coisa de nós, além de mandar uns bitaites como, por exemplo, acabei eu de fazer por aqui.

08
Out21

Deixem os meninos em paz!!!


Pacotinhos de Noção

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Moro a meio caminho de um Pingo Doce e de uma escola secundária.

Hoje, pelas 8 da manhã, por baixo da janela de casa ouço correria, gritaria, um baque e alguém a pedir que outro alguém não se levantasse. Ficaram curiosos? Também eu fiquei, pois corre-me no sangue a genética de gente cusca e codrilheira, e por isso assomei à janela.

O que passou-se, como diria Luís Filipe Vieira.

Passou-se que dois garotos, com os seus 15/16 anos, com as suas calças chino, da Timberland, bem curtinhas, decidiram ir roubar para o Pingo Doce, metendo guloseimas para dentro das suas mochilas da Eastpak. O alarme tocou e uma funcionária foi atrás deles. A correria que ouvi eram as solas de borracha dos Vans, dos betos meliantes a bater no chão e o baque que ouvi foi quando um dos Joões Maria atravessou a estrada a correr, para fugir da funcionária que calçava Seaside, e se espetou contra um Citröen de um senhor com uns 60 anos, que se estava a deslocar para o trabalho e que ficou com o guarda-lamas todo amassadinho.

"Ah, grande besta. O puto pode estar magoado e ficas preocupado com o carro!?"

Precisamente.

O gatuno de gomas estava meio abananado no chão e o senhor saiu do carro e disse-lhe para não se levantar, que podia estar magoado e que ia chamar os bombeiros. O miúdo não fez caso e começa a levantar-se por dois motivos:

O primeiro era a vergonha de ter ido contra um Citröen e não um Bentley ou um Jaguar, e a segunda era porque tinha que terminar a tarefa a que se tinha proposto, e que era fugir da funcionária do estabelecimento que roubou.

Nisto já se tinham juntado algumas pessoas, entre elas homens valentes e rudes, daqueles que trabalham a arranjar jardins e que gostam de assobiar às miúdas, e que são grandes valentões, que iam dizendo para o miúdo não se levantar, mas ele, consciente da sua missão de se pôr ao fresco, sob pena de chamarem a polícia, e os agentes da autoridade terem que interromper alguma importante reunião do Bernardo Sotto Mayor, pai do ladrãozinho, para lhe dizerem que o filho rouba em supermercados e ainda amolga Citröens, levantou-se e já ia começar a seguir caminho, mas o dono da viatura agarrou-o e afirmou que não o deixaria ir embora, pois amolgou-lhe o bólide.

Ao ouvirem isto os valentões jardineiros, insurgiram-se com o facto de o senhor estar preocupado com o carro e não com o bem-estar do miúdo. Ficaram tão indignados que pareciam pombos a arrulhar, de peito feito.

O condutor afirmou que também estava preocupado com o miúdo, obviamente.

Estávamos portanto numa cena quase de amor. Um cenário pouco dignificante para o menino de leite, é certo, mas um cenário amoroso... Ou quase. Lembram-se do outro João Maria, que também esteve a roubar?

Pois é. Como o seu rabo também estava na rota da seringa, e dela ele queria fugir, não podia deixar que o seu amigo, com o qual partilha a maneira de vestir, e de roubar, parecendo serem quase irmãos gémeos, fosse caçado, unindo então com ele força para em conjunto se virarem ao senhor condutor, de cerca de 60 anos, que ia no seu Citröen para o trabalho, e que agora está amachucado.

O homem, fraca figura, contra os dois betos atestados a gomas da Haribo, não teve hipótese e ambos conseguiram fugir.

Os jardineiros valentões que reclamaram com o senhor, ao verem a juventude a suplantar-se fisicamente contra alguém de mais idade, agarraram na sua coragem, e no seu "diz que faz" e enfiaram bem fundo, num sítio onde o sol não brilha. Mas como afinal eles não são só músculos, depois dos miúdos abalarem, deram um sábio conselho ao condutor. Recomendaram que fosse depois procurar na escola pelos miúdos, para eles pagarem o estrago.

Ora, as conclusões que tiro daqui são algumas e todas negativas.

Tiro aquela em que a malta nova é cada vez menos responsabilizada pelos seus actos. Aliás, não é já a primeira vez que vejo alguém a defender-se de malta mais nova, que comete um ilícito, mas que depois tem um grilo falante e defensor dos oprimidos, que pensa que ao defender quem faz trampa, vai ganhar o seu lugarzinho no céu.

Há anos vi um tipo tentar assaltar, com recurso a arma de fogo, um taxista em Almada. O taxista era primo do Chuck Norris, desarmou o puto gatuno e começou a dar-lhe aquilo que em bom português se chama de "ensaio de porrada". Apareceram logo umas velhas justiceiras a dizer para o taxista não bater no menino. Aquele menino, que segundos antes lhe tinha apontado uma arma à cara para lhe roubar o suor de um dia de trabalho. O gatuno, escusado será dizer, fugiu.

 Em ambas as situações quem foi ajudado foi sempre o bandido.

Houve pessoas prejudicadas, e mais prejudicadas ficaram porque houve alguém que achou por bem defender os coitadinhos que, de uma forma ou de outra, terão sempre uma justificativa para cometerem os actos de bandidagem, de vandalismo ou apenas de irresponsabilidade.

Não é uma questão de falta de dinheiro, de se morar em bairros sociais ou de se ser de um extrato social maior ou menor, porque como referi aqui, os Joões Maria tinham falta de qualquer coisa mas não era de dinheiro. Era educação, empatia, moral, consciência e dignidade.

O homem do Citröen é um coitado porque teve a chapa do seu carro amolgada, mas todos os outros, tanto os que cometeram o acto, como os que os defenderam, não são só uns coitados. São uns pobres coitados, uns derrotados e uns desgraçados, que não permitem que outros como eles sejam postos no lugar porque imaginam que um dia podem ser eles naquele lugar. É por isso que a nossa sociedade está cada vez mais podre e decadente, porque mais facilmente nos colocamos no lugar do esgoto e da ratazana, do que no lado de quem trabalha, tem educação e respeito pelo próximo.

07
Set21

O alheamento do Miguel


Pacotinhos de Noção

Momento-da-entrevista-de-Sousa-Tavares-a-Costa-queNuma entrevista ao Primeiro-ministro, onde foram dadas tantas voltas para não recebermos nenhuma informação relevante, e em que se ficou a perceber que aos olhos de António Costa, Paulo Rangel será o mais provável sucessor de Rui Rio (calha bem, depois do que escrevi ontem) a populaça apenas se cativou pelos 2700 euros do primeiro emprego do jovem, que Miguel Sousa Tavares há-de ter sido.

Devo dizer que Miguel Sousa Tavares desperta em mim algo de bonito, uma vez que cada vez que abre a boca a única coisa que me vêm à cabeça é a frase "Estás bonito, estás". A culpa é da TVI que o coloca aquela hora, em que provavelmente já vai jantado e bem regado. Mas os bêbedos também podem ter voz activa, mesmo que a voz pareça mais o coaxar de um sapo. Mas é deixá-lo coaxar... falar, digo.

Ainda assim queria sublinhar que, e lamento se realmente eu estiver certo e a maior parte do pessoal estiver apenas a utilizar este exemplo porque de resto nada conseguiram tirar da entrevista, o Miguel Sousa Tavares fez o chamado de "supondo que".

"Supondo que" um jovem no primeiro emprego ganha 2700€, é um "supondo que" parvo, estúpido e irreal, porque se um jovem conseguir no primeiro emprego chegar aos 700€, não estará no bom caminho mas estará no caminho habitual no nosso país. E sim, estou a falar de pessoal licenciado. Hoje há pessoal licenciado que começa por ganhar muito próximo do salário mínimo nacional, e se querem querem, se não querem metam-se num avião e vão trabalhar no estrangeiro, onde por pouco que sejam mais valorizados, ainda assim são-no mais do que aqui. Conheço muitos casos assim, que não estão felizes pois prefeririam estar em casa, junto dos seus, mas que se recusam a ser gozados no seu recibo de vencimento.

Esta realidade não é só culpa das entidades patronais, que por cada funcionário que têm pagam uma batelada de dinheiro ao Estado, que vai ainda buscar outra batelada ao vencimento de quem trabalha. E quão maior for o vencimento maior é o ro(u)mbo.

Voltando ao Miguelito, que deu um exemplo estúpido porque a realidade dele é diferente.

Será que quem me lê neste momento é assim tão diferente dele?

Pergunto porque nesta pirâmide social em que vivemos não é só quem está lá mesmo no topo, no pico do pico, que não olha para baixo. Para cima todos olham, para invejar e desdenhar o que o outro ganha, e eu até acho que nem tem mal nenhum, se o facto de invejar fizer com que sonhem que um dia lá poderão chegar. Afinal de contas sonhar não custa e por semana há dois sorteios do Euromilhões. Nunca se sabe. Uma coisa é certa, a trabalhar nunca lá chegarão, e a roubar só se tiverem os contactos certos. Mas voltando ao alheamento do Miguel, que afinal é geral.

Existe toda uma classe média que tem mulheres-a-dias e que tentam pagar o mínimo possível à hora a essa senhora. Essa mesma classe média é a que se queixa de que o seu filho ganha pouco no primeiro emprego, até porque houve um grande investimento na universidade privada do seu menino, ignorando o facto de que aquela senhora a quem ela tenta pagar o mínimo possível à hora, para conseguir chegar ao fim do mês com um ordenado que se veja, tem que trabalhar em mais duas ou três senhoras por dia, sendo que todas elas gostariam de lhe pagar menos do que aquilo que pagam e que o filho não anda na universidade, por muito que ela gostasse, mas a vida não lhe permitiu. Ah, e o primeiro que se lembrar de dizer que estudando teriam acesso a bolsas, podem agarrar nesse argumento e enfiar bem fundo na bolsa. As bolsas não são comparticipadas na totalidade. Há sempre gastos numa universidade, que alguém que é filho de uma mulher a dias, por muito esforço e vontade que tenha, não vai conseguir suportar.

Mas estas pessoas da classe média também trabalham, e trabalham para aqueles que gostam que os funcionários vistam a camisola e, como todos sabem, vestir a camisola no nosso país é trabalhar o máximo que conseguires, cumprindo objectivos estapafúrdios, com prazos ridículos, para que a empresa X fique satisfeita com a empresa onde a pessoa da classe média trabalha, para assim garantir mais contratos promissores que vão garantir que o patrão ganhe muito dinheiro, com o mínimo do seu esforço, mas não dando grande valor ao esforço de quem trabalha, para que a sua empresa cumpra os tais objectivos. Mas não podemos levar a mal o patrão. É que ele é como o Miguel, está lá em cima e a realidade dele é diferente da realidade do cidadão comum, assim como a realidade do cidadão comum é diferente da do cidadão de baixa classe social, assim como a do cidadão de baixa classe social é... Esqueçam, abaixo pouco há. A base da pirâmide é esta e se a base for composta pelos que menos têm nunca chegaremos a lado nenhum, porque uma base fraca acabará por se desmoronar. E isto é um facto a que não podemos ficar alheios.

13
Ago21

Uma questão de nomes e pronomes


Pacotinhos de Noção

egocentrismo-1.jpgA falta de respeito pela sociedade incomoda-me bastante. O cuspir e mandar beatas para o chão, passar sinais vermelhos, meter os pés em cima dos bancos nos meios de transporte ou não dar o lugar aos mais velhos deixa-me sempre a pensar no quão egoísta se pode ser, ao imaginar que a sociedade existe apenas para o usufruto de determinada pessoa. Como acabei de afirmar esta falta de respeito incomoda-me mas a falta de respeito pelo indivíduo embrulha-me o estômago. Fico com vontade de me meter ao barulho e ser estúpido para quem demonstra que é estúpido para com alguém. Fico tão chateado que posso até afirmar que se fosse um Deus seria um bem punitivo e então, com todos os meus poderes, mal uma pessoa tivesse este tipo de falta de respeito passaria a mancar. Se as más atitudes tivessem continuidade então, além de ser coxo, passaria também a ser marreco e ia sempre por ai fora, até se transformar numa Betty Grafstein. Aos poucos das duas uma, ou seríamos todos Betty's ou a coisa acabava por se compor.

Gosto de dar exemplos daquilo de que me queixo para que melhor seja entendido.

Quem anda de transportes, e costuma bebericar um café nos estabelecimentos de estações e terminais de comboios, barcos ou autocarros, de certeza que já se deparou com a personagem que tem mais pressa do que nós.

Ora levanto-me eu da minha caminha atempadamente, para poder passar pelo café e tomar o meu pequeno-almoço ou simplesmente beber uma bica, e eis que surge então uma pessoa cheia de pressa, já com as moedinhas contadas na mão, passa à frente de todos e diz que "é só um cafézinho que tenho pressa". A pressa aqui há-de ser para ir apanhar o seu transporte que, no meu entender e pela atitude demonstrada, deverá ser um carro de bois que só se moverá quando esta personagem colocar o jugo para o puxar. A falta de educação deste imbecil, que em vez de tirar a cabeça da palha mais cedo, tal como eu fiz, deixou-se ficar a dormir (dá para perceber pela cara ramelosa) revolta-me. Desde já aviso a algum dos ramelosos que porventura esteja a ler isto, que se no café alguém não vos deixar passar à frente, a probabilidade dessa pessoa ser eu é muitíssimo... nula. Sou um caguinchas e depois ainda levo alguma tareia.

Outra situação que me dá taquicardia é quando se dirigem a mim, mas sem desligar o telemóvel, ou quando estão a falar comigo mas ao mesmo tempo a escrevem mensagens. Tudo bem, admito que possa não ser a pessoa mais interessante, mas há que ter o mínimo de delicadeza e pelo menos fingir que se está a ouvir, ou então pedir licença e mentir, dizendo que "tenho mesmo que enviar uma mensagem". Só a desculpa já demonstrava que aquela pessoa tem pelo menos um bocadinho de respeito e consideração por mim.

Para finalizar tenho uma situação que já presenciei várias vezes e que se está a tornar muito comum, mostrando o quão arrogante se pode ser, e que colocar um monte de bosta (em sentido figurado, claro) na cabeça de alguém, é coisa que não custa assim tanto.

Imaginem que se chamam Duarte ou Luana. São nomes meramente exemplificativos mas qualquer nome que foneticamente possa ser confundido com outro, serve.

Perguntam-vos o nome e respondem Duarte ou Luana e a pessoa, que poderá ter percebido mal diz "Eduardo!? Joana!?" Podia ser um mero equívoco, mas deixa de o ser quando a partir deste momento não importa mais, porque podem emendar, soletrar, fazer o pino mas para aquela pessoa são o Eduardo ou a Joana. Por mais que insistam em corrigir o máximo que vão conseguir é um "sou muito distraída, mas Duarte/Eduardo, Luana/Joana, é quase igual.

Não não é. Galinha e perua também são quase iguais, mas não são os mesmos e olhando para uma pessoa que não consegue fixar o nome da outra, a confusão que poderá aqui emergir é apenas essa. Se ela é uma galinha ou uma perua.

O nosso nome é o NOSSO nome, por mais comum que possa ser. Joões há muitos no mundo, mas há um João específico que é aquele João, com as suas qualidades, defeitos, feitios e individualidades. Estar a errar no nosso nome, e ainda insistir no erro, é dizer que "esta pessoinha é tão insignificante que nem me esforçarei minimamente para corrigir ou sequer recordar de como se chama. Estas pessoas são as mesmas que tratam os empregados de mesa por "Psst" e que "Obrigado" e "Se faz favor" são como às calças à boca-de-sino, que já se usaram mas que entretanto já nos deixámos disso.

O exemplo dos nomes é o que mais me toca, precisamente porque é o tipo de falta de respeito mais pessoal que pode haver. Ninguém nos está a ofender moralmente, não estão a dizer que alguém é isto ou aquilo nem tampouco a chamar nomes a uma progenitora, mas este tipo de ofensa, e pouco caso para com o outro, demonstra que cada vez mais queremos saber menos das pessoas. Na verdade todos os exemplos que dei demonstram isso mesmo.

Não sou sociólogo mas sou muito "teoriologo", e embora não elabore teorias da conspiração elaboro algumas acerca da sociedade. Situações como a que se viveu no Euro 2020, dos adeptos da Inglaterra que individualizaram a culpa da derrota em 3 jogadores da própria selecção, demonstram que é cada vez mais simples faltar-se ao respeito a uma pessoa só, do que a toda uma comunidade. Isto porque as comunidades são enormes minorias que, cada vez mais, vão tendo sempre associações, membros partidários e individualidades do mundo social que os defendem porque acaba por ficar bem, quando se falta ao respeito a uma pessoa só então estão a faltar ao respeito a uma pessoa que está mesmo SÓ. Reparem que este caso não teve manchetes porque os jogadores foram ofendidos individualmente. O que chamou à atenção foi porque foram vítimas de racismo e a comunidade negra foi toda ofendida. Com uma sociedade a querer cada vez menos saber de cada um de nós, é natural que depois, mesmo que camufladamente, existam pessoas que se comportem como se o outro seja apenas um nada. Ainda por cima muitos deles podem até ter lido livros do Gustavo Santos, que gosta de afirmar que "aquilo que importa é o EU.Todos à volta são nada, o importante é aquilo com que vivo e eu vivo 24 horas com o EU".

Lamento pelo Gustavo Santos, porque se o EU de quem gosta for igual ao ELE que nós vemos, então é uma desgraça, e lamento por todos os que se focam demasiado no EU e que que acabam por ser um eu seco e vazio que mal se dará com um ELES e que dificilmente terá um NÓS.

21
Jul21

Uma questão de educação


Pacotinhos de Noção

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O ser humano é estúpido. E pronto é só isto.

Resumidamente é isto mas de verdades de La Palisse está o Mundo cheio, por isso convém contextualizar.

Já desde miúdo que desenvolvi um demasiado forte sentido crítico. Não encaro esta característica como uma virtude e sim como um defeito. É mais forte do que eu e julgo que mais cedo ou mais tarde desenvolverei uma úlcera nervosa, tal mexem comigo situações do dia-a-dia.

A falta de educação está cada vez mais generalizada e com esta história da pandemia parece que se tornou ainda mais forte. No meu entender "o novo normal" de que tantos falam é só um normalizar da anormalidade que já antes existia mas que muitos tentavam esconder. Agora nem vale a pena porque "amanhã posso ter que ficar em casa", ou "a vida são dois dias e o isolamento são 14", por isso é preciso ser-se uma trampa nos dois dias em que se anda à solta.

Tenho visto de tudo e nem tudo se justifica com o vírus do COVID. Desde uma javarda que no supermercado tira a máscara para falar ao telefone e ao mesmo tempo espirra para cima dos artigos nas prateleiras, desde clientes que insultam quem está num balcão porque, por exemplo não admite ter que fazer pré-pagamento, e até a empregados de balcão que atendem mal clientes porque onde se estava bem era no "lay-off".

A tantas vezes proclamada República das Bananas ainda não foi proclamada, mas aquilo que mais vejo são macacos tontinhos e egoístas que querem muito ser vacinados porque as férias deles são mais importantes que tudo. Mais uma vez repito, esta não é uma questão que se prenda com a pandemia. O vírus foi o que deu o mote para que a vergonha, que já pouco existia, fosse completamente eliminada.

Reparem por exemplo nas questões dos testes rápidos nos restaurantes. Testes que eram cobrados a 5€, agora passaram a valer três, quatro ou cinco vezes mais, e muitas das vezes são as próprias farmácias a cobrarem estes valores. Já tínhamos visto situações semelhantes aquando da escassez de máscaras e álcool gel, e a coisa torna a repetir-se. Faz-me um pouco de confusão que existam autoridades de regulamentação para tanta e tanta coisa, e nestes casos não. Mas por um lado percebo bem porquê, o IVA de 20€ é muito mais apetecível do que o IVA de 5.

Posso ir contra a corrente e falar também nos médicos e enfermeiros do SNS, por exemplo. Estão a ser catalogados como heróis e era assim que deviam ser vistos, caso aquilo que fazem fosse altruísta. Mas a verdade é que hoje existem mais pessoas a morrer por causa de outras enfermidades do que de COVID, e é mais fácil ganhar um prémio bom no Euromilhões do que conseguir consulta num centro de saúde, porque todos os esforços são canalizados para a vacinação. Não porque se queira acabar rápido com o bicho, mas porque horas a vacinar são horas extraordinárias.

Todo o quadro de beleza, entreajuda, compreensão, apoio ao próximo e altruísmo, aos poucos e poucos vai-se transformando num feio quadro de naturezas mortas mas em que o que é retratado não são frutas ou flores. É uma humanidade podre e decadente que poderia ser colocada bem no centro da Idade Média e que não ficaria a dever em nada, aos "grunhos" que por lá viveram.

Será toda a gente assim?

Não, não será. Mas aqueles que não o são sentem-se sozinhos, desesperados e desamparados, porque a sociedade onde vivem, e da qual fazem parte, está apoiada em alicerces tortos e instáveis e sentem que nada podem fazer porque são uma minoria que se vê abafada pelos urros e gritos de uma imensa maioria cuja principal preocupação é a de se agora no Verão podem ou não beber umas "jolas" na esplanada, ou ir passar o fim-de-semana ao Algarve.

Se não fosse o egoísmo e falta de educação, não só cá mas no Mundo inteiro, não estaríamos dois, de não se sabe quantos anos mais, a sofrer. Basta colocar os olhos na Islândia.

Quem argumentar que a Islândia tem pouca população... Também os Açores e a Madeira.

22
Jun21

Sempre fui discriminado


Pacotinhos de Noção

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Desde bebé se percebeu que eu era diferente das outras crianças.

Os meus pais não fizeram caso, ou fingiram que não perceberam, se bem que me recordo de existirem alturas em que o meu pai me tentou mudar. Tentou-me fazer ir contra a minha natureza e como quem não quer a coisa, deixava escapar que ao ser assim diferente os outros meninos na escola podiam achar estranho e gozar comigo.

Noutros tempos sei que seria visto com muitos maus olhos e poderiam até bater-me, só para me "emendar". Felizmente nasci numa altura um pouco mais avançada mas em que ainda havia resquícios deste tipo de preconceitos.

Na 1a classe não tinha mais ninguém como eu. É verdade que os outros meninos quase não ligavam, mas havia sempre um ou outro que comentava e às vezes havia quem não se quisesse sentar ao meu lado porque quando os nossos braços chocavam, sentiam-se incomodados. Eu lamentava, mas a culpa não era minha. Eu sou assim.

As professoras tentaram fazer-me mudar mas a minha essência foi mais forte.

Na preparatória encontrei um coleguinha como eu. Ficámos amigos mas quase nem nos dávamos conta de que éramos diferentes dos outros e para nós até nem éramos, porque a nossa realidade era aquela e tínhamo-nos adaptado e aprendido a viver com ela.

Hoje sou adulto e embora a sociedade se tenha adaptado um pouco melhor a pessoas como eu, a realidade é que continuamos a ser colocados um pouco de parte.

A minha condição não me permite fazer tudo da mesma forma que os outros fazem mas não é por isso que deixo de o fazer. Algumas faço até de melhor maneira dos que os considerados "normais".

Penso que eu, e outros como eu, não são defendidos da mesma forma que outros nichos da sociedade e sinto-me até ofendido quando afirmam que sou assim porque o meu cérebro trabalha de forma diferente.

Depois há aquela descriminação positiva em que dizem que por ser como sou tenho um lado mais artístico ou criativo.

No final das contas servem estas palavras apenas para vos demonstrar que, dependendo da maneira como se escreve e consoante o grau de vitimização que se pratica, algo como se ser apenas canhoto pode ser encarado com uma gravidade que não existe.

Há coisas graves, com certeza, mas nos dias de hoje aquilo que mais conta é conseguirmos fazer-nos de coitadinhos e oprimidos pela sociedade.

Um aperto de mão a todos os canhotos, dextros e ambidextros.

 

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