Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

26
Mai22

O trabalho do Milhazes


Pacotinhos de Noção

1x1.jpeg

Esta informação poderá ser toda recolhida e confirmada na internet, mais especificamente na Wikipédia.

José Milhazes rumou à União Soviética em 1977. A ideia inicial seria a de estudar e voltar ao seu país de origem, mas logo após se formar, em 1983, acabou por casar e ficou pelas terras dos czars. Voltou em definitivo a Portugal em 2015, o que significa que passou 38 anos pelas terras de Tolstoi, autor, aliás que Milhazes traduziu para português, por entre outros tantos, em que também fez o mesmo trabalho.

Ao longo das décadas passadas na Rússia, Milhazes tornou-se jornalista e, consequentemente, colaborador, e correspondente para rádios e jornais como a TSF, o Público, Agência Lusa, RDP e mais tarde a SIC.

Lançou mais de uma dúzia de livros, variados artigos científicos e tem também já uma extensa carreira como historiador.

Ultimamente era visto semanalmente, como comentador, no programa da SIC Notícias, Invasões bárbaras, apresentado por Iryna Shev, e em que partilhava mesa com Olivier Bonamici e Giuliana Miranda.

Como podem agora observar, o título "O trabalho do Milhazes" não tinha o intuito de ser um trocadilho para brincar com a tradução feita pelo jornalista no Jornal da Noite, deixando Clara de Sousa escandalizada, Nuno Rogeiro divertido, e todo um país que reclama para si um intelecto superior, ao afirmar que não vê programas como o Big Brother, por exemplo, por não gostar do que representa e daquilo que por lá se diz, mas que vai aos píncaros da emoção por haver uma constatação do Milhazes ao afirmar que os jovens russos num concerto, em plena Rússia, repetem que "A guerra que vá para o c@r@Ih0", ignorando que José Milhazes o fez para sublinhar a coragem daqueles jovens, perante as forças policiais comandadas por um ditador que, até agora, não tem tido qualquer pudor em bater, invadir, prender, matar.

Esta mensagem de Milhazes foi remetida para segundo plano, e aquilo que gerou memes e transformou o jornalista no novo herói português foi a reprodução de um palavrão no horário nobre na SIC.

Para alguém com uma carreira tão rica e tão extensa como a de José Milhazes, ser reconhecido e vangloriado apenas devido a um palavrão, haverá de ser muitas coisas, sendo que a principal será a frustração. 

Força Milhazes, és bem mais que aquilo que agora te querem imputar, e se por acaso continuarem a chatear-te com essa treta, manda, mas é toda a gente para o...

12
Mai22

"Noblesse Oblige"


Pacotinhos de Noção

png_20220512_112502_0000.png

Não sou uma pessoa de séries. Prefiro filmes, mas ainda assim tenho as minhas preferidas.

Uma das mais recentes é a "After Life", da autoria de Ricky Gervais, que desempenha também a personagem principal. Conta a história de um homem para quem viver já não faz o menor sentido, após ter perdido a sua mulher... Mas não é a história central desta série que me levou a referir a mesma, e sim uma característica que Tony, personagem de Gervais, tem e que admito, agrada-me. Agrada tanto que gostaria até imenso de conseguir pô-la em práctica, muito embora não possa ser considerada uma qualidade. Aos olhos de grande parte das pessoas é até considerada um defeito.

Tony tornou-se uma pessoa completamente intransigente, que não tolera a idiotice, a estupidez e a falta de noção. O único "frete" que ainda se força a fazer é o de entrevistar pessoas pouco normais, para o jornal local onde trabalha, mas de resto nada passa.

Situações tão simples que já nos aconteceram, como o carteiro que não coloca as cartas no sítio correcto só porque teria que dar mais uns passos, ou o carro que não pára na passadeira, merecem a reprovação do jornalista, e ele não se coíbe de a demonstrar, coisa que nós, comuns mortais, a maioria das vezes evita.

Somos desde miúdos habituados de que temos que ser simpáticos, positivos, flexíveis, e afirmo que na grande maior parte das vezes até o sou, mas admito ser algo que me custa bastante, e cada vez mais porque para manter essas três características, quase sempre temos que fazer aquilo que muitos chamam de "engolir sapos", coisa que a todos custará.

Pois, ontem, não por deliberação imposta, mas mais por impulso, fui intransigente e soube-me que nem ginjas.

Uma das situações foi numa das minhas constantes incursões a superfícies comerciais. Fui fazer umas compras ao Minipreço perto do trabalho e, azar dos azares, estava pejado de miúdos da escola secundária.

Estando já eu na fila para pagar, fila que, entretanto se estendeu bastante e iria ter este vosso amigo como próximo elemento a ser atendido, dei por mim a levar com bafo de "pita" mal-educada que, ao passar por mim, exclama para o seu namorado um verso, que não rimando, seria música para o humorista Fernando Rocha.

Disse então a poetisa, e passo a citar:

"— F*d@ss€, achas que vou ficar na fila por causa de um donut?"

Achei mal. Achei mal pelo palavreado e pelo elevado tom com que o proferiu, achei mal por fazê-lo tão perto de mim, que senti o bafo ao Chocapic que comeu ao pequeno-almoço, e achei mal pelo pouco caso que fez do Donut, que não tendo a consistência de uma Bola de Berlim ou de um papo seco, é uma iguaria que serve para matar o ratinho e a vontade de doces. É certo que não tem um valor nutricional elevado, mas tem um valor monetário baixo, mostrando ser uma óptima opção de lanchinho.

Mal acabou de arrotar esta pérola a miúda olha para mim, como primeiro elemento da fila, próximo a ser atendido, e pergunta-me se acho que ela pode passar à frente por causa do Donut, ao que eu, amavelmente, como é meu hábito, lhe respondi que era óbvio que não. Foi para o fim da fila e espero que esteja lá até hoje.

Se a situação fosse outra, ou se se tivesse desenrolado de maneira diferente, muito provavelmente até deixaria, mas só o facto daquela pequena labrega pensar que o tempo dela era mais precioso do que o de todos os outros que estavam na fila, e a maneira chula como falou, fizeram-me ser intransigente, rude e seco, e tenho que vos admitir que me soube muitíssimo bem.

A outra situação que aconteceu foi com a nobreza, dai o título do post, e não, não é um nobre como o Castelo Branco, é daqueles a sério, o que até acaba por ser um pouco mais ridículo.

No meu trabalho tenho clientes de todas as áreas, de todos os credos e de todos os estratos sociais.

Tenho uma Srª Dª Marquesa que me encomendou um trabalho com urgência. Na altura aceitei, como especial favor, mas ficou combinado que o motorista da senhora só o viria buscar quando eu lho dissesse, visto que não o conseguiria concluir no período de trabalho normal.

Acabei perto das 22:00 e normalmente saio às 19:00.

Quando liguei ao motorista ele disse que afinal não o poderia ir buscar  e ficava para o dia a seguir..."Ordens da Marquesa". E que até nem fazia mal porque na realidade a Srª Dª Marquesa havia cometido um engano e não precisava daquilo com tanta urgência, tinha mais uns dias de margem.

Fervi e não engoli.

Telefonei à Marquesa, que, aliás faço sempre questão de tratar por Dona Teresa, (não respeito muito títulos bacocos) que me confirmou que realmente naquela hora já não lhe dava muito jeito, já estava recolhida e dispensara o motorista.

Desfolhei a minha lista de desagrados, afirmando que perdi horas de convívio com os meus filhos, que é um desrespeito exigir um trabalho com urgência, mas depois não o recolher porque não lhe dá jeito, não avisar que afinal o prazo mudara, e pode ficar ciente que da minha parte não terá mais nenhum tipo de favor.

Escusado será dizer que esta atitude, da qual até me orgulho, a ela, para já, não lhe fez mossa nenhuma. Teve a cara de pau de tentar colocar a culpa no motorista, dizendo que "ele não é muito normal, desconfia até que o homem tem um pouco de autismo", e também em mim, dizendo que devia ter conseguido acabar o trabalho mais cedo.

O que nos passa pela cabeça após ouvir estes argumentos é algo que a tal "noblesse oblige" a que não seja nem possível escrever, sob pena de terem sido inventadas novas formas de ofensa que possam até dar cadeia, mas mais uma vez aconteceu que sendo completamente intransigente, e não deixando por dizer aquilo que aquela velha decadente merecia ouvir, senti-me bem e sem aquele nervoso miúdinho das situações chatas, que nos causam um pequeno incómodo e nem sabemos bem porquê.

09
Mar22

Os fantoches que nos servem


Pacotinhos de Noção

png_20220309_104131_0000.png

Sábado à noite e vou com amigos a um restaurante daqueles onde todas as pessoas vão.

Servem almoços e jantares e com tanto movimento obviamente que os funcionários já estão com algumas horas de trabalho nas pernas.

Sento-me e aguardo pelo senhor que nos há de atender. Vejo-o atrapalhado, a andar para a frente e para trás, levando tabuleiros numa mão, garrafas de vinho na outra, e se mais braços tivesse, mais coisas levaria, mas é o trabalho dele. Cada um com o seu, e também ninguém me vai lá ao escritório fazer o trabalho por mim.

Já começo a bufar porque estamos à espera há uns bons 10 minutos. O tipo passa por mim, pede desculpa e diz que vem já ter connosco. Entretanto, vejo-o a ir entregar uma conta, uma salada de frutas e uma mousse.  E EU ALI SENTADO À ESPERA...

Quando finalmente vem ter connosco, devo dizer que a figura mete-me um pouco de impressão. Todo suado e desgrenhado, com ar de quem correu uma maratona, e aspecto visivelmente cansado.

Fazemos o nosso pedido e ficamos à espera novamente. Raio do pessoal do restaurante que parece que não sabe trabalhar mais rápido.

Vinte minutos depois, estou eu e os meus amigos a deglutir os nossos pratos, em amena cavaqueira. O funcionário lá continua, feito barata tonta, de um lado para o outro. Se tem trabalho a mais que diga ao patrão para meter mais pessoal.

Hora de pedir sobremesas, o cafézinho, e algum do pessoal vai pedindo uns calicezinhos disto e daquilo. O raio do empregado tem o desplante de vir dizer que é quase meia-noite, e que tem que fechar o estabelecimento. Mas qual é a pressa do tipo, não aguenta mais uns 15/20 minutos, para acabarmos a nossa conversa e os nossos cálices? Estes tipos não querem fazer nenhum, e depois ainda se queixam não haver trabalho.

Esta introdução é ficcionada, mas é baseada em muitos comentários que já ouvi, atitudes que presenciei e até em pensamentos que ocasionalmente posso ter, mas hoje deu-se-me uma epifania e dei por mim a pensar em como por vezes consigo, ou melhor, conseguimos (não vou arcar com  as culpas todas, sozinho) ser injustos, e pouco compreensivos para quem trabalha.

No exemplo que dei, seria positivo ter em conta os quilómetros que aquele empregado de mesa já poderia ter percorrido, só naquele dia, e que se não tem mais colegas que o ajudem não será por vontade dele. Quando somos servidos a maior parte das vezes esquecemos que aquela pessoa que está atrás do balcão não é parte do balcão e que a sua vida é muito mais para além daquilo.

Uma das coisas que mais me incomoda ouvir nalgumas lojas de comércio local, que são normalmente geridas apenas pelos proprietários, é a pergunta "Vocês estão sempre abertos?" Não passa pela cabeça daquela pessoa que todos têm direito ao descanso físico e até mental, para se refazerem de ter que lidar com idiotas que fazem estas perguntas.

Em negócios maiores até posso tolerar, visto que poderão existir mais funcionários, mas em lojas de rua, e lojas familiares...

O total desrespeito por horários também faz-me eriçar os pêlos da nuca. No outro dia, eram umas 18:30 e observei uma "simpática" senhora, que vendo que dentro de um laboratório Germano de Sousa estava uma funcionária, começou a bater desenfreadamente à porta. Uma porta de vidro laminado, bem limpa, por sinal, que tinha como puxador um magnífico tubo de alumínio, e em letras garrafais, que se viam do outro lado da rua, um horário onde se via, explicitamente, que encerram às 16:30.

A senhora tanto insistiu, e gritava que só queria fazer uma pergunta que a rapariga lá teve que ir à porta. E a senhora de facto fez apenas uma pergunta. Perguntou "Estão fechados?"

A pergunta que agora eu vos deixo, caros compinchas leitores, é se um estalo valente dado na cara desta senhora, poderia ser considerado crime?

Não contente, a senhora que passa neste momento de senhora, a velha chata, lança o seu charme e diz que "já que está aqui, podia ver se estas análises estão prontas?"

A funcionária disse que não podia, ainda levou com a má disposição da velha, e lá voltou para o seu trabalho, que se atrasou uns minutos devido a alguém que julga que um outro alguém, que desempenha uma função de atendimento ao público, não é alguém, mas sim uma coisa, um adereço.

Para certas pessoas quem está atrás de  balcão não tem dores, não tem tristezas, não tem horários nem vontades. É engraçado que numa altura em que tanta gente discute a semana de 4 dias de trabalho, essa tanta gente pense que a semana de trabalho dos outros, deveria ser de 7 dias, e sem pausas sequer para dormir, que de calões está o Mundo cheio.

Segundo essas pessoas, mesmo que subconscientemente, no fundo, os funcionários, são apenas fantoches que estão ali para os servir.

20
Fev22

A D.Leonor foi despedida


Pacotinhos de Noção

IMG_20220220_004150_308.jpg

Imaginem então:

D.Leonor, 65 anos, trabalhou mais de 40 numa fábrica que agora fechou. A idade da reforma é 66 anos e 7 meses. 

Recebe subsídio de desemprego, direito que se lhe assiste tendo em consideração os anos trabalhados.

É obrigada a estar inscrita no IEFP, fazer prova de procura activa de trabalho e frequentar cursos de formação profissional, sob pena de que caso não o faça perde o seu subsídio.

Isto não é ficção, são casos reais que acontecem diariamente e que muitos de nós conhecemos.

Os Institutos de Emprego e Formação Profissional, deveriam ser órgãos de apoio à procura de primeiro emprego, formação adequada e procura de novo emprego, mas não o são.

Os IEFP deste país, funcionam apenas como meios fiscalizadores e até dissuasores, com o intuito de fazer com que se falhe uma qualquer reunião, que a pessoa se recuse a fazer uma formação proposta disparatada, ou que não aceite um trabalho que nada tem que ver com a sua área profissional, e que ainda por cima será extremamente mal pago.

No caso específico da D.Leonor, e de tantos como ela, é desumano que depois de uma longa vida de trabalho, seja-lhe dito que para receber um subsídio, seu por direito, tenha que continuar a procurar trabalho, mesmo que seja em algo completamente diferente daquilo em que sempre trabalhou, ou que tenha que frequentar um curso de Animador Sócio-Cultural, ao invés de fazerem como de fossemos um país de primeiro mundo, tendo em consideração que faltando tão pouco tempo para a D.Leonor atingir a idade da reforma, que, se quiser pode procurar algo, ou então aguardar até ser reformada. Posso dar o exemplo dos Países Baixos, em que sei que isto acontece, até porque a minha sogra viu-se nesta mesma situação.

Já nos tempos idos, do nosso mui amável e saudoso Eng.José Sócrates, se engendrara um plano deste tipo. Era o chamado programa Novas Oportunidades, em que o intuito era exactamente igual ao de agora.

E perguntam-me vocês muito amofinados:

"Então, mas o que o Governo ganha com isto?"

Ganha duplamente. Se a D.Leonor os mandar dar uma grande volta, deixa de estar inscrita no Centro de Emprego, baixando assim os números de desempregados do país, dando s entender que foi criado emprego, e não foi, e ganham também menos um subsídio de desemprego que têm que pagar, porque se a D.Leonor se recusar a fazer a formação proposta, essa é logo a mais rápida consequência.

Formação obrigatória a pessoa acima de 60 anos é violência. Não que as pessoas não tenham capacidade de aprendizagem, mas, porque são pessoas que JÁ PASSARAM UMA VIDA A TRABALHAR.

Imaginem que até há uma proposta de trabalho semelhante à função que a D.Leonor desempenhava, e que precisam dela. Pois muito bem, julgo que sim, que a D.Leonor deve ocupar aquele cargo e trabalhar até à reforma, cuja idade é estupidamente alta, aliás, mas só se a proposta for completamente adequada ao perfil da senhora.

Mas como já disse isto é apenas mais uma forma encapotada de total desprezo e desrespeito pelo cidadão comum, e trabalhador que, na verdade, é aquele que sustenta esta máquina ferrugenta e balofa que é o Estado. 

Pergunto, mas de que estou eu a queixar-me? Neste microcosmos que é a minha página, estatisticamente mais de metade das pessoas votaram PS, por isso não há que reclamar. Eles são uma trampa e cheiram mal, mas fomos "nós" (entre aspas porque nós é muita gente, e eu incluo-me fora disso) que decidimos continuar a comer com eles, servidos numa travessa de porcelana caríssima, porcelana essa paga por nós.

27
Jan22

Lei do menor esforço


Pacotinhos de Noção

png_20220127_124945_0000.png

Existem várias categorias de leis. Existem as conhecidas leis judiciais, existe a lei de Lavoisier, a de Newton e até a de Murphy, mas todas elas são leis muito fraquinhas quando se deparam com a grandiosa Lei do Menor Esforço, que tem ganho adeptos diariamente e que são acérrimos defensores da mesma e colocando-a em prática contra tudo e contra todos.

É uma lei de uso fácil e à qual rapidamente nos adaptamos, mas não é inócua ou inofensiva porque para que alguém a possa usar há quase sempre o reverso da medalha que é o de existir que saia de alguma forma prejudicado. Mas vamos aos exemplos propriamente ditos, para que assim me consiga explicar melhor.

Recebo com frequência encomendas. Visto que durante o dia não estou em casa utilizo o endereço da minha mãe que vive num primeiro andar sem elevador, mas que sendo numa vivenda não fica assim tão alto.

Aconteceu-me já, não apenas por duas ou três vezes, que o tipo da transportadora, ou dos CTT, me telefone quando está quase a chegar ao destino, para informar que vai fazer a entrega e solicitando que desça até ao portão para vir buscar a encomenda, para que ele assim não leve tempo a subir as escadas, pedido este que rejeitei sempre por dois motivos. Primeiro porque me parece que custara muito menos a um "galalau" de vinte /trinta anos, a subir as escadas e depois descer, do que uma senhora de 65 a descer para depois ter que subir. Segundo porque, quando se paga a uma transportadora para ser feita a entrega da encomenda, não se paga até ao portão ou porta do prédio, mas sim para fazer a entrega na mão do cliente.

Receando estar a ser injusto ainda me passou pela cabeça se o indivíduo sofreria de mobilidade reduzida. Nunca se sabe, a empresa poderia estar a tentar ser inclusiva e ter contratado alguém de cadeira de rodas, e quando lhe perguntei isso mesmo obtive a resposta -"Não senhor, vou de carro".

Sim, pelos vistos os CTT são inclusivos, mas não com quem tenha mobilidade reduzida, mas antes com mentalidade reduzida. E só isso justifica a enorme lata, que alguém que despenhando as suas funções laborais, peça ao cliente que faça parte do seu trabalho. Mal comparado é como ir ao café, pedir uma bica e o funcionário dizer para me servir "porque a máquina está já ali".

Já não concordava com a recente moda dos super e hipermercados de terem caixas consideradas expresso, em que é o cliente que tem que fazer todo o serviço. Depois de começar a pagar pelo saco, para ajudar o ambiente, agora também trabalho como caixa para poder ajudar a empresa a poupar em funcionários, pagando assim menos  ordenados. Ainda por cima aquilo nem é verdadeiramente expresso porque, ou sou eu que tenho muito azar ou então nem sei, é invariavelmente apanho sempre uma velha à minha frente que não percebe nada daquilo e começa a registar as compras às 10:00 e só acaba a seguir ao almoço. Já para não falar nas vezes que as máquinas ou não reconhecem o código, ou a balança assumiu algo que não devia, ou ficam sem papel... Enfim, vida difícil.

Difícil, difícil é também a vida de alguns agentes imobiliários que tentam usufruir da "Lei do Menor Esforço", mas que não conseguem.

Quantos de vocês já tiveram um agente da Remax a perguntar se conhecem alguém que queira comprar ou vender casa e se, caso conheçam, não lhe ligam e ele depois até vos dá uma comissãozinha?

Comissãozinha não quero, assim como não quero a comichãozinha do nervoso que fico por ter mais alguém que quer que eu faça parte do seu trabalho.

Tudo bem, até me está a aliciar com uma comissão, mas se eu quisesse ganhar comissões a vender casas ia trabalhar para a REMAX. E não vou porquê? Porque não sei fazê-lo.

Ao contrário do que se possa pensar é um trabalho que para ser bemfeito tem muito que se lhe diga, aliás, como grande parte dos trabalhos. Por isso é que há depois  aqueles que o fazem como deve ser e há também os outros, que tentam aplicar a lei do menor esforço tentando que alguém trabalhe por si.

Concluindo tenho uma proposta para os meus amigos.

Iniciei agora um apaixonante trabalho de limpeza premium de retretes.

Gosto muito e nasci para isto, mas gostava de saber quem dos senhores sabe manejar com mestria um piaçaba. Quem souber que diga algo, que preciso de uma mãozinha.

07
Dez21

Fazia na boa


Pacotinhos de Noção

png_20211207_024103_0000.png

Qual é na realidade a dificuldade de se ser advogado? Ir para a frente de um juiz e defender ou acusar um tipo qualquer. Gritar protesto e ouvir o que os outros têm a dizer e depois fazer perguntas.

 Podia fazer perfeitamente, fartei-me de ver filmes do Perry Mason.

E o trabalho de um taxista?

Ficar de rabo alapado o dia todo, em carros que agora até têm ar condicionado, a ouvir rádio e a levar pessoas de um ponto ao outro... Fazia na boa e até melhor que eles, que conduzem mal como o caraças.

E ser cozinheiro?

Ali refundido na cozinha, à volta de coisinhas boas para comer e ainda por cima são pagos. Por isso é que os cozinheiros são todos gordos, comem muito e fazem pouco.

Ainda por cima a papinha agora vem toda feita porque já dá para comprar batatas descascadas e mil e uma coisas pré-preparadas.

O trabalho de sapateiro é outra brincadeira.

Engraxar uns sapatos, vender umas palmilhas e meter 3 ou 4 pregos nas solas de um qualquer calçado. E depois ainda cobram um dinheirão. Uma gatunagem. São eles e as costureiras, que passam o dia sentadas à máquina, a brincar com trapos para depois pedirem uma batelada de dinheiro, quando aquilo é só meter na máquina. Ainda por cima costurar é terapêutico.

Podia aqui dar mil e um exemplos de formas de tentar minimizar o trabalho de cada um, e porquê? Porque é aquilo a que cada vez mais tenho assistido. Pessoas que não têm nenhum pudor em, na frente de uma pessoa que desempenha a sua função, afirmar que aquilo que o outro faz não é assim tão importante. Não têm a coragem de o dizer com todos os pontos nos i's, preferem dar aquela pequena alfinetada como só os velhacos conseguem dar, como, por exemplo dizer à senhora da caixa do supermercado que "no fim do dia, ai sentada só a passar compras, o melhor é ir a um ginásio porque uma pessoa mexer-se tão pouco, até lhe pode fazer mal".

Todos nós já tivemos um destes pensamentos uma vez ou outra e até posso aqui deixar um erro comum, como é o caso dos nadadores-salvadores, que passam ali, o dia todo na praia a apanhar banhos de sol e a dar mergulhos no mar. Será que é mesmo isto tudo e é possível que os nadadores-salvadores possam ir à água quando querem? Passar 8 horas a trabalhar na torreira do sol, será mesmo tão agradável? E a responsabilidade, não conta?

Todos os trabalhos têm o seu quê que faz com que não seja assim tão positivo, mas para a grande generalidade das pessoas o único trabalho mau é o seu e todos os outros seriam feitos com uma perna atrás das costas.

Egoísmo e desrespeito são características que definem bem estas pessoas, mas que não as completam. Ignorantes, desinformados e com pouca capacidade de raciocínio também fazem parte deste "pout-pourri" de estupidez que não lhes permite colocarem-se no lugar dos outros.

Volto a repetir que não existem profissões fáceis, e se por acaso alguém estiver a pensar em mencionar a profissão de "influencer" como sendo, digo-vos desde já que lamento, mas estão redondamente enganados... "influencer" não é profissão. Para se exercer uma qualquer profissão é necessário conseguir raciocinar, nem que seja o básico, e como todos sabem, os "influencers"...

Em relação à minha profissão posso dizer que não trocava com nenhuma outra. Não é porque goste muito, na verdade nem gosto nada, mas como gosto tão pouco de trabalhar o melhor é ficar com esta, não vá calhar-me outra ainda pior. Podia era ir para "influencer".

20
Nov21

Morte Laboralmente Assistida


Pacotinhos de Noção

Polish_20211120_174844884.jpg

Recentemente voltou a ser aprovada no parlamento a lei da morte medicamente assistida, vulgarmente conhecida como eutanásia. Gostaria de sublinhar que houve votos contra e votos a favor tanto no PS como no PSD, o que significa que não houve instrumentalização dos deputados e cada um votou com a sua consciência. Deveria ser sempre desta forma, isso sim, é viver em democracia e saber representar quem neles votou.

Mas embora esta introdução possa levar ao engano, não é acerca deste assunto que quero falar. Venho, isso sim, falar acerca da morte laboralmente assistida que, caso não tenham ainda percebido, é um processo em qual todos nós estamos inseridos. É certo que há alguns que lhe conseguiram escapar, mas nem sabiam ao que fugiam.

A morte laboralmente assistida não é algo que aconteça do dia para a noite. Leva anos, leva muita paciência e é um estratagema muito bem montado.

A finalidade é a de poupar recursos ao Estado. Aos olhos de alguns isto poderá ser apenas uma teoria da conspiração, mas sugiro que continuem a ler e no fim logo me dirão se concordam ou não.

O estratagema consiste em colocar as pessoas numa azáfama diária, no percurso casa->trabalho, trabalho->casa. Poderão perder parte da vida em transportes públicos, que de ano para ano se vai prometendo que serão melhores, mas que nunca é aquilo que testemunhamos. Quem quiser fugir a este suplício poderá ir para o trabalho em transporte próprio, mas também sofrerá no trânsito, sofrerá nos valores que terá que pagar de combustível e sofrerá para encontrar estacionamento.

No trabalho estará sobre constante stress. Ou por os prazos serem curtos, ou, porque a empresa está em risco de fechar, ou simplesmente por o patrão ser uma besta e gostar de chatear.

No fim de um dia de trabalho há que passar por uma superfície comercial, para fazer as compras do dia. Mais stress, mais preocupações porque os produtos só aumentam e qualquer dia mais vale comer areia da praia. Temos a ideia de que queremos comprar biológico porque supostamente é mais saudável, mas a ideia vai por água abaixo. Os preços são proibitivos por isso comemos um bocadinho menos saudável. Pode ser que nem faça mal. Podíamos comprar legumes à D.Augusta que até tem uma horta, e mais biológico seria difícil, mas ela deixou de vender para fora quando a câmara a multou porque não tinha licença.

Chegando a casa vemos um monte de contas para pagar. A luz, o gás e a água aumentaram. Os miúdos não param de crescer e precisam de roupa nova. Fomos à Primark, mas o barato sai caro e vestir a roupa lá comprada parece mais que é uma promessa ou é um castigo. Por muito que se procure não se encontra nada de jeito e aquelas cuecas que lá se comprou causam uma micose que até apetece cortar os...

Da escola disseram que as refeições também aumentaram. Já perguntámos se as crianças poderiam levar comida de casa num cestinho, como antigamente, mas disseram que não. Logisticamente é difícil e não é inclusivo para as crianças, que se poderão sentir à parte e com traumas... Mas estou a desviar-me do assunto principal. Os dias, as semanas e os anos vão passando e tudo vai permanecendo sempre igual. Uma ou outra melhora, outras pioram, mas quase nada muda. O desgaste vai-se sentido cada vez mais. Temos férias que vamos gozando mas também se pagam caro, e se não for caro é a crédito, o que é ainda mais caro.

Os miúdos são graúdos, já saíram da Universidade que custou os olhos da cara. Custou os da cara porque conseguiram entrar na pública, se fosse na privada custariam outros mais.

Estão com 30 anos e não desamparam a loja. São formados e orgulham-se de ser de uma geração das mais instruídas, mas isso de pouco vale porque a instrução não lhe deu emprego e os pais, pouco instruídos, são quem os continua a sustentar porque embora velhos ainda vão conseguindo manter o trabalho que tinham. Mesmo quando os filhos arranjam trabalho continuam a ser um peso para os pais, porque querem comprar casa e dava jeito uma ajudinha. As poucas poupanças que se foram amealhando acabam aplicadas no futuro daqueles que pode ser que ainda o tenham.

Mas não faz mal, daqui a dois anos chega a reforma, e embora não seja muita finalmente vamos poder ter um bocadinho de tempo para nós e descansar, ler uns livros, brincar com os netos e fazer aquilo que durante décadas não foi possível fazer, porque estávamos naquela correria louca. VIVA A REFORMA!

Só que, entretanto morremos. Sim, morremos porque a reforma aqui é aos 66 anos e 6 meses, e com uma vida de stress, de luta para saber como pagar as contas, num país em que quase tudo é complicado, a corda teria que rebentar, e aos 66 anos o lado mais frágil da corda é aquele que nos prende à vida. Isto, meus amigos, é a morte laboralmente assistida. É fazer-nos trabalhar cada vez até mais tarde porque desta forma morremos antes de conseguir sequer gozar um mês de reforma.

Pensem em exemplos próximos e com consciência. Quantas pessoas conheceram que morreram enquanto ainda trabalhavam ou que morreram logo após se reformarem?

Alguns vão romantizar dizendo que morreu logo após deixar de trabalhar porque era o trabalho que lhe dava alento... Até concordo, se for um artista plástico, um actor ou um músico. Mas eu, que sou menos romântico nesse sentido, digo-vos que até estes artistas mencionados, só trabalham até onde podem, porque nem à reforma têm direito, ou quando têm é também miserável.

A morte laboralmente assistida existe. Não está consagrada em nenhuma constituição nem foi votada no parlamento, mas é uma espada sobre a nossa cabeça e não lhe podemos fugir.

Sempre ouvi que quando chegar a altura não vou ter reforma. Quando era miúdo pensava ser treta e agora tenho a certeza que não o é porque, na verdade quando eu chegar à idade da reforma a reforma é que já não me vai ter a mim, porque provavelmente já estiquei o pernil.

04
Set21

Escravatura artística


Pacotinhos de Noção

210903_WhatsApp-Image-2021-09-03-at-10.54.02-720x1

Morreu ontem Igor Sampaio.

Não tenho muito que dizer da pessoa porque pura e simplesmente não o conhecia. Sei que uma familiar é seguidora deste espaço e como tal dou-lhe os meus pêsames.

Em relação ao artista tenho a dizer que simpatizava bastante. Era um actor com pergaminhos mas devo dizer que a personagem dele que mais me marcou poderia ser considerada de menor relevo uma vez que fazia parte da sitcom de 1995, "Tudo ao molho e fé em Deus". Poderá ser redutor mas foi um programa que acompanhou a minha pré-adolescência e que segui com alguma atenção. Mas definir como redutor quando nessa sitcom tínhamos Igor Sampaio, Diogo Infante, José Pedro Gomes, Ana Bustorff e Alexandra Lencastre, é apenas má vontade. Pelos vistos na altura apostavam em actores de qualidade, até para uma sitcom.

Mas o assunto que quero abordar é de alguma forma delicado, e é um vespeiro que tenho pensado várias vezes se valerá a pena espicaçar ou não. Isto porque poderá de alguma forma ofender produtoras ou canais de televisão, mas vamos lá e logo vemos se existirão consequências. Afinal de contas este Instagram não é tão visível, ao ponto de me trazer problemas.

Igor Sampaio, Maria João Abreu e Filipe Duarte. Todos eles artistas e todos eles morreram num curtíssimo espaço de tempo, ou com AVC's, aneurismas, ataques de coração. Temos depois Rogério Samora que está a lutar pela vida na cama de um hospital e que também lá foi parar com um problema cardíaco.

Noutra vertente temos Pedro Lima que cometeu suicídio, e uns afirmaram que por dívidas (algo que a esposa já desmentiu) outros dizem que o actor sofreu um esgotamento.

Sei que estou apenas a especular mas gostaria que pensassem sobre o assunto e que alguém responsável pudesse legislar a situação, mas o que é um facto é que outro dos pontos comuns a todas estas pessoas é que estavam a trabalhar horas e horas a fio, com stress constante, com a pressão de terem as cenas gravadas a tempo e horas em autênticas maratonas de filmagens.

Isto não deveria ser regulamentado?

Não deveriam as produtoras, e até os canais de televisão, serem obrigados a respeitar um limite máximo de horas de gravação e um limite mínimo de descanso?

E porque não passariam a transmitir as novelas apenas aos dias de semana, podendo assim ter dois dias extra para edição e montagem e melhor planeamento de gravações? Eu sei que a luta pelas audiências é feroz, mas esgotar os artistas ao máximo, no meu entender, poderá acabar por não compensar. Pelo menos a estes, sobre os quais falo, não compensou.

Há poucos dias ouvi no Maluco Beleza uma conversa entre o João Paulo Sousa e o João Baião. A determina altura, e sem ser em formato de queixume, João Baião afirma que no momento o único dia de folga que tem é ao Domingo e que mesmo ai tem que preparar a semana a seguir... Tudo bem, o João Baião é fonte de energia inesgotável, mas é inesgotável até que acaba, e acaba sem aviso prévio porque a determina altura a mente quer, mas o corpo não aguenta.

Se repararmos com atenção, aquilo que as televisões estão a fazer é o mesmo que algumas empresas, que depois têm os sindicatos à canela. Tentam ter o maior número de produção mas com o menor número de funcionários.

Tanto se fala sobre trabalho escravo e exploração, e depois temos as situações destas figuras, que são públicas, mas que não se queixam porque poderiam estar a extinguir aquele que é o seu ganha-pão.

Todos sabemos que no mundo do espectáculo não há contratos, não há limites e não há respeito. O interesse mais básico de todos não é divertir o público, é inundá-lo de conteúdos, uns atrás dos outros para não dar nem tempo de mudar de canal, para conseguir e manter as audiências e assim conseguirem mais publicidade vendida a preços mais caros.

No meio desta orgia de lucros e valores estão os artistas.

"Ah, mas eles estão apenas a brincar aos teatros e às novelas..."

Esta falta de respeito por quem nos faz chegar a cultura, mesmo que em pacotes de caldo Knorr que são as novelas, já foi visto durante os confinamentos. Não havia trabalho, não havia apoios, não havia futuro enquanto estivessem fechados em casa.

Também isso levou, e leva, ao desespero daqueles que trabalham com cultura. Aqui falo em actores, mas recentemente também se suicidou Tony Lemos, um músico do grupo Santa Maria. Será isto tudo coincidência?

Gostaria de lembrar a quem me lê que não é porque um palhaço faz rir que esse palhaço está sempre contente. Muitas das vezes faz rir e ajuda as pessoas a esquecer os seus problemas mas está desfeito por dentro, ou cansado, ou doente.

Estas mortes todas, ainda por cima com tantos pontos em comum, não podem ser um triste acaso do destino.

Dir-me-ão que o Igor Sampaio tinha 76 anos. Exactamente, tinha 76 anos mas ainda trabalhava, e muito bem se era o que desejava, mas em que condições? E os 76 anos de hoje não são os 76 anos dos tempos dos meus avós, que se chegassem aos 70 já era uma vitória.

Posso estar a ser injusto e na realidade isto tudo ser apenas uma conjugação de tristes factos, mas quem estiver dentro do assunto saberá se o que estou a dizer é real ou uma alarvidade. Caso não se queiram expor poderão dizer-me pelo privado, para me retirar da minha ignorância.

05
Ago21

A paridade não quer nada comigo


Pacotinhos de Noção

698f94cd-7569-42de-b3d0-84e6559d2c2e.jpeg

 

Sou um defensor acérrimo da paridade de géneros.

Tanto assim é que tenho dois pneus do carro para mudar mas enquanto não encontrar uma Norauto com senhoras que o façam, ando com os velhos. É uma vergonha serem só homens a fazer este serviço.

Para verem como a paridade é algo que tenho em tanta conta desde já vos dou a conhecer que anteontem apresentei uma queixa na Segurança Social porque não consigo encontrar uma creche que tenha 40% de homens a trabalharem como educadores ou auxiliares. Julgo ser uma discriminação e uma falta de respeito para com a figura masculina.

Estava a brincar. Não tenho pneus para mudar e não tenho filhos na creche e também estava a brincar com essa coisa da paridade. "Coisa", isso mesmo.

Tentar obrigar a que uma empresa, um Governo ou instituições pertencentes à função pública tenham que respeitar quotas obrigatórias de mulheres apenas porque são pessoas sem testículos, parece-me uma "coisa" e um favorecimento, e para favorecimentos temos bons políticos e dirigentes desportivos, que lhes saberão dar melhor uso.

Inventar algo como a lei da imparidade e impor determinado número de mulheres em trabalhos, apenas porque são mulheres é medíocre e um atestado de estupidez. Mal comparado é como o filho do patrão que só está na empresa porque é filho do patrão.

Defendo que têm que ser dadas iguais oportunidades a todas as pessoas e se as pessoas se demonstrarem competentes ocuparão o lugar a que têm direito. De que adianta ter obrigatoriamente 40% de mulheres em determinada empresa quando essas mulheres estão lá só porque sim e dessa forma julgam que nem vale a pena serem produtivas. É que o delas já está garantido no finalzinho do mês.

Alegarão que estou a partir do princípio que essas mulheres estarão a agir de má-fé e que não o posso fazer. Mas claro que posso. Assim como muita gente também parte do princípio que as entidades patronais estão a colocar mais homens do que mulheres apenas por serem sexistas.

Não me iludo. Todos os dias continuo a ver homens valentes à antiga. Daqueles que passam dias nos copos e que defendem que as mulheres têm é que ficar em casa a tomar conta dos filhos.

Este tipo de pensamento é já tão ultrapassado que chama-lo de pensamento é até uma afronta. Mas existe, é um facto, mas não vai mudar apenas porque mulheres conseguiram garantir postos de trabalho por serem mulheres.

Não estamos a caminhar para, neste momento estamos já a chafurdar no meio de uma sociedade lamacenta, cuja meritocracia é um valor colocado de parte. Na verdade tem sido um valor ignorado desde o início dos tempos, mas era-o de uma forma dissimulada e agora é descaradamente.

Desde familiares de políticos, que são colocados estrategicamente em cargos, empresas privadas e empresas públicas, com o fim de criarem uma rede de influências bem distribuídas, até a mulheres que por serem mulheres são beneficiadas e até a jovens que terão acesso facilitado ao ensino superior apenas porque a morada que lhes pertence é a de um bairro social.

Mas é da paridade que estamos a falar, e ver mulheres orgulharem-se das migalhas que lhes põem no prato, apenas porque é lei, deixa-me a pensar que essas mulheres sim, só chegarão a algum lugar se forem efectivamente ajudadas.

Ter 40 ou 50% de mediocridade é bem pior do que ter 10 ou 20% de excelência.

Isto não é um ataque às mulheres. Nada tenho contra elas. Antes é um ataque contra os facilitismos que servem apenas para de uma forma simples se conseguir cumprir objectivos que no papel ficarão bem, mas que na prática pouco mudarão.

 

 

 

 

22
Jul21

Decidam-se


Pacotinhos de Noção

Polish_20210722_170722029.jpg

Tem circulado esta imagem, com esta notícia, pelas redes sociais. Na Argentina passará a ser reconhecido o trabalho das mães, que ficam com os seus filhos em casa, e será contabilizado para efeitos de reforma. Este reconhecimento tem a duração de 1 ano, o que a mim me parece escasso, mas 1 ano sempre é melhor que nenhum e quem crítica sou eu, um português que vive inserido num sistema que nem nunca colocou esta hipótese em cima da mesa.

Agora vamos à parte com a qual não concordo.

Esta medida é catalogada como uma vitória feminista e é apenas orientada para as mães. É impressão minha ou vejo aqui uma feminilidade tóxica, de uma sociedade que delega o homem para segundo lugar e que despreza o papel desse mesmo homem como pai e que poderá também querer ter a alternativa de ficar a tomar conta dos seus filhos? Então mas isto dos direitos funciona só para um dos lados?

Não são respeitados os direitos da mulher e é uma vergonha, não são os dos homens e é uma vitória feminista.

Por essa ordem de ideias significa que o magro insultar o gordo, o branco ser racista com o preto e um bronco ofender um homossexual é uma desgraça, mas um gordo insultar um magro, um preto ser racista com um branco e um homossexual ofender um bronco é uma vitória das ideias que, neste caso, os agressores defendem?

Sei que é um exemplo arcaico, mas quero com isto dizer que não pode haver dois pesos e duas medidas. A justiça das acções tem que sofrer de igualitarismo.

Em relação a esta medida devo dizer que não a vejo como uma vitória feminista mas sim uma vitória social. Afinal de contas os primeiros anos de um filho deveriam ser juntos dos pais e não entregues a pessoas, que fazendo o seu melhor, por mais que se esforcem não são pais e que estão a formar crianças que desde cedo se habituam a ser institucionalizados. Dai achar que o acompanhamento de um dos pais, caso quisessem, deveria ser até aos 5 anos de idade.

Voltando à questão do feminismo há mais um ponto que me chama à atenção.

Então uma das principais lutas das mulheres, não foi durante anos e anos não quererem ser encaradas como simples parideiras, que o seu papel não poderia ser apenas o de donas de casa e de mães e que queriam ter o seu lugar no mercado de trabalho... E quando finalmente parece que a coisa se está a compor, afinal uma vitória do feminismo é voltar dois passos atrás, voltando para casa a tomarem conta dos filhos?

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub