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Pacotinhos de Noção

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

A noção devia ser como o açúcar e vir em pacotinhos, para todos tomarmos um pouco...

Pacotinhos de Noção

13
Ago21

Uma questão de nomes e pronomes


Pacotinhos de Noção

egocentrismo-1.jpgA falta de respeito pela sociedade incomoda-me bastante. O cuspir e mandar beatas para o chão, passar sinais vermelhos, meter os pés em cima dos bancos nos meios de transporte ou não dar o lugar aos mais velhos deixa-me sempre a pensar no quão egoísta se pode ser, ao imaginar que a sociedade existe apenas para o usufruto de determinada pessoa. Como acabei de afirmar esta falta de respeito incomoda-me mas a falta de respeito pelo indivíduo embrulha-me o estômago. Fico com vontade de me meter ao barulho e ser estúpido para quem demonstra que é estúpido para com alguém. Fico tão chateado que posso até afirmar que se fosse um Deus seria um bem punitivo e então, com todos os meus poderes, mal uma pessoa tivesse este tipo de falta de respeito passaria a mancar. Se as más atitudes tivessem continuidade então, além de ser coxo, passaria também a ser marreco e ia sempre por ai fora, até se transformar numa Betty Grafstein. Aos poucos das duas uma, ou seríamos todos Betty's ou a coisa acabava por se compor.

Gosto de dar exemplos daquilo de que me queixo para que melhor seja entendido.

Quem anda de transportes, e costuma bebericar um café nos estabelecimentos de estações e terminais de comboios, barcos ou autocarros, de certeza que já se deparou com a personagem que tem mais pressa do que nós.

Ora levanto-me eu da minha caminha atempadamente, para poder passar pelo café e tomar o meu pequeno-almoço ou simplesmente beber uma bica, e eis que surge então uma pessoa cheia de pressa, já com as moedinhas contadas na mão, passa à frente de todos e diz que "é só um cafézinho que tenho pressa". A pressa aqui há-de ser para ir apanhar o seu transporte que, no meu entender e pela atitude demonstrada, deverá ser um carro de bois que só se moverá quando esta personagem colocar o jugo para o puxar. A falta de educação deste imbecil, que em vez de tirar a cabeça da palha mais cedo, tal como eu fiz, deixou-se ficar a dormir (dá para perceber pela cara ramelosa) revolta-me. Desde já aviso a algum dos ramelosos que porventura esteja a ler isto, que se no café alguém não vos deixar passar à frente, a probabilidade dessa pessoa ser eu é muitíssimo... nula. Sou um caguinchas e depois ainda levo alguma tareia.

Outra situação que me dá taquicardia é quando se dirigem a mim, mas sem desligar o telemóvel, ou quando estão a falar comigo mas ao mesmo tempo a escrevem mensagens. Tudo bem, admito que possa não ser a pessoa mais interessante, mas há que ter o mínimo de delicadeza e pelo menos fingir que se está a ouvir, ou então pedir licença e mentir, dizendo que "tenho mesmo que enviar uma mensagem". Só a desculpa já demonstrava que aquela pessoa tem pelo menos um bocadinho de respeito e consideração por mim.

Para finalizar tenho uma situação que já presenciei várias vezes e que se está a tornar muito comum, mostrando o quão arrogante se pode ser, e que colocar um monte de bosta (em sentido figurado, claro) na cabeça de alguém, é coisa que não custa assim tanto.

Imaginem que se chamam Duarte ou Luana. São nomes meramente exemplificativos mas qualquer nome que foneticamente possa ser confundido com outro, serve.

Perguntam-vos o nome e respondem Duarte ou Luana e a pessoa, que poderá ter percebido mal diz "Eduardo!? Joana!?" Podia ser um mero equívoco, mas deixa de o ser quando a partir deste momento não importa mais, porque podem emendar, soletrar, fazer o pino mas para aquela pessoa são o Eduardo ou a Joana. Por mais que insistam em corrigir o máximo que vão conseguir é um "sou muito distraída, mas Duarte/Eduardo, Luana/Joana, é quase igual.

Não não é. Galinha e perua também são quase iguais, mas não são os mesmos e olhando para uma pessoa que não consegue fixar o nome da outra, a confusão que poderá aqui emergir é apenas essa. Se ela é uma galinha ou uma perua.

O nosso nome é o NOSSO nome, por mais comum que possa ser. Joões há muitos no mundo, mas há um João específico que é aquele João, com as suas qualidades, defeitos, feitios e individualidades. Estar a errar no nosso nome, e ainda insistir no erro, é dizer que "esta pessoinha é tão insignificante que nem me esforçarei minimamente para corrigir ou sequer recordar de como se chama. Estas pessoas são as mesmas que tratam os empregados de mesa por "Psst" e que "Obrigado" e "Se faz favor" são como às calças à boca-de-sino, que já se usaram mas que entretanto já nos deixámos disso.

O exemplo dos nomes é o que mais me toca, precisamente porque é o tipo de falta de respeito mais pessoal que pode haver. Ninguém nos está a ofender moralmente, não estão a dizer que alguém é isto ou aquilo nem tampouco a chamar nomes a uma progenitora, mas este tipo de ofensa, e pouco caso para com o outro, demonstra que cada vez mais queremos saber menos das pessoas. Na verdade todos os exemplos que dei demonstram isso mesmo.

Não sou sociólogo mas sou muito "teoriologo", e embora não elabore teorias da conspiração elaboro algumas acerca da sociedade. Situações como a que se viveu no Euro 2020, dos adeptos da Inglaterra que individualizaram a culpa da derrota em 3 jogadores da própria selecção, demonstram que é cada vez mais simples faltar-se ao respeito a uma pessoa só, do que a toda uma comunidade. Isto porque as comunidades são enormes minorias que, cada vez mais, vão tendo sempre associações, membros partidários e individualidades do mundo social que os defendem porque acaba por ficar bem, quando se falta ao respeito a uma pessoa só então estão a faltar ao respeito a uma pessoa que está mesmo SÓ. Reparem que este caso não teve manchetes porque os jogadores foram ofendidos individualmente. O que chamou à atenção foi porque foram vítimas de racismo e a comunidade negra foi toda ofendida. Com uma sociedade a querer cada vez menos saber de cada um de nós, é natural que depois, mesmo que camufladamente, existam pessoas que se comportem como se o outro seja apenas um nada. Ainda por cima muitos deles podem até ter lido livros do Gustavo Santos, que gosta de afirmar que "aquilo que importa é o EU.Todos à volta são nada, o importante é aquilo com que vivo e eu vivo 24 horas com o EU".

Lamento pelo Gustavo Santos, porque se o EU de quem gosta for igual ao ELE que nós vemos, então é uma desgraça, e lamento por todos os que se focam demasiado no EU e que que acabam por ser um eu seco e vazio que mal se dará com um ELES e que dificilmente terá um NÓS.

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